Início » Opinião » Artigos » Cadeia para João Ubaldo Ribeiro
Artigos

Cadeia para João Ubaldo Ribeiro

Os excessos e abusos cometidos por uma senhora aposentada no Rio de Janeiro, ao se defender de um assaltante, ainda tem rendido comentários na imprensa. O mais recente, do escritor João Ubaldo Ribeiro, publicado no último dia 15, em diversos jornais do País, merece maior atenção.

Como se sabe, o criminoso era conhecido das autoridades policiais por sua extensa folha corrida. Por isso mesmo ele circulava livremente, assaltando principalmente velhinhos do bairro do Botafogo, na Zona Sul do Rio. Até o dia em que d. Maria Dora, ameaçada pelo biltre e injustamente se sentindo desamparada pelo Estado, resolveu enfrentá-lo com uma arma de fogo na saída de um supermercado. Ocorre que, ao disparar o tiro no meliante, a anciã cometeu outro delito, eis que não tinha porte de arma! De fato, d. Maria Dora acabou na Delegacia, depois que 8 (oito) viaturas acorreram ao local em que o nefando crime foi por ela praticado. A ameaçadora senhora teve que pagar fiança e enfrentar os dissabores por que passam todos os criminosos cariocas. Se, ao invés da idéia simplista de apanhar o revólver e sair com ele na bolsa, d. Maria Dora tivesse tomado aulas de kung-fu ou tae-kwon-do, ela não teria cometido nenhum delito e teria poupado a mobilização de recursos do Estado.

Mas eis que o autor de Itaparica resolveu solidarizar-se com a vovó-atiradora. Lamenta até que os papéis tenham se invertido, pois o script conhecido determina que as vítimas sejam alvejadas, e não o contrário. Com fina ironia, ele desfia os argumentos usados pelos defensores dos direitos humanos, querendo expô-los ao ridículo.

Ao escrever aquele artigo de jornal, o festejado autor baiano, hoje radicado no Leblon, também na Zona Sul do Rio, cometeu outro crime: apologia de crime ou criminoso. De fato, o art. 287 do Código Penal tipifica como crime fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime. Também o art. 19, da Lei 5.250/67, que regula a liberdade de manifestação do pensamento e de informação, estabelece que é crime incitar à prática de qualquer infração às leis penais. Com a redação temerária de seu comentário jornalístico, João Ubaldo pode ser condenado a vários anos de prisão. Como, aliás, ele mesmo prevê no próprio texto, demonstrando que não esqueceu os conhecimentos auferidos nos bancos da faculdade de Direito.

Agora só nos resta esperar que as sempre diligentes e atentas autoridades cariocas tomem as devidas providências para também encarcerar aquele perigoso membro da Academia Brasileira de Letras. Com a prisão de d. Maria Dora e João Ubaldo Ribeiro, o Rio de Janeiro, finalmente, voltará à tranqüilidade que lhe foi, há muito, subtraída.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

26 Opiniões

  1. Aldenio Macedo Filho disse:

    O senhor Candido – deve ser pelo nome – não entende o significado da palavra ironia e da liberdade poética que um cronista pode ter; o tal Instituto Liberal dever ser de liberdade só para ele, para os outros não…

  2. Petr Svacina disse:

    Podemos ver com o comentário do Aldenio como é difícil tentar chamar a atenção para os verdadeiros problemas do país. Uma mensagem é transmitida e outra coisa é compreendida. O mesmo ocorre com a população brasileira. Não compreendem o que vêem e ouvem. Por isso reelegem bandidos, achando que estão mudando o país. De fato estão…

  3. Luiz Fernando Nogueira disse:

    O Sr. Aldenio não deve ter lido o texto todo, ou não observou o último parágrafo com a devida atenção e “ironia” suficientes.

  4. Eduardo disse:

    o Sr. Prunes perdeu uma grande chance de ficar quieto, ou então foi de uma ironia tao sutil que ninguém entendeu, ou entendemos ao contrário. Presto aqui a minha solidariedade ao João Ubaldo, à velhinha atiradora e a todos que protestam de maneira espontânea contra esse estado de guerra civil que acontece nas cidades grandes desse país, mesmo que de formas tortas e/ou irônicas. Esse mundo tem advogados demais e justiça de menos.

  5. Marcelo de Matos Guerra disse:

    É preciso desarmar todas as Maria Dora por aí. Está provado que a auto-defesa traz mais riscos que vantagens. Entretanto, precisamos tomar cuidado ao sair de casa. A violência e as agressões estão em toda parte: à saída do supermercado, nas filas para abastecer o carro por preço mais baixo, nos bares e locais de diversão pública. Antes de sairmos de casa precisamos analisar bem a relação custo/benefício das compras ou do passeio.

  6. Edmilson disse:

    Quanta besteira junta! se a velhinha tivesse porte de arma, também seria presa porque o porte não a autoriza a atirar. Se tivesse dado uma surra de kung-fu, também seria presa por agressão. E você deveria ser preso por tentar caluniar a boa fé do João Ubaldo.

  7. Markut disse:

    Positivamente, estamos vivendo momentos de paranóia.
    Estou impactado pela reação do sr. Aldenio Macedo Filho ao comentário do sr. Candido Prunes. Onde eu ví exatamente ironia e liberdade poética, o sr. Aldenio viu exatamente o oposto. Confesso : não entendo mais nada.
    Para mim, este verdadeiro teatro do absurdo, mostra bem em que situação moral nos encontramos, onde as atitudes de personagens como a vovò “agressora”,a “justiça” cega, o sr Ubaldo , o meliante contumaz agressor de velhinhos, de ampla folha corrida e velho conhecido da polícia e o próprio sr. Cândido, formam um contexto francamente kafkiano.

  8. Paulo Melo disse:

    João Ubaldo Ribeiro descreve com perfeição os sentimentos do povo brasileiro isento de ideologias “partidárias” e nos mostra sempre a nossa fragilidade como cidadãos

  9. Petr Svacina disse:

    Que situação louca. A velhinha, nem nós, pode se defender. Ela tem que ser assaltada estóicamente pela quarta, quinta, até a enezésima vez. O nosso Estado esquisofrênico e psicótico presume que cabe às autoridades nos proteger. Na sua cabeça tudo é perfeito. A polícia é eficiente e gentil, o sistema é perfeito e a justiça infalivel. Só que a realidade berra o contrário e, pasmem, ninguém pode fazer nada! Sou a favor do porte de armas sim. Antes que começem a gritar, é claro que isso é perigoso e pode causar acidentes mas, pensem bem, com mais de 40 mil mortos ao ano, muitos deles causados pela polícia, nossas estatísticas só poderão melhorar. Se a população puder se defender, a certeza dos bandidos de conseguirem se safar sem problemas diminuirá.

  10. edson dias santos disse:

    Entendi a ironia no artigo do renomado escritor João Ubaldo.Segundo nos transparece, o texto do Sr. Cândido Prunes também é irônico. Caso estejamos errados, então a coisa é séria. Então que liberalismo é esse ?

  11. Da Redação disse:

    Prezado leitor, o artigo de Candido Prunes é igualmente irônico.

  12. Eduardo disse:

    Ironia escrita é sempre perigosa. Muito difícil saber quando se fala sério ou não, ainda mais quando se trata da ironia da ironia. Não é à toa que foram inventados os emoticons, uma forma divertida e eficiente de transmitir emoções 🙂

  13. Luiz Gonzaga disse:

    Na condição de colega de colegial e universidade, posso atestar o sentido humanistico que preside a vida e a trajetória do Ubaldo. A rigor, ele sempre questinou o comportamento ético dos gonernantes além de se constituir num grande gozador. Luiz

  14. Paulo Roberto Floriani disse:

    Ironias e banalidades a parte, prefiro concentrar-me no problema: não temos mais segurança. O plebiscito idiota tornou o povo ainda mais idiota e desamparado.Os bandidos estão rindo a toa, entram nas casas, assaltam, matam e estupram.Já devem ter entratado também em muitas casas de brasileiros e brasileiras que, candidamente, disseram NÃO às armas.

  15. Genaro di Battista disse:

    João Ubaldo Ribeiro foi um grande escritor, mas, na sua avançada idade, deveria abster-se de
    mesclar política com a sua arte. Assim como Pelé
    foi um gênio do futebol…e com a boca fechada, um “grande poeta”, os dois pertencem aquela classe da elite, que fez a escalada social de origens humildes, para depois execrar “o povinho brasileiro”. Não que ele não tenha o direito de expressão política, como todo cidadão brasileiro, mas, seu engajamento com a mentalidade coronelista, escravagista, degrada o pouco que resta da sua estatura de escritor imortal. Para mim, Ubaldo envelheceu demais, passou a ser um vivo-morto, um zumbi que não consegue nem baixar à terra nem subir aos céus. É simplesmente deprimente encontrar algum texto deste outrora grande escritor !

  16. Reginaldo Almeida disse:

    Em que país estamos? Quanta intolerância! Perdemos o senso de humor? Não sabemos mais discernir ironia de coisa séria? É óbvio que o texto é uma grande ironia a respeito de como as leis só afetam aos cidadãos idôneos, e que de fato nesse caso, o único que se deu bem foi a vítima: O ladrão que tentou roubar a pobre velhinha. Afinal ele estava apenas no cumprimento do seu dever constitucional, ou seja exercendo a sua função de ladrão, aí vem umha velhinha, que não exerceu de forma honesta e correta o seu dever de vítima e atrapalhou o “honrado” cidadão.

    Como diria o Reinaldo Azevedo: Tecla SAP por favor!

  17. Indaiá disse:

    É tão rídiculo que até parece piada. As nossas leis oprimem o cidadão honesto e, valorizam e protegem a marginalidade. Enquanto o bandido roubava estava tudo bem, quando o civil se defende é tratado como bandido. Nós estamos a deriva, perdidos e sem referencial, como tudo isso vai acabar? Os marginais favorecidos e os cidadões brasileiros encarcerados e humilhados, “isso é uma vergonha”.

  18. paulo disse:

    Eu acho que o direito só existe na teoria, enquanto a justiça na prática é impraticável.Porque o cidadão de bem pode ser alvejado ou morto por por qulaquer meliante, enquanto se for aocontrário não. Que país é esse que só protege o errado.

  19. paulo disse:

    Eu acho que o direito só existe na teoria, enquanto a justiça na prática é impraticável.Porque o cidadão de bem pode ser alvejado ou morto por qulaquer meliante, enquanto se for ao contrário não. Que país é esse que só protege o errado.Sabemos que ninguém pode tirar a vida de ninguém, no entanto a velhinha passou por momento ruins onde não achou apoio de ninguém e nao viu outra alternativa.

  20. Juliana Melo disse:

    Adoro os livros de Ubaldo! acho injustiça com ele e com a d. Maria, isso é um atraso, ela devia ser vista como uma “heroina” por fazer o trabalho q a polícia deveria fazer. aaahh!

  21. Castro Fidel disse:

    Quem merecia levar azeitona é o mala que escreveu uma apologia a indiferença e a subserviencia. Sera que o dito cujo teria preferido levar bala, se fosse ele a “vítima”. No mínimo deve ter aprendido com outros malas a inverter os papéis para autenticar uma opinião, ao meu ver completamente descartável.

  22. Eurico A Zancan disse:

    Vivemos no país da fanta-
    sia,num mundo irreal onde
    lei é somente para defen –
    der o interesse do poder
    consituido,não da socieda-
    de ,dasta ver os aumentos
    que se auto concedem-para
    o povo nem o direito de au
    defesa é permito -Coitado de João Ubaldo com quem ele foi se meter!!!!

  23. Mara Narciso disse:

    Não li o artigo de João Ubaldo, mas posso imaginá-lo ótimo como quase tudo que faz. Os amplos conhecimentos gerais, a inteligência , e o dom das letras o fazem magistral.Como falou demais, agora sente na carne os rigores das próprias críticas.Irônico e fino foi o autor do pedido de prisão. Fez graça e agradou, mesmo que eu seja contra a prisão do escritor.

  24. Analice Maria Silva disse:

    Acho que o grande escritor João Ubaldo está(infelizmente) absolutamente certo.Sabemos que o correto seria o Governo policiar corretamente as ruas, mas, isso não acontecendo, infelizmente deve morrer antes um ladrão que uma pessoa de bem.

  25. Sergio disse:

    Me parece que os comentários apontam para o deboche da lei e da civilização. Isso é interessante e revelador. Afinal, estaremos submetidos ao que os assassinos e ladrões consideram justificativas razoáveis para seus crimes.
    Imagine onde estaremos se de forma plenamente justificável pela nossa emoção, voltarmos ao olho por olho, dente por dente. Imaginem se o ódio, o desejo e a cobiça forem justificativas para nossas atitudes. Pobre Ubaldo.

  26. Rogério Azeredo disse:

    O caso é muito simples! O João tem que ser internado por insanidade mental. Como pode defender tal violência humana, contra um simples rapaz, fruto de uma reprodução cultural, cultivada há 508 anos? Não vê que todo mundo tem que se virar? Ganhar um dinheirinho aqui… Outro Ali… Me dá o meu! Assim vamos vivendo Seu João! Que coisa mais feia! Somos brasileiros acima tudo! Viva o brasil! Hum… Já está chegando a copa! Então vamos tratar da escalação!

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *