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Eternas contradições sob véu de incoerência

Por Wilson Figueiredo

Eternas contradições sob véu de incoerência
Alviño

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O pessoal graúdo da social-democracia continua a bater em porta errada quando cata divergências ociosas entre petismo e lulismo, que são as duas faces da mesma moeda corrente na sucessão presidencial, embora disponha de material mais valioso para explorar. Os dois mandatos não são o que pensam governo e petistas. Uma andorinha não fará verão enquanto apenas um candidato simular a sucessão sem a democracia estrilar. O pretendente da oposição continua no meio de nuvens sem maior significado (as nuvens, claro). A candidata da dupla PT/Lula ainda está longe de contar com a parceria de um vice à altura das necessidades, porque por aí é que a dificuldade espreita. Lula defende o direito de escolha por parte do PT, melhor, por ele mesmo, entre três nomes para disfarçar o truque. Escolheu a candidata e se sente com direito ao vice. Serviço completo. Condenado á suplência eterna, o PMDB entende que a exigência é uma capitis diminutio, porque em português seria uma afronta. Em latim se torna mais palatável ao presidente do partido maior que vai entrar de sócio menor na empreitada. Em suma, melhor estar preparado do que entrar de gaiato.

A questão do vice vai trazer de volta as divergências de relacionamento entre o PMDB e o PT, situados em planos diferentes mas tendo como denominador comum o pragmatismo, o ancestral que apenas troca de roupa quando se torna árbitro de confusões de princípios. A moeda em circulação à esquerda alcançou, no trigésimo aniversário do PT, a mais alta cotação desde a crise do mensalão, que continua tratado pelo petismo como se não tivesse existido. Melhor, como se não passasse de invencionice dos social-democratas incompatíveis com o jeito petista de ser estabanado. Por enquanto, a rigor nem a candidatura em manobra está garantida, dado o número de incógnitas no problema em que poderá se tornar a própria sucessão. A começar pelo eterno problema do vice, que deverá acompanhá-la como uma sombra suspeita por aí afora. E a acabar de jeito que ninguém tem condições de prever, sem aquele cego de tragédia grega que, vendo apenas  o futuro, saca contra o que vai acontecer. De onde menos se espera, portanto, é que pode advir surpresa. Olho no vice que vem por aí, em missão sigilosa. Existem nós que precisam ser cortados, e não desatados. Este que enlaça PMDB e PT na escolha do melhor vice é um deles. Lula já opinou e o PMDB apenas bufou.

A moeda Lula/PT continua a ter o mesmo valor de face com que já circulava, e vai valer o que o eleitor quiser pagar na campanha eleitoral. Ou seja, o equivalente à diferença entre o que dizem e o que fazem os governos. Já no caso da oposição a diferença não se apresenta como emissão sem lastro e sim como lastro sem emissão. A moeda com apenas uma face passa adiante a idéia de que a social-democracia não estará fora de alcance de moedeiros falsos. Os social-democratas vivem de história, de preferência no plural, desde que ficaram na orfandade. Nos oito meses de que dispõe para se despedir, deixando e levando saudade, o presidente Lula vai em direção ao ponto culminante de uma ascensão que, em matéria de opinião pública, alcançou o zênite no céu da república que nos coube. Ressalve-se que já não se localiza no ponto de onde a visão do futuro se embaça com versões contadas de maneiras diferentes, mas atenuadas pela mão do tempo. Pelo menos, até que a História dê a última palavra. Por enquanto, está bem no papel de grande muda.

Como nunca antes no currículo deste país, o presidente sustenta a conveniência de uma eleição que não exceda os limites do confronto entre o petismo e a social-democracia, com os saldos e insucessos dos respectivos governos, para passar a limpo o que faria melhor em ficar como está, por ser questão controvertida a ser resolvida quando todos não estiverem mais por aqui. A História não é um texto pronto e acabado, redigido à maneira oficial de apresentá-lo. E muito menos cabe numa versão em que se reúna objetivamente o que o governo pensa que fez e a oposição diz que não fez.

A porta pela qual a oposição tenta entrar em cena é a dos fundos, por onde os petistas estão voltando para casa, tanto quanto possível sem chamar a atenção e sem assumir arrependimento (por terem prestado à legenda e ao governo desserviços de que não podem se orgulhar). Afinal, caixa dois não tem filtro de sujeiras. E, por mais discretas e disfarçadas que sejam  as operações, qualquer que seja o número de vezes, o uso da caixa não se torna legal por servir à política, nem pode ser considerada atenuante para ninguém.Dinheiro de fonte oculta não se legitima pelo anonimato.

Os dizeres da carta aos brasileiros, com a assinatura da mão direita de Lula, já indicavam uma procedência de esquerda cada vez mais distante do PT. Com três invejáveis insucessos eleitorais na biografia, Lula ainda era a pedra preciosa, de lapidação sindical inédita no Brasil brasileiro e na coroa com que a república iria, enfim, ter o toque de esquerda com a benção da direita. Uma variante da social-democracia que ainda não pegou para valer no solo brasileiro (e que rejeita o dogmatismo, que vem a ser o avô de todos os desvios políticos possíveis).

Da oposição não se pode dizer nem mesmo que errou, por não abdicar da ilusão de que a história se faz sozinha (tanto à esquerda quanto à direita). O PT se organizou à maneira tradicional, para esperar que a carta subscrita com a mão direita do candidato não excedesse a duração da campanha. Só faltou pedir discrição, mas nem precisou. O silêncio baixou sobre a carta e Lula, com  alguns episódios, resolveu a questão. Deve ter recomendado que, quando inevitável, fosse lida com entonação de esquerda no decurso dos primeiros meses do governo, antes de se recolher aos arquivos. A carta vazia de conteúdo condizente com o petismo foi arquivada para evitar discussões e  fomentar divisionismo ao chegar ao poder. Foi aí que a burguesia errou no que viu e acertou no que intuiu. Era para valer e não para iludir. O governo Lula, antes da tentação do segundo mandato, deu conta do programa de medidas consideradas, sem exageros nem indiretas, genuinamente social-democratas. Pode ter sido a contradição mais destoante dos dois governos Lula e, no entanto, foi a consagração. Mais mandatos houvesse, e mais perto chegaria Lula do que se chama de neoliberalismo, do que da social-democracia.

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12 Opiniões

  1. helio disse:

    Belo artigo. Tenho ainda dificuldades em encaixar a Dilma e fazer previsões sobre o que representará. Lula demonstra com a escolha da candidata como o lulismo é tão mais forte que o PT. A candidata nunca disputou eleição, é neopetista, advinda do PDT, e mesmo com um perfil bastante difícil, está com Lula numa campanha milionária em que está se beneficiando da transferência do voto lulista. Um neoliberalismo combinado com Estado inchado e forte, tendo a frente alguém como ela, desprovida de carisma e jogo de cintura me parece um pesadelo. Que herança maldita Lula já impos ao PT e que risco assustador corre o país.

  2. an amaria disse:

    Parabéns, belo artigo, muito coerente. Obrigada !!!

  3. Geraldo Euclides disse:

    Durante a campanha nas Tvs. vai aparecer a ficha criminal da candidata do Lula, ai as pessoas desavisadas vão conhecer quem é a pessoa que o Lula está tentado impor; então saberão o que nos espera.

  4. CORDEIRO VARGAS disse:

    Sr. Wilson Figueiredo, em se tratando de política e administração pública é sabido que nem sempre o desejável é possível. Seu texto trata questões de governo sem levar em conta o modelo jurídico imposto ao governante pela constituição, temos uma Carta constitucional que foi escrita para o Parlamentarismo e um modelo de Governo Presidencialista, ou seja, sem acordo e maioria no Congresso Nacional, não se governa, aliás o mesmo acontece a nível de Estado e Município. Entendo haver um erro de avaliação, pois se não foi possível cumprir as metas, devemos admitir que caminhamos muito, o nosso Brasil é hoje um país menos desigual, bem mais justo portanto. Sds a todos.

  5. Afonso Schroeder disse:

    Governar com imparcialidade as vezes não consegue agradar uma minoria que esta airosa e sedenta do poder politico, será que é para aduzir falhas de quem esta no poder e querendo atribuir a responsabilidade dos caminhos de gestões anteriores que não foram em nada enaltecidas nem em suas épocas, atirar pedras não é reconhecer e querer contribuir em dias melhores e a verdadeira democracia admite divergências idéias e formas diferentes de conduzir a sociedade isto o presidente Lula esta fazendo com primazia compondo com quem tém conhecimento, capacidade e respaldo popular governando e administrando este gigante Brasil.
    O partido PMDB já esta dando e contribuido em muito o atual governo com homens destemidos a merecer o novo desafio participando deste cargo majoritário o povo percebe o existencionalismo em modos judiciósos de proceder todos sabemos que este País era um a sete anos atraz as mudanças estão palpaveis e indiscutiveis nos ultimos anos não sou eu que estou escrevendo este vocabulo mas sim a população brasileiro esta a comparar, falta muito a ser feito mas tivemos avanços significativos nas ultimas duas gestões do Presidente Lula,com a devida sequência dos projetos em andamento toda a sociedade esta a desfrutar com dignidade esta grande transformação que o Brasil esta a integrar.
    Meus parabens ao conjunto de pessoas que o Lula conseguiu assimilar de diferentes partidos e porque não dizer de toda sociedade brasileira a formação e composição é muito digna do resapeito de todo povo brasileiro e em especial ao “Partido do PMDB”e mais alguns Partidos com sabedoria colocando a Nação Brasileira acima de egoismos pessoais.

  6. EDSON disse:

    Quero parabénizar o brilhante comentario do sr:CORDEIRO VARGAS e aproveitando para enaltecer a lucidez do comentario do sr:AFONSO SCHROEDER,ambos estão de parabéns.

  7. acreucho disse:

    Concordo com o comentarista “Cordeiro Vargas” quando diz que “avançamos muito”. Avançamos mesmo! Os empresários avançaram em seus lucros, os bancos avançaram, amelhando o maior lucro de sua história, os politicos e envolvidos com política avançaram no erário público e por fim, avançamos a passos largos para uma “coisa” inventada pelo Lula que ele chama de “democracia” e eu chamo de “democratura”. Os pobres mesmo não avançaram em nada, estão apenas individados. Mas, pobre não conta, só na hora do voto.

  8. CORDEIRO VARGAS disse:

    Sr. Acreucho, se o crescimento da classe média, a retirada de 23 milhões de pessoas da linha da pobreza, a melhor distribuição de renda, o crescimento do mercado de consumo, confirmado por economistas e institutos renomados não lhe sensibiliza, não serei eu que irá lhe convencer, não é mesmo? Quanto ao resto o senhor está certo, com o crescimento econômico a parte mais organizada da sociedade cresce mais, portanto o governo Lula está correto ao usar o slogan “De todos, para todos”. O Brasil mudou e continua mudando para melhor, mudará mais ainda com a continuidade deste governo, Dilma 2010 para a redenção do povo brasileiro. Sds. a todos.

  9. José Antônio Pereira Rodrigues disse:

    Em primeiro lugar, todos os analistas políticos são unânimes quanto a definição do modelo político desse Presidente como sendo um desdobramento da linha política adotada pelo governo social-democrata, inclusive no quesito BOLSAS, o equilíbrio das contas, a visão internacional, a política externa, tudo isso incrementado a partir do Pres. Fernando Henrique Cardozo. Daí o epíteto de neo-liberal assacado contra o presidente barbudo. PMDB todos sabem que é um partido apenaa fisiologista e nada mais. Um partido que é grande no tamanho e pequeno pela safadeza de seus integrantes, todos ávido pelos votos do populismo lulista, para poder sobreviver, se igualando a todos os partidos nanicos que se curvam ao Presidente sindicalista, para ter acesso ao poder e suas benesses. Uma coisa é fazer coalisões visando a governabilidade. Outra é promover tal estratégia mediante o uso de expedientes espúrios, criminosos, como a compra de apoios e adesões, através dos mensalões, que os petistas ignoram e subestimam, alegando ser tudo invenção da Revista Veja e dos despeitados da oposição. O único projeto bomba do governo são as BOLSAS, que não foram criação do atual sistema político, é uma herança do anterior. A coisa mais ridícula é um petista desses profissionais de sindicato ficarem elogiando o PMDB como se fosse o supra sumo da moral, só porque está dando sustentação à corrupção petista. Se o PT é tão bom, porque não é maioria no parlamento, para não precisar do PMDB de Sarney, Jader Barbalho e Renan Calheiros, a nata da corrupção e a vergonha nacional? Dilma, Marco Aurélio Garcia, Lula, Zé Dirceu, Genoíno, Prof. Luizinho, redenção política com uma tchurma dessa, inventa outra piada, companheiro.

  10. CARASCO disse:

    Antes de votar na DILMA todo brasileiro deveria consultar o GOOGLE para ver o passado dela que não foi nada digno de uma candidata

  11. Martha Souza disse:

    Sr. Wilson, o seu artigo, coerente, embora trate das “eternas contradições sob o véu de incoerência”, suscitou polêmicas entre os seus
    leitores que, penso, devem ser muitos, considerando o seu estilo sempre verdadeiro de
    opinar sobre política. Devo ressaltar que concordo com o que disseram os Srs.Hélio, José
    Antônio Pereira e Acreucho, para abreviar a minha opinião sobre o seu artigo – mais uma
    vez, muito bem escrito. Parabéns !

  12. Beraldo Dabés Filho disse:

    Sr. Wilson Figueiredo,

    Décadas atrás, os japoneses ganharam fama de serem os melhores aperfeiçoadores de coisas já prontas. Foram aclamados mundialmente e receberam salvas de palmas mundiais, por tanta proeza. O Mundo de pé, se apequenando perante uma Potência Anã.

    Se o Lula utilizou boas ideias do neoliberalismo da social-democracia e as colocou em prática com sucesso, palmas para ele. Brevemente seremos uma Potência Gigante.

    O que fez e ainda faz a diferença entre o jeito Lula e o jeito FHC de governar é que o Torneiro olha o Brasil de dentro pra fora e o Sociólogo, de fora pra dentro. No âmbito das relações comerciais e diplomáticas esta diferença é gritante a favor do Torneiro. Do Sociólogo pode-se dizer que nas relações internacionais ele priorizava as diplomáticas (frágil submissão aos EEUU e seus aliados históricos) em detrimento das comerciais (coragem de brigar nos foros internacionais pela nossa auto-determinação comercial e soberania política).
    Os bons resultados deste jeito de governar olhando pra dentro, foram reconhecidos pelos próprios EEUU/Aliados,que deram ao Presidente Lula o status de Estadista Mundial e ao Brasil o de Potência Mundial.
    Se a oposição (PSDB/DEM), capitaneada pelo Cardeal FHC não teve a coragem de fazer o que era tão evidente, resta-lhe o chororô.

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