O que é Governança Corporativa?
Governança corporativa é uma má tradução da expressão inglesa "corporate governance". A origem é o verbo latino "gubernare", que quer dizer "governar", ou "dirigir", "guiar". O significado, meio vago, é o sistema pelo qual os acionistas de uma empresa ("corporation" em inglês) "governam", ou seja, tomam conta, de sua empresa. É um sistema que, usando principalmente o "Conselho de Administração" ("Board of Directors" em inglês), também a Auditoria Externa, e às vezes também o Conselho Fiscal (que ao contrário do de Administração não é obrigatório), estabelece regras e poderes para Conselho, seus comitês, e diretoria, evitando os abusos de poder tão comuns no passado. Cria também instrumentos de fiscalização da diretoria. É importante frisar que embora a expressão seja nova (e tenha se transformado num modismo, com muita gente falando bobagem a respeito) a atividade já existia, sem que a gente percebesse quão importante era, e sem que tivesse ganho esse nome.
Quando surgiu a Governança Corporativa?
A gente vê alguns autores dizendo que a Governança Corporativa "surgiu" em 1991 (data do primeiro código sobre o assunto, na Inglaterra) ou em 1995 (data da fundação do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa) mas isso é terrivelmente inexato. Quando surgiu a primeira "corporation", na Inglaterra, por volta de 1650, com acionistas que elegeram um Conselho, o qual nomeou um CEO, estava criada a Governança Corporativa. O que começou nos EUA em 1984 com Robert Monks foi o movimento de modernização da governança.
Por que a recente onda de entusiasmo com este assunto?
O assunto ganhou força nos últimos quinze anos nos EUA e Inglaterra, e o resto do mundo percebeu a importância e está correndo atrás. Esse movimento moderno surgiu como decorrência de alguns escândalos, como o caso Guinness na Inglaterra (há um livro ótimo sobre esse, "Requiem for a Family Business", escrito por um membro da família Guinness), e de algumas companhias importantíssimas que quase quebraram, como IBM e General Motors, sem que o Conselho tivesse feito coisa alguma. De repente o mundo (ou melhor, os grandes investidores institucionais) percebeu que algo estava errado. O Conselho não estava cumprindo sua obrigação. Daí começou uma série de pesquisas sobre como a coisa estava funcionando, e a pressão para as grandes empresas mudarem seus comportamentos nocivos.
A nova Lei das S.A. vai fortalecer a Governança Corporativa? E a proteção aos minoritários?
A Lei das S.A. de 1976 criou o Conselho de Administração como figura obrigatória para as empresas abertas, e ao mesmo tempo o Conselho Fiscal deixou de ser obrigatório, sendo instalado quando os acionistas pedem (geralmente, no passado, em conseqüência de conflitos). Parece-me que a nova lei não muda muito nisso. A lei, com muito louvor, preocupa-se com proteção aos minoritários, mas isso não é tema da Governança. A Governança Corporativa se preocupa com o que é bom para a empresa como um todo, e com os acionistas como um todo, não é a respeito de proteger minoritários.
Todas as empresas vão ter de adotar a Governança Corporativa?
A Governança já está aí, todas as empresas a têm. A estrutura das empresas em grande maioria familiares dificulta a adoção de boas práticas de governança. A existência da figura do "dono" faz que este pense que não precisa criar um sistema de governança, achando que ele é o " manda-chuva" e pode fazer tudo sozinho. Em países com empresas de capital realmente aberto e pulverizado é que a governança é mais útil, e tem mais chances de funcionar bem, pois o conceito básico foi criado pressupondo a existência de um grande número de acionistas, que elegem um Conselho na Assembléia Geral, não existindo a figura do dono.
A globalização está influenciando a Governança Corporativa?
No exterior não houve alterações fundamentais. Aqui a globalização e a privatização trouxeram grandes modificações ao nosso capitalismo de terceiro mundo. Por um lado as empresas estrangeiras estão comprando as brasileiras numa velocidade vertiginosa (exemplo: autopeças, bancos). Por outro lado temos ex-estatais que se tornaram privadas, em muitos casos com controle compartilhado entre fundos de pensão como Previ, um parceiro estratégico estrangeiro, e investidores privados brasileiros. Os jornais têm trazido as brigas que estão acontecendo, em parte porque não existe um sistema eficiente de Governança.
Por que a preocupação com a Governança Corporativa no Brasil? É para proteger os minoritários?
Governança não tem a ver com proteção aos minoritários, são coisas diferentes. Por um lado existe um movimento legítimo e necessário de proteção a minoritários em empresas privadas de capital aberto. Por outro, existe uma preocupação com a maneira como empresas recém-privatizadas são governadas através de acordos entre alguns do sócios – isso é um fenômeno muito novo e muito específico por causa de defeitos no esquema de privatização utilizado.
E como vai a empresa brasileira?
Outro fenômeno que estou percebendo é a aparição de um novo pensamente capitalista jovem e moderno, por exemplo o praticado por gente como o Fundo Dynamo e o Investidor Profissional. É gente com um pensamento extremamente moderno, parece-me que são para o Brasil de hoje o que foi alguém como Jorge Paulo Leman trinta anos atrás.
O que é importante num Conselho?
A figura do conselheiro independente é fundamental. É a pessoa que não tem outro interesse que o de defender o melhor interesse da empresa como um todo. Não é empregado, não é acionista, não é amigo de ninguém. Já o conselheiro profissional é alguém que vive disso, não faz outra coisa senão ser conselheiro. Se for competente pode ser útil, desde que seja independente, não ligado a grupos ou subgrupos dentro da estrutura acionária da empresa.
Os administradores brasileiros vão conseguir se adaptar à Governança Corporativa?
Não acho difícil os executivos aprenderem a trabalhar para os acionistas. É só sentirem de onde vêm as ordens, e as recompensas, que mudarão seu comportamento. O problema todo veio do fato de que os acionistas não sabiam como exercer seu poder. O poder é deles, é só usá-lo.
Mas como ficam os minoritários face à Governança Corporativa?
Repetindo, a governança não é a respeito de minoritários. Esta preocupação, altamente legítima, é da bolsa e da CVM.

Gostaria de acrescentar em Governança Corporativa, uma única palavra, que define a responsabilidade de quem dela participa. "lisura".
Parabéns pelo artigo.
Parabens pelo artigo, muito oportuno.
Agradeço pelo artigo.
Pergunta: A governança corporativa da empresa fica subordinado ao Instituto Brasileiro de Governança Corporativa ?
Artigo interessante e esclarecedor.
Sua visão sobre o que é Governança Corporativa e quando surgiu, traz, com simplicidade, luz para o tema.
Muito Bom!
Matéria muito bem elaborada, sucinta, objetiva, que esclarece, de forma inteligente, o neo-sinônimo, pretensamente "complicado", técnico, para um assunto simples, que "quase todos" conhecem e praticam há bastante tempo.
Muito bom o artigo de Antonio Carlos Vidigal. Meus cumprimentos.
A Governança Corporativa deveria ser aplicada no Estado a fim de se ir eliminando os caciques do poder, altamente prejudicial ao país, Estados,Municipios.
Algumas Prefeituras já sinalisam este caminho através do Orçamento Participativo.
Gostei do artigo. Mas na minha opinião a GC tende a proteger os minoritários. Digo isso pela sua amplitude atual. E, um livro que lí, diz que o pioneirismo da GC surgiu com o Adrian Cadbury, na qual, estava indignado com o tratamento dado aos minoritários. Pode ser que as evidências tenham surgido muito antes, mas assim como o oxigênio, só foi "descoberto" muito tempo depois.
Não sou nenhum especialista no assunto, apenas lí alguns livros sobre GC. Ficaria grato se o autor, ou algum leitor, questionasse a minha opinião.
Prezado Alexandre, acho que o autor tem razão. A proposta básica da GC não é proteger minoritários, é fiscalizar a gestão. Quanto a Cadbury: no final dos anos 80 estourou em Londres um escândalo de manipulação das ações da Guinness, empresa cotada em bolsa. Cadbury era um respeitado empresário (Cadbury Schwepps) e foi nomeado coordenador de um comitê para propor reformas. O resultado desse trabalho, em 92, foi o primeiro "Código de boas práticas de governança corporativa", que não é lei, apenas recomendação. Isso realmente foi a base da moderna GC, mas esta já existia antes, apenas começou o movimento moderno, cuja bandeira Robert Monks levantou nos EUA.
Faz sentido Dorival. Vou ler mais sobre a base da GC. Lí um livro "GC-fundamentos, desenvolvimentos e tendências", na qual, aborda o assunto de forma tão abrangente que tenha ofuscado minha mente. O livro comenta até de empregado participando do Conselho de Administração.
Obrigado pela orientãção.
Abraço a todos!
GOVERNANÇA CORPORATIVA-Assunto antigo p/gdes.Nações.Novo para o resto do mundo.Matéria clara,instrutiva,objetiva,
com boas informações.Se não houver bons mediadores
p/ implementação da Boa
Governança nos países que
ainda não as praticam será difícil entender que o grande Capital que se acumulou em todo o globo ,
precisa da compreensão daquele que não tem êsse Capital, continuar a crescer e assim povoar o
planeta c/sinais positivos da prosperidade
em todos os campos das
sociedades do mundo todo.
Do outro lado,àqueles que
dão e esperam a contibuição do Grande Capital, merecem ter do Grande Capital a inevitável compreensão de
que êsses pequenos investidores também são
consumidores em números
expressivos em todo o mundo.~São êles também formadores de opinião nos
mercados em que se pretende implantar a Boa Governança nas empresas.
A discussão do sistema
Capitalista que se pratica
a mais de cem anos me parece que tem que passar
por um desses momentos de definição e reflexão como é o caso da Boa Governança Corporativa.
O retorno do ideal Capital empregado tem que ser definido, para que êle seja perene.
A obtenção de lucros
compatíveis com o seu valor participativo
precisa ser reavaliado , uma vêz que não é possível no sitema Capitalista vigente , dispensá-lo , então porque
não estudar-se uma
remuneração justa na proporção do seu valor
aplicado. A queda de braço é polêmica , mas para o bem de todos nós tem que ser resolvida. Se possível sem perdedores , mas todos ganhadores.
Interesante a matéria, gostei; agora a proteção dos minoritários creio que deva ocorrer com criação de mais clubes de investimentos.Vc se adere a um clube que controla ações de uma determinada empresa e ficaliza de masi perto. um abraço.
helcio – Duisburg – Deutschland.
Muito bom, o artigo. mesmo eu, que não entendo nada disso, consegui acompanhar.
Parece-me que é mais que uma tendência: a GC é um fato!
Agora, o de que mais gostei foi deste comentário, lúcido e bem focado na realidade brasileira:
"A Governança Corporativa deveria ser aplicada no Estado a fim de se ir eliminando os caciques do poder, altamente prejudicial ao país, Estados,Municipios.
Algumas Prefeituras já sinalisam este caminho através do Orçamento Participativo."
Amigo Rogério, quando isso estiver acontecendo (se acontecer…), aí o Brasil vai ser um País, não um quintal abandonado.
Abraços
Claro e objetivo demonstra que a governança corporativa compartilha decisões entre acionistas e executivo principal, o que seguramente é bom para a organização.