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Integração energética

Transparência na eletricidade

No início deste ano, o baixo índice de chuvas que atingiu o território nacional deixou o governo em estado de alerta: os reservatórios das hidrelétricas estavam longe de sua capacidade total e o risco de um novo apagão no país era cada vez mais real.

Para tentar resolver um problema ainda inexistente, o Poder Público e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) decidiram liberar a geração de potência a partir de usinas termoelétricas movidas a carvão e óleo, responsáveis pela emissão de toneladas de carbono para a atmosfera. Agora, oito meses depois, as conversas em Brasília têm a mesma pauta e uma nova solução — a integração energética entre países.

Embora bem vista entre o alto escalão do governo federal, esta possibilidade ainda engatinha pelos corredores do Palácio do Planalto. Explica-se: apenas no último dia sete de abril a Lei 11.651, que autoriza a Eletrobrás a investir no setor elétrico em solos estrangeiros, foi sancionada. A companhia estatal, é claro, não perdeu tempo e logo criou a Superintendência de Operações no Exterior, cuja principal função é promover a integração energética entre o Brasil e as demais nações da América Latina — com especial ênfase para os acordos em que a pátria tupiniquim saia majoritariamente beneficiada.

O discurso oficial, por enquanto, defende o interesse em abrir novos mercados de fornecedores de bens e serviços para a economia nacional — mas, na verdade, o principal objetivo é criar uma linha de transmissão de energia elétrica única de norte a sul do país. Apesar do alto número de defensores para a idéia, há quem seja contrário. É o caso, por exemplo, do cientista político Sérgio Abranches. Para ele, o projeto é um erro logístico. “A solução contemporânea é buscar fazer o máximo off-grid, fora da rede, com energias renováveis locais. Na Amazônia, por exemplo, a solução local, off-grid, seria usar biomassa abundante para gerar eletricidade. No futuro algumas soluções fotovoltaicas”, explica.

Procurada pela reportagem do Opinião e Notícia, a assessoria de imprensa da Eletrobrás disse que o diretor de Operações no Exterior ainda não está autorizado a falar com os jornalistas sobre a nova empreitada. “Todos os acordos estão na fase de negociações. Não há nada assinado”, disse. Mas os planos são ambiciosos. De acordo com a própria empresa, há conversas com nações da América Latina e também da África em andamento.

Com a Angola e Namíbia, por exemplo, estão sendo realizados estudos de viabilidade para a hidrelétrica (AHE) de Baynes, no rio Cuneme, fronteira entre os dois países. Porém, é em território vizinho que o Brasil concentra todas as expectativas de receber quantidade suficiente de energia para nunca mais temer períodos de racionamento como o de 2001.

Cautelosamente, a Eletrobrás amarra uma aliança com a Argentina para a construção da barragem binacional de Garabi, no rio Uruguai, que tem capacidade de produção estimada em 1,8 mil megawatts.

Novo país

Outras duas hidrelétricas em parceria com a Nicarágua estão sendo avaliadas, assim como um acordo de cooperação técnica com a Costa Rica. Junto à Venezuela, as conversas estão um pouco mais adiantadas e visam o intercâmbio de energia elétrica da terra de Hugo Chávez para Roraima, com possibilidades de a linha ser estendida até Manaus, capital do Amazonas. Até agora, no entanto, nenhum possível aperto de mãos é tão falado quanto o que está sendo articulado com o Peru. Ao todo, serão 15 barragens erguidas, um total de 20 mil MW gerados e um custo de R$ 2 bilhões para os cofres públicos nacionais — esta é a única negociação com números confirmado pela Eletrobrás.

É provável que, dentro de alguns meses, parcerias sejam seladas também com a Bolívia, Colômbia, China, Equador, El Salvador, Guiné Bissau, Marrocos, entre outros. Antes disso, porém, o presidente Lula já se mostra muito empolgado com a chance de criar uma rede de apoio energético com os vizinhos. Durante um encontro com Chávez em março deste ano, o mandatário brasileiro deixou transparecer a felicidade com a construção de um gasoduto entre a Venezuela e a Argentina. “Estamos criando um país chamado América do Sul”, afirmou, em entrevista para a agência de notícias Reuters. 

O Ministério de Minas e Energia também preferiu não se pronunciar sobre as novas oportunidades brasileiras no setor de energia elétrica, em um jogo de esconde-esconde difícil de decifrar. Apesar dos possíveis benefícios que o acúmulo de potência pode trazer aos cidadãos, há dúvidas acerca das formas pelas quais ele será alcançado. “É insensatez desenvolvimentista, sem qualquer noção de sustentabilidade e sem qualquer preocupação com a mudança climática”, diz Abranches. Falta apenas torcer para que a transparência nas ações faça parte dos relatórios mensais do governo.

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