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Ler Euclides da Cunha pode ser uma punição, ou um prazer. Pelo menos é o que afirma Nísia Trindade, autora de Um Sertão Chamado Brasil. Nesta segunda-feira, 17, a pesquisadora esteve na Livraria da Travessa para lembrar os cem anos da morte do escritor.
Embora Nísia tenha se iniciado na leitura do autor por acaso, a maior parte dos leitores começam por obrigação acadêmica ou escolar, uma punição, de acordo com ela. E, quando leem, não entendem — como foi o caso de Aleilton Fonseca, autor de O pêndulo de Euclides, e Leopoldo Bernucci, autor de uma versão comentada de Os Sertões, que estavam presentes para discutir junto com Nísia a vida e obra do escritor.
“Da primeira vez em que li, tinha 14 anos. Não compreendi absolutamente nada”, afirma Leopoldo. O autor só voltaria a ler Euclides na década de 80, quando redescobriu Os Sertões em uma pesquisa acadêmica.
Mesmo quem tem a iniciativa de ler Euclides encontra dificuldades. Aleilton, que em seu livro conta a visita de três amigos à cidade de Canudos, economizou dinheiro aos 17 anos para comprar Os Sertões, mas ainda assim teve um entendimento incompleto do texto.
No entanto, os leitores que superam o texto rebuscado descobrem um livro que continua importante até hoje. Nísia lembra que a sociologia retirou vários conceitos de Euclides, como o do isolamento do sertanejo. Para ela, o livro mostrou a alienação dos nordestinos em relação ao mundo e a alienação da aristocracia em relação ao sertão. O sertão, para Nísia, ainda existe. Segundo ela, o termo sempre esteve ligado a espaços não-civilizados. São Paulo, por exemplo, já teria sido chamado de sertão.
Aleilton afirma que conforme o tempo passa o livro pode perder até sua força sociológica, mas em troca ganha em força literária. O autor acredita que as novas gerações podem ainda apreciar Os Sertões pela sua contemporaneidade, mais de cem anos depois.
Se a dificuldade de leitura de Os Sertões é um consenso entre os especialistas, a imortalidade da obra também é.