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A síndrome de Rebecca

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O vigor com que a campanha do presidente Lula lança uma condenação aos infernos daqueles que privatizaram as estatais brasileiras fazem lembrar o filme Rebecca, a Mulher Inesquecível de Hitchcock. No filme, a Rebecca morre e o marido se casa de novo, mas nem ele nem os empregados da mansão em que morava conseguem esquecê-la. A pobre da nova esposa era permanentemente perseguida por memória da defunta até que toda sorte de desgraças se abate
sobre a família. Todos morrem, a mansão pega fogo, uma tragédia de proporções gigantescas a merecer um tango.

Romantizar a época das estatais é a própria Síndrome de Rebecca, apelido que Alvin Gouldner colocou nesse tipo de nostalgia organizacional. Mas sempre é bom relembrar os fatos antes de prantear as estatais privatizadas.

É bom também lembrar que não se está falando do governo de FHC e sim dos governos Collor, Itamar e FHC que foi quando a desestatização ocorreu. Vale a pena ver de novo a Era de Ouro do Estatismo? Tenho minhas dúvidas… ou certezas?

A Usiminas era uma siderúrgica estatal deficitária que o governo Itamar privatizou em 1991 sob protestos indignados de sindicalistas e simpatizantes. No dia da privatização, um deles deu um chute nos fundilhos de um dos banqueiros que chegava à Bolsa do Rio para o leilão, de tão revoltado que estava. O Sistema Usiminas atualmente produz 12 milhões de
toneladas de aço, emprega quase 20 mil pessoas e pagou R$ 3 bilhões de impostos em 2005. Não pede favores nem protecionismos para sobreviver como na década de oitenta, embora o mercado brasileiro de aço seja ferozmente
disputado por dezenas de megaprodutores nacionais e estrangeiros, o que aliás só beneficiou os industriais e consumidores. Ah, (suspiros) … mas a Rebecca sim é que era inesquecível.

A Embraer, outro ícone sempre lembrado, quando foi privatizada era uma empresa falida, na qual o governo injetava dinheiro diretamente como capital ou disfarçadamente sob a forma de encomendas para que não fechasse.
Privatizada, a Embraer se transformou na terceira maior empresa aeronáutica do mundo, seu quadro atual de funcionários supera 17.000 pessoas e é um dos maiores exportadores nacionais com mais de US$ 4 bilhões de dólares por ano.

Quem está melhor homenageando o brigadeiro Casemiro Montenegro e seus companheiros de pioneirismo no ITA e no CTA? Os empresários que a compraram ou os burocratas estatais que a quebraram? Mas a Rebecca sim é que era inesquecível…

A Rede Ferroviária Federal foi desestatizada em 1996 quando os milhões de reais que lhe eram repassados como subsídio ano sim outro ano também se mostraram insuficientes para manter um padrão minimamente decente de serviços. Em seu último ano de operação, a Rede havia investido R$ 44 milhões no transporte ferroviário brasileiro. Privatizada, a estatal se dividiu em várias empresas que, em 2006, investiram R$ 3,4 bilhões na modernização do sistema, um pequeno acréscimo de 7.000%. De lambuja, a indústria brasileira de vagões e material ferroviário que estava quebrada renasceu. Ah, é verdade …mas que saudades da Rebecca!

E o prosaico pão francês e o macarrão nosso de cada dia que deixaram de ser um problema de segurança alimentar quando o governo Collor acabou com o monopólio governamental sobre as importações e o passeio do trigo? Nunca ouviu falar no passeio do trigo, distraído leitor? Era assim: até 1990 só quem podia moer trigo no Brasil eram os moinhos aos quais o governo federal concedia cotas de produção, um cartório industrial. Como as áreas geográficas de produção se expandiam, mas os moinhos continuavam obviamente no mesmo lugar em que haviam sido construídos, pegava-se o trigo produzido em Cascavel, colocava-se em cima de um caminhão e se enviava para moer em Ponta Grossa. Depois se colocava a farinha empacotada em um outro caminhão e se enviava para os supermercados de Cascavel que vendiam aos cascavelenses.

Rebecca … que mulher!

Numa coisa a desestatização falhou redondamente, mas isso o PT não lembra. Enquanto Margareth Thatcher aproveitou a desestatização para pulverizar o capital das grandes estatais britânicas para milhões de pequenos acionistas criando as bases de um moderno capitalismo popular, aqui os governantes preferiram transferir o capital para fundos de pensão, grupos empresariais privados e bancos. A forma pela qual isso foi feito teve todos os ingredientes do favoritismo e roçou os limites da irresponsabilidade, como disse o ex-diretor do Banco do Brasil, Ricardo Sérgio.

Então, veja caro leitor, que coisa curiosa: os maiores proprietários das ex-estatais são os fundos de pensão dos funcionários das estatais: a Previ do Banco do Brasil, a Petros, o Funcef da Caixa Econômica Federal e de outras estatais. Fundos aliás capitalizados largamente no passado pelo contribuinte e pelo consumidor brasileiro sem saber. Assim é fácil entender porque a Rebeca é realmente inesquecível.

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4 Opiniões

  1. Israel disse:

    Muito esclarecedor.

  2. José Grangeiro Sobrinho disse:

    Muito interessante o parâmetro feito pelo autor, entre o filme “Rebecca” e o processo de desestatização brasileiro, introduzido no governo Collor e desencadeou, por aí adiante.É muito difícil entender, porque uma empresa, quando estatal, demonstra quadros claros de prejuízo, e esta mesma empresa, logo após privatizada, mostrar lucros exorbitantes. Alguma coisa andou errada. Ou, no mínimo, alguém tem que ter saudades realmente de “Rebecca”. Muito bem vinda a “comparação”.

  3. Camilo Terras disse:

    Prezado José
    Acho fácil entender a mudança: incompetência X eficiência, corrupção X trabalho sério. Aconteceu em todas as empresas privatizadas.

  4. Markut disse:

    Aliás, a maneira como Lula usa, na sua demagogia barata, a demonização do “palavrão” privatização, mostra bem o estilo de ludíbrio das massas votantes, quando, talvez, nem ele acredita no que está apregoando.Os resultados estão aí, muito claros e palpaveis.
    Estamos naquela de ” me engana que eu gosto”

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