Início » Opinião » Artigos » Sem a agricultura, não tem negócio
Artigos

Sem a agricultura, não tem negócio

Dentro de uma semana começa em Hong Kong a reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC). Tendo em vista os fracassos nas reuniões ministeriais anteriores, a expectativa com relação à rodada de Hong Kong não é das melhores.

O cerne da questão é a liberalização do comércio de produtos agrícolas – entendida a liberalização não somente como a progressiva eliminação das barreiras às importações pelos países membros da Organização, mas também, e principalmente, a progressiva eliminação dos subsídios às exportações pelos países industrializados.

O problema é antigo. Quando, no final da Segunda Guerra Mundial, foi criado o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT, em inglês), os produtos agrícolas ficaram de fora. Ao longo das décadas de 1950 até 1980, as diversas rodadas de negociações praticamente eliminaram a proteção alfandegária às exportações de produtos manufaturados. O agronegócio continuou de fora.

Há diversas razões que explicam essa dicotomia. A principal é de natureza política: as cidades votavam comunista e o campo, conservador. Os governos conservadores apoiavam a atividade do agronegócio em troca de apoio político.

Tudo bem, se tudo ficasse entre eles. O problema é que a Europa é o local menos propício a uma atividade agrícola moderna: falta espaço e, em conseqüência, escala. Países produtores eficientes, como os Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia e Argentina, logo perceberam que as vantagens comparativas não regiam esse tipo de comércio. Nós, também.

Pior, à medida que a proteção contra as importações não bastava para enfrentar a concorrência nos países europeus, os subsídios internos à produção e às exportações aumentaram. Com isso, inviabilizou-se a produção para exportação de países pequenos, sem capacitação para outras atividades. Essa é a origem da tragédia africana e da culpa européia com relação à África. Se olhassem com mais cuidado, veriam também que prejudicam não somente a África, mas também as Américas Latina e Caribe.

Recentemente, os Estados Unidos se dispuseram a reduzir a proteção ao seu agronegócio, como forma de fazer andar as negociações na OMC. É do interesse dos EUA assim proceder, já que estão em jogo em Hong Kong a liberação do comércio de serviços e outros temas, como propriedade intelectual. A Inglaterra também está apoiando a liberalização do comércio agrícola. A Alemanha, discretamente, também apóia a liberalização. Falta a França.

Nesse contexto, o chanceler Celso Amorim está certo: sem liberalização do comércio agrícola não tem negócio.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *