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Aquecimento global

Céticos que abalam a fé

Parte I: Há que haver base estatística

No debate sobre efeito estufa, há em essência dois amplos campos. Há os que acreditam que a ciência está firmada, que o efeito estufa é sério e artificial, e que cabe ação urgente para mitigar ou evitar uma calamidade futura. O outro acredita que a ciência está longe de estar firmada, que pouco é conhecido sobre o efeito estufa ou suas conseqüências prováveis, e que a prudência dita mais pesquisa e cautela antes de intervir maciçamente na economia.

O campo “a ciência está firmada”, o maior dos dois, inclui muitos cientistas eminentes com credenciais impressionantes. Mas quais são os céticos do efeito estufa que questionam os estudos da grande maioria de cientistas de clima e seus motivos?

Muitos do campo “a ciência está firmada” dizem que os céticos não merecem confiança, que são excêntricos ou marginais em sua profissão, ou que são assalariados da Exxon ou outro interesse empresarial. Os céticos crescentemente estão sendo chamados de Negadores, um termo usado por analogia com os Negadores do Holocausto, para subentender a catástrofe que poderá acontecer ao gênero humano se ação não for tomada. Também, em grau crescente a imprensa está a usar o termo Negador, para convencer o público de que o debate sobre aquecimento global já está encerrado.

Neste artigo, o primeiro de uma série, examino os céticos, a começar por Edward Wegman. Dr. Wegman é um professor ao Centro para Estatística e Computação em George Mason University, titular da Comissão de Ciências de Estatística Aplicada e Teórica da National Academy of Sciences, e membro da diretoria da Associação Estatística Americana. Poucos estatísticos no mundo têm currículo que rivalize com o dele.

Wegman foi envolvido no debate de aquecimento global por solicitação da Comissão de Energia e Comércio da Câmara de Representantes norte-americana que lhe pediu parecer num dos debates mais acalorados na controvérsia de aquecimento global: a validade estatística do trabalho de Michael Mann. Você pode não ter ouvido falar de Mann ou lido o estudo de Mann, mas ouviu freqüentemente sua conclusão famosa de que os aumentos de temperatura que temos sofrido “teriam sido os maiores de qualquer século durante os últimos 1000 anos” e que “os anos 1990 formam a década mais quente e 1998 o ano mais quente do milênio”. Você também teria ouvido falar do taco de hóquei de Mann um gráfico que mostra temperaturas relativamente estáveis pela maior extensão do último milênio (o cabo longo do taco de hóquei), seguida neste século por aumento acentuado (a lâmina do taco de hóquei).

As conclusões de Mann formam talvez o estudo mais influente a afetar o debate público, e em 2001 eles se tornaram a visão oficial do Painel Internacional para Mudança de Clima, o órgão da ONU que organiza o esforço mundial para lidar com o efeito estufa. Mas o trabalho de Mann também teve seus críticos, particularmente dois canadenses, Steve McIntyre e Ross McKitrick que publicaram críticas abalizadas semelhantes.

Wegman aceitou a incumbência da Comissão de Energia e Comércio, e concordou em avaliar a controvérsia de Mann em base pro bono (não remunerado, pelo interesse público). Ele conduziu sua avaliação com uma banca especialistas de métodos estatísticos que também concordaram em trabalhar em base pro bono. Wegman também consultou outros estatísticos, inclusive a Diretoria da Associação Estatística Americana. Em seu parecer, Wegman deu ganho de causa aos críticos canadenses e rejeitou o trabalho de Mann completamente.

“Nossa comissão acredita que as alegações de que a década dos anos noventa foi a mais quente num milênio e que 1998 foi o ano mais quente do milênio não podem ser sustentadas”, Wegman declarou, e acrescentou que “A penúria de dados sobre um passado remoto torna a alegação de mais-quente-em-um-milênio não verificável”.    Quando Wegman corrigiu o erro matemático de Mann, o taco de hóquei sumiu.

Wegman achou que Mann fez um erro básico que facilmente pode “passar despercebido por alguém não versado em métodos estatísticos. Notamos que não há nenhuma evidência de que Dr. Mann ou quaisquer dos outros autores de estudos de paleo-clima mantiveram diálogo significativo com estatísticos profissionais”.    Ao contrário, este grupo pequeno de cientistas de clima estava a trabalhar por si, em grande medida em isolamento, e sem o escrutínio acadêmico necessário para identificar falsas suposições.

E pior, a deficiência também pode ser estendida à comunidade mais ampla de mudança de clima e meteorologia que também utiliza métodos estatísticos nos seus estudos. “Se métodos estatísticos forem usados, então deveriam ser engajados estatísticos profissionais na pesquisa para assegurar, como melhor pudermos, que ciência de qualidade estará sendo realizada”, recomendou Wegman, enquanto notou que “há inúmeras questões estatísticas fundamentais que exigem respostas cabais para compreender dinâmica de clima”.  

Em outras palavras, Wegman acredita que a ciência de clima que circula deveria ser tomada com restrições e que mesmo quando estudos passaram por revisão abalizada, os revisores eram freqüentemente inabilitados em métodos estatísticos. Estudos anteriores, ele acredita, deveriam ser reavaliados por estatísticos competentes e que no futuro, o mundo da ciência de clima faria bem em incorporar know-how estatístico.

Um lugar para começar é a Sociedade Meteorológica americana que tem uma comissão de probabilidade e estatística. “Causa perplexidade o fato que numa comissão cujo foco está em estatística e probabilidade tenha apenas dois dos nove são habilitados pela Associação Estatística americana, a principal associação estatística nos Estados Unidos, e um desses é um PhD recém formado com cargo de professor assistente em escola médica”.   Como um exemplo da esterilidade estatística do mundo de mudança de clima, Wegman citou a Conferência da Associação Meteorológica americana de 2006 sobre Probabilidade e Estatística em Ciências Atmosféricas onde apenas oito apresentadores de 62 eram membros da Associação Estatística americana.

Porquanto pareça supérfluo o conselho de Wegman de usar estatísticos habilitados em estudos dependentes em métodos estatísticos também é preciso ser dito que o campo “a ciência está firmada” resiste a isto. Muitos peritos agora reconhecem que o gráfico de taco de hóquei pode estar errado, mas afirmam que mesmo assim chegou à conclusão certa.

A isto Wegman, e indubitavelmente outros que querem ciência mais rigorosa, abanam cabeças em gesto de incredulidade. Wegman resumiu isto perante a comissão a energia e de comércio em depoimento posterior:

“Fiquei assombrado pela atitude de que o método incorreto não importa porque de qualquer maneira a resposta é correta.

Método Errado+Resposta Correta=Ciência Ruim”.

Com ciência ruim, apenas os verdadeiros crentes podem afirmar que obtiveram a resposta certa.

CURRICULUM VITAE DE UM CÉTICO

Edward Wegman recebeu o grau Ph.D. em matemática estatística da Universidade de Iowa. Em 1978, ele trabalhou para o Escritório de Pesquisa Naval onde chefiou a Divisão de Ciências Matemáticas com responsabilidade por programas de pesquisa básica da Marinha. Ele cunhou o termo Estatística Computacional, e desenvolveu uma área de pesquisa de alto-perfil em torno deste conceito que focalizou técnicas e metodologias que não poderiam ser alcançadas sem as capacidades de recursos de computação modernos e que levou a uma revolução em gráficos estatísticos contemporâneos. Dr. Wegman foi o diretor pioneiro do programa de pesquisa básica em Computação em Alta Velocidade da Iniciativa de Defesa Estratégica – Escritório de Ciência Inovadora e Tecnologia. Ele serviu como editor ou editor adjunto de numerosos periódicos prestigiosos e publicou oito livros e mais de 160 artigos.

Parte II: O aquecimento é real – e tem benefícios

Há um mês, o mundo ouviu dizer que o efeito estufa poderia levar a uma catástrofe global “em uma escala semelhante à associada às grandes guerras e à depressão econômica da primeira metade do século 20”.   Esta avaliação de Sir Nicholas Stern, ex-economista chefe do Banco Mundial, gerou manchetes e levou um líder proeminente, o Primeiro-ministro britânico Tony Blair, a urgir ação imediata para deter o aquecimento global.

Também levou alguns conhecidos ambientalistas a denunciar Sir Nicholas pelo relatório que julgaram uma afronta destituída de credibilidade. Nenhum dos ambientalistas emitiu uma denúncia mais contundente, ou tem credenciais ambientalistas melhores, do que Richard S.J. Tol.

Tol é um Cético, para usar a terminologia do campo “a-ciência-está-firmada”, no crescentemente polarizado debate sobre aquecimento global. Como muitos outros Céticos, Tol não acha que esteja completa toda a evidência sobre o efeito estufa e suas conseqüências, não pensa haver razão para apressar ação, e acha desnecessário programa de emergência para limitar o efeito estufa.

Também como muitos outros Céticos, ele não se ajusta ao estereótipo imaginado pelos que usam o epíteto. Está longe do estereótipo.

Tol não é figura marginal ao debate científico. Ele está no centro da investigação acadêmica sobre o efeito estufa, é uma figura notável na comunidade científica que tem desenvolvido os modelos e o conhecimento para entender o fenômeno do efeito estufa. No Painel Intergovernamental de Mudança de Clima das Nações Unidas, reputado como a entidade mais credenciada no campo, Tol esteve envolvido como autor em todos os três Grupos de Trabalho. Ele também é autor e editor do Manual de Métodos de Avaliação de Impactos por Mudança de Clima e de Estratégias de Adaptação, das Nações Unidas. Ele também é muito ativo no prestigioso Foro de Clima europeu. Ele toma o efeito estufa a sério e tem dedicado sua vida profissional à elaboração de uma contribuição construtiva em matéria de política de clima e campos relacionados.

Por causa da sua excelente reputação, o próprio relatório Stern recorreu ao trabalho de Tol e suas conclusões. Mas Sir Nicholas distorceu o trabalho de Tol a ponto de chegar a conclusões insólitas.

Por exemplo, Sir Nicholas arbitrou ($29 por tonelada de gás carbônico) de uma gama que Tol preparara para descrever os possíveis custos de emissões de CO2, sem divulgar que no mesmo estudo Tol concluiu que “é provável que os custos reais sejam substancialmente menores” do que $14 por tonelada de CO2. Igualmente, na avaliação das conseqüências potenciais de subida do nível do mar, Sir Nicholas citou um estudo de que Tol é co-autor que aludiu aos “milhões expostos a risco”, enquanto omitiu que o mesmo estudo sugeriu conseqüências muito reduzidas para esses milhões devido à habilidade humana para se adaptar a mudança.

Ao longo do seu relatório, na realidade, Sir Nicholas arbitrou não só os piores casos possíveis, mas também que humanos são criaturas passivas, destituídas de engenhosidade que seriam vítimas desamparadas de mudanças no ambiente ao redor. Tais suposições suportam a alegação de Sir Nicholas de que “os custos globais e riscos de mudança de clima serão equivalentes a perder 5% de PIB global por ano, hoje e sempre”, e levou Tol a conceituar as conclusões de Sir Nicholas como “ridículas”.   A conclusão de Tol: “O relatório Stern pode ser então descartado como alarmista e incompetente”.  

Tol e Sir Nicholas vivem em mundos diferentes, e não só por causa do descuido de Sir Nicholas com fatos. Onde Sir Nicholas pinta um quadro completamente negativo, Tol é muito mais dado a nuances: ele explica que o efeito estufa cria benefícios assim como danos e que no curto prazo os benefícios predominam.

O que é mais importante, Tol é um estudioso de inovação e adaptação humana. Como um nativo dos Países Baixos, ele está intimamente familiarizado com diques e outras tecnologias adaptativas baratas, e com a habilidade humana de enfrentar desafios de seu ambiente. Presumir que os humanos no futuro não usarão sua engenhosidade e conhecimento de modo sensato contraria a história do gênero humano e no final das contas serve a nenhum propósito.

Sim, o efeito estufa é real, ele acredita, e sim, medidas para mitigá-lo devem ser tomadas. Mas diferente dos que acreditam que a ciência está firmada, e que o debate de aquecimento global está encerrado, Tol pensa que é preciso pesquisa antes de saber como melhor responder.

“Não há nenhum risco de dano por aquecimento global que nos forçaria a agir irrefletidamente”, ele explica. “Temos bastante tempo para avaliar a maioria das opções economicamente eficazes, em lugar de fingir ação, o que fica muito caro”.    

CURRICULUM VITAE DE UM CÉTICO:

Richard Tol recebeu o Phd.D. em Economia no Vrije Universiteit em Amsterdã. Ele é Professor da Cadeira Michael Otto de Sustentabilidade e Mudança Global de Clima da Universidade de Hamburgo, diretor do Centro para Ciência Oceânica e Atmosférica e pesquisador chefe no Instituto para Estudos Ambientais da Vrije Universiteit, e Professor Adjunto do Centro para Estudo Integrado do Impacto de Clima Global nas Dimensões Humanas, da Carnegie Mellon University. Ele é diretor do Centro de Pesquisas de Clima e Oceano da Escola Internacional Max Planck de Pesquisa de Sistemas de Modelagem da Terra e de Fenômenos Marítimos, e do Foro Europeu de Avaliação Ambiental Integrada. Ele é editor de Energy Economics, editor adjunto de Environmental and Resource Economics, e diretor editorial de Environmental Science and Policy and Integrated Assessment

Fontes:
Mídia sem Máscara - Céticos que abalam a fé - 1ª. Parte

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2 Opiniões

  1. Redação disse:

    Prezado Leitor,

    Informamos que modificamos o envio dos comentários.Criamos um filtro, onde se exige que ao enviar suas mensagens, o leitor digite 4 caracteres, para que com isso possamos filtrar os lixos eletrônicos

  2. Markut disse:

    Tirante a esteril polêmica dos egos inflados, creio que os motivos de preocupação persistem.
    Sem contestar a validade da sintonia fina das avaliações estatísicas e de probabilidades, é preciso tambem deixar espaço para as constatações de relativo curto prazo, que trazem implicações preocupantes, quanto ao futuro e sobrevivência de milhões de
    pessoas.
    Neste caso, é preferivel errar por excesso de cuidados, do que por falta.
    Isso , sem contar a força dos lobbies dos grandes interesses econômicos que, na sua visão miope e imediatista, eventualmente, se sintam a perigo.

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