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Pode ser uma piada antiga desejar "Feliz 2010" no final de 2008, como se o ano de 2009 já estivesse comprometido e sem solução; ficamos na dúvida entre a oportunidade da piada ou o risco de perder o leitor por alastrar o desânimo, mas vale a pena chamar a atenção para aspectos mais amplos neste momento de perplexidade.
O economista Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia em 2001, fez previsões sombrias em sua visita ao Brasil este mês, afirmando que, na melhor das hipóteses, se tudo for feito corretamente para corrigir os rumos, a desaceleração da economia americana pode durar até 18 meses. Torcendo pelo acerto, é oportuno lembrar que não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe. Assim, pelo menos, já teríamos um horizonte pela frente, com a expectativa razoável de que a recessão não seja tão profunda e disseminada por todos os setores.
Seria o aumento da renda, entretanto, a única condição indispensável para melhorar a qualidade de vida da população? É assim que vem sendo tratada a discussão sobre a recessão, que não necessariamente precisará agravar a "infelicidade nacional bruta". Nosso presidente, com a verborragia solta que o caracteriza, tem sempre mencionado "um Natal melhor", referindo-se exclusivamente ao lado material da data, desprezando significados espirituais, não obstante o beija-mão recente com o Papa. Será esta a única dimensão possível?
Para a população do primeiro mundo que superou a barreira da subsistência, como ocorre aqui com as classes média e alta, tornar as pessoas mais felizes não tem necessariamente uma relação direta com o nível de renda. Pelo menos é o que diz um dos mais renomados economistas ingleses, Richard Layard, em seu livro "HAPPINESS – Lessons from a New Science" (publicado em português pela Editora Best Seller, 2008, com o título "Felicidade – Lições de uma Nova Ciência").
O estudo foi comentado na página de economia e investimentos do New York Times, numa coluna habituada a discutir os melhores retornos de aplicações financeiras, onde se registrava a opinião paradoxal de Layard de que “dinheiro não traz a felicidade”, para usar um ditado brasileiro.
Layard faz um vasto uso da teoria econômica, de pesquisas e levantamentos para provar que nos últimos 50 anos a renda de alguns dos países mais ricos mais do que dobrou o que, entretanto, não tornou as pessoas mais felizes. Como assim, é possível dizer se as pessoas estão mais ou menos felizes? Através de diversos coeficientes bem formulados, é possível medir o nível de felicidade das pessoas, seja em pequenos grupos ou na dimensão nacional. Desde enquetes que perguntam diretamente se as pessoas se sentem “muito felizes, razoavelmente felizes ou infelizes”, até medições avançadas de ondas magnéticas cerebrais em tomografias, que diferenciam se há mais atividade do lado esquerdo ou direito do cérebro, até como funciona o mecanismo da busca de status, isto é, do sentimento advindo da comparação da posição de cada indivíduo em relação ao seu grupo.
Uma das pesquisas reveladoras correlaciona as atividades eleitas como as mais prazerosas do ser humano (sexo, amizade, lazer e alimentação) e as menos agradáveis (trabalho – em certas circunstâncias, afazeres domésticos, transporte urbano) com o tempo despendido por dia em cada uma destas ações, isto é, quanto se dispõe ao longo do dia para as atividades boas e quantos momentos nas tarefas consideradas aborrecidas.
A ânsia pelo status fica evidente na enquête que fez a seguinte indagação: você prefere ganhar R$ 50 mil por ano, enquanto seu grupo de amigos ganha R$ 25 mil, ou prefere ganhar R$ 100 mil por ano, enquanto os outros ganham R$ 250 mil? Por incrível que pareça, a maioria prefere a primeira situação, em que recebe a metade em valor absoluto, mas o dobro relativamente.
As pesquisas concluem que, nas Olimpíadas, os atletas ganhadores de medalhas de bronze são mais felizes do que os premiados com as medalhas de prata: os de bronze se comparam com os atletas que não alcançaram nenhuma medalha: os de prata, se sentem infelizes porque não mereceram o ouro. Outro exemplo mostra que, com a unificação da Alemanha, os alemães orientais melhoraram seu padrão de vida, mas não ficaram mais felizes, pois passaram a se comparar com os alemães ocidentais mais ricos e não com seus vizinhos de países do antigo bloco soviético. Um dos segredos da felicidade estaria, assim, em aproveitar o que temos, mas sem comparar com situações melhores.
Layard ressalta os aspectos psicológicos ou sociológicos com o drama do desemprego, que estaria associado não só ao crescimento econômico do país e a perda ou diminuição real de renda das famílias envolvidas, mas também considerando que as pessoas se sentem infelizes por se sentirem excluídas e não estarem contribuindo para a sociedade, em prejuízo da auto-estima e dos relacionamentos pessoais associados a seus trabalhos.
Parte dos brasileiros excluídos e semi-alfabetizados está ainda distante destas inquietações mais sofisticadas, mas que valem a pena ser levadas em conta aqui: afinal, uma das conclusões de Layard é de que um pequeno aumento de renda causa muito mais felicidade aos necessitados do que aos que estão na faixa de consumo médio. No momento atual, vamos testar o que acontece com os registros de felicidade numa fase de redução de renda, ainda que certamente temporária.
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