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Ciclos e desequilíbrios

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A semana passada foi a pior em cinco anos na bolsa de valores de Nova York, fato que pode ser atenuado pelo grande crescimento ocorrido nos últimos dois anos (25%); em 2007, apesar desta queda, seu desempenho ainda é positivo.

Como comentou a revista Business Week desta semana, as pessoas freqüentemente esquecem que investir é um negócio arriscado, principalmente num ciclo favorável como até agora se vivenciou, em que a festa parece que vai durar eternamente.

A grande questão é se estes movimentos bruscos irão sustar a fase positiva da economia americana e, por contágio, o Brasil e outras economias fortemente vinculadas aos EUA.

O principal motivo de instabilidade atual ainda tem origem, quem diria, nos atentados de setembro de 2001, que fizeram o banco central americano reduzir as taxas de juros gradativamente para 1% ao ano, como forma de estimular a economia abalada com a insegurança pela onda terrorista.

Ocorre que este patamar de 1%, que não se experimentava há décadas, foi crescendo lentamente, ao ritmo de um quarto de ponto percentual a cada dois meses aproximadamente, até junho de 2003, quando se estabilizou nos atuais 5,25%. Estas oscilações agitaram o mercado, deixando marcas que explicam em parte o cenário presente.

O mercado imobiliário americano tem sua propulsão ligada à concessão de crédito e ao nível da taxa de juros, estágio em que o Brasil começa a engatinhar nos últimos meses. Como lá o crédito é amplo, e quase todas as transações são feitas com prazos longos, o custo de aquisição do imóvel que mais influencia o consumidor é a prestação mensal da hipoteca. Pagar uma prestação com juros um pouco acima de 1% ao ano é um grande incentivo para comprar imóveis e, por conseqüência, com a procura seus preços (e das ações em bolsa também) subiram ao céu; quando os juros superaram a marca dos 5% ao ano, estas prestações, a maior parte calculadas com taxas reajustáveis, aumentaram substancialmente e a inadimplência que se seguiu abalou parte das estruturas do mercado financeiro; as prestações que ainda foram pagas, reduziram a renda disponível para a demanda de outros produtos, que mantém a economia aquecida; também a subtrair poder de compra, a nova alta do petróleo fez o preço dos combustíveis pesar no bolso do consumidor.

O presidente do banco central americano estima que o problema do crédito imobiliário, com a contaminação ao restante do sistema financeiro, está avaliado entre 50 a 100 bilhões de dólares, o que empana o brilho de uma economia de 14 trilhões de dólares, mas ainda permite esperar um crescimento moderado.

Por enquanto, o aumento da aversão ao risco e a elevação da taxas de juros para empréstimos conduziu a um rigor maior na concessão de créditos, tendo sido significativo o adiamento pelos bancos da operação de financiamento de 12 bilhões de dólares para compra da Chrysler.

Segundo os analistas de Wall Street, a economia permanece forte, o crescimento do emprego é saudável, a taxa de desemprego é baixa e a economia global continua em expansão. As falhas relatadas, entretanto, estão ficando à vista e estão ganhando a atenção dos mercados em meio às boas notícias, e os agentes econômicos se preocupam sobre o que vai prevalecer.

E as conseqüências para o Brasil? Se ficar só nisto, os efeitos serão também moderados, pois as exportações continuam bem, a entrada de divisas é alta e as reservas cambiais sólidas estão blindando, a curto prazo, os choques externos.

Os problemas do cenário nacional, ao contrário de épocas passadas, são definidos pelas questões internas de desorganização para fomentar os investimentos indispensáveis na infra-estrutura, que lança às alturas o "custo Brasil". Convivem no país iniciativas brilhantes de novos lançamentos do mercado de ações, na área privada, com as crises de transporte, inércia nas decisões das agências reguladores e paralisia do sistema político pelos repetidos escândalos de corrupção, que nunca são resolvidos, somente substituídos por novos. Coexistem, assim, algum desempenho de primeiro mundo com uma deterioração administrativa e moral que nos leva a uma classificação inferior a de terceiro mundo, predominando palavras e gestos pouco nobres de quem deveria dar bons exemplos e cuidar da coisa pública.

Nossa ameaça, no momento, é muito mais interna do que externa.

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1 Opinião

  1. Redação disse:

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