Início » Opinião » Artigos » Uma visão sobre o mito Vargas
Artigos

Uma visão sobre o mito Vargas

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

(Livro em Resenha: Pai dos Pobres? O Brasil e a Era Vargas – Robert M. Levine*)

Os autores que nutrem certa simpatia pela figura de Getúlio Vargas, mas são honestos intelectualmente, sempre se socorrem da personalidade complexa do ex-ditador para justificar seus maiores erros. Esquecem-se de que qualquer pessoa que exercesse a presidência por 20 anos, a maior parte dos quais com poderes absolutos, se tornaria necessariamente uma figura complexa. Num longo período como esse também não é difícil identificar fatos positivos (muitas vezes sem relação nenhuma com qualquer ação governamental) para render as devidas homenagens ao chefe.

Este é o caso da obra Pai dos Pobres? O Brasil e a era Vargas, do historiador norte-americano Robert M. Levine. Ele fez uma longa pesquisa em arquivos brasileiros e norte-americanos na década de 60, publicando originalmente esse trabalho pela Comumbia University Press, em 1970. Na década seguinte, o autor expandiu a pesquisa e finalmente publicou a versão revista em português no ano de 2001.

A simpatia que o autor demonstra ao analisar Vargas e seus períodos na Presidência – à qual chegou por, praticamente, todos os meios – por revolução (1930), eleição indireta (1934), golpe de Estado (1937) e eleição direta (1950) – não o impede de um certo espírito crítico, especialmente quanto às práticas políticas. O Professor Levine (Universidade de Miami) desenha, no entanto, um retrato muito mais favorável ao ex-ditador no que diz respeito à sua agenda econômica. É certo que ele narra os incontáveis fracassos econômicos, especialmente o do populismo do segundo mandato. Mas há sempre uma justificativa à mão para isentar o intervencionismo fascista dos anos 30/40, ou keynesiano dos anos 50. Talvez porque o autor não seja economista e não saiba que não existe registro de nenhuma política econômica intervencionista bem sucedida. Mas excluindo a frágil argumentação para explicar aspectos supostamente beneméritos das políticas de Vargas, que lhe concede o duvidoso título de pai dos pobres, a obra representa uma pesquisa meritória e deve ser lida por quem se interesse pelo período Vargas.

O maior reparo que pode ser feito diz respeito à questão do suicídio, tratado como um mistério. Mais uma vez a personalidade complexa, introvertida e enigmática do ex-ditador é invocada. Ora, nas três semanas que antecederam o suicídio, Vargas se viu às voltas com uma oposição implacável nas denúncias de corrupção. A inflação também já despontava como um sério mal econômico e seu círculo íntimo viu-se inequivocamente envolvido na tentativa de assassinar Carlos Lacerda. Caso não tivesse se suicidado, o ex-ditador teria sido derrubado e, provavelmente, levado a julgamento, como aconteceu com o ex-presidente Collor e sua entourage. O gesto suicida foi a única alternativa para Vargas garantir um lugar ao sol na História brasileira do século XX. Não há nisso nenhum mistério.

*LEVINE, Robert M. Pai dos Pobres? O Brasil e a Era Vargas. Rio de Janeiro, Companhia das Letras, 2001, 278 páginas.

Outros artigos da série:

5 de agosto de 1954

O anti-semitismo na Era Vargas

9 de agosto de 1954 – O círculo se fecha

18 de agosto de 1954 – Deposição moral de Getúlio Vargas

24 de agosto de 1954 – O suicídio como arma política

Olga

Uma visão sobre o mito Vargas

Uma avaliação da Era Vargas

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

5 Opiniões

  1. Maria Araruna Neves disse:

    Pesquisando sobre esse assunto, na INTERNET, é muito dificil encontrar algo realmente imparcial. Os pro' são muito pro' e os contra, muito conta. A pesquisa, na sua essência, deveria estar acima disso tudo!
    Outra coisa intrigante: não se pode fugir da censura; mesmo num siples site da web que a critica, você é obrigado a passar por ela !

  2. José Francisco da Silva Sobrinho disse:

    Excelente.
    Sem comentários.
    Não são necessários

  3. jack disse:

    vargas foi o maior politico brasileiro que eu ja ouvi falar.

  4. Evandro Correia disse:

    Getulio foi um ditador sanguinário, matava e torturava. É uma ironia as pessoas que criticam o governo militar de 1964-85 admirarem Vargas. São farinha do mesmo saco. Usaram os mesmos métodos (tortura, cassação de direitos políticos) e até as mesmas pessoas (Filinto Muller entre outros).

  5. DENISE M V GORONI disse:

    Penso que se enaltecermos os pontos negativos todos nós seremos condenado por algo. È claro que num governo longo se cometem mais erros, porém não seria melhor então contarmos a história sem lado colocando o que foi de ruim e o que foi de bom para a nação e seu povo? Só assim podemos analisar se os benefícios foram maiores. Assim ocorra com as relações sociais e familiares. Será que esses comentaristas críticos e escritores que se “acham”, nunca cometeram erros em seus relacionamentos??
    Porque não falam da tendência do momento históricos em que esses governantes viviam e que o objetivo que combater um regime que já foi provado ao mundo que não FUNCIONOU “O COMUNISMO” ASSIM TAMBEM OCORREU NO GOVERNO MILITAR.
    Se é para jogar pedra, vamos apedrejar LULA, com permitiu que ocorresse no nosso país o maior escândalo da história do país. O que falar de nossa segurança??. Será que esses historiadores se sentem seguros no atual governo??
    COMISSÃO DA VERDADE???? QUE COMISSÃO É ESSA?? COM Os MAIORES CORRUPTOS DO MOMENTO??? É DE RIR.
    Melhorar a SEGURANÇA DOS CIDADÃOS DE BEM, MELHORAR A EDUCAÇÃO E A SAÚDE QUE SÃO O TRIPÉ DE UMA SOCIEDADE SADIA, é isso que o povo precisa.
    Acho que é um momento de se pensar melhor e não escandalizar épocas que foram muito melhores do que as que vivemos agora????

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *