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Clarice Lispector: muitas facetas, todas brasileiras

A brasileira nascida na Ucrânia foi escritora, jornalista e enfermeira durante a Segunda Guerra Mundial

Clarice Lispector: muitas facetas, todas brasileiras
Tereza Quadros e Helen Palmer foram pseudônimos de Clarice (Reprodução/ Internet)

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Clarice Lispector morreu no dia 9 de dezembro de 1977, a um dia de completar 57 anos, no Rio de Janeiro. Essa grande brasileira na verdade não nasceu no Brasil, mas em Tchelchenik, na Ucrânia, em 1920. No entanto, veio para cá já aos dois meses de idade, quando se instalou com a família, primeiramente em Maceió, e depois no Recife. Em 1942, procurando antecipar o seu processo de naturalização, a jovem escritora enviou uma carta ao então presidente da República, Getúlio Vargas, em que para argumentar se definia e falava de seu futuro: Uma russa de 21 anos de idade e que está no Brasil há 21 anos menos alguns meses. Que não conhece uma só palavra de russo mas que pensa, fala, escreve e age em português, fazendo disso sua profissão e nisso pousando todos os projetos do seu futuro, próximo ou longínquo (…) tudo que fiz tinha como núcleo minha real união com o país e que não possuo, nem elegeria, outra pátria senão o Brasil. Poderei trabalhar, formar-me, fazer os indispensáveis projetos para o futuro, com segurança e estabilidade. A assinatura de V.Exª tornará de direito uma situação de fato. Creia-me, Senhor Presidente, ela alargará minha vida. E um dia saberei provar que não a usei inutilmente.

Com isso, Clarice Lispector já deixava registrado que vivia para escrever, e que a sua língua era o português. Ela deu aulas do idioma e atuou como jornalista antes de começar a publicar romances. O jornalismo foi importante para que, ainda bem nova, se aproximasse de nomes como Antônio Callado, Hélio Pelegrino, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. Apenas dois anos depois de escrever a carta ao presidente, Clarice já estaria começando a cumprir a quase profecia contida na última frase do trecho reproduzido neste artigo: em 1944 foi lançado o primeiro romance da autora, Perto do Coração Selvagem. O livro aborda a solidão e a incomunicabilidade humana, utilizando uma linguagem que se aproxima da poesia.

Pouco antes disso, em 43, Clarice havia se casado com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem ficaria por 15 anos e teria dois filhos, Pedro e Paulo. Logo após se unir, o casal rumou para a Europa, em plena Segunda Guerra Mundial. Na Itália, onde ficaram até 1946, Clarice mostraria um outro lado de sua personalidade, atuando como enfermeira de soldados brasileiros. O segundo romance da escritora, O Lustre, começou a ser desenvolvido ainda no Brasil, e foi concluído nessa época em que ela esteve na Itália.

A cidade sitiada, lançado em 49, foi escrito por Clarice na Suíça, num período em que a autora sentiu muito a falta das irmãs e dos amigos que havia deixado longe para acompanhar as viagens do marido. Até 1952 ela escreveria contos, e nesse ano publicaria a compilação Alguns Contos, posteriormente renomeado para Laços de Família com adições em 1960.

Para escrever as colunas femininas – atividade independente do percurso literário – Clarice utilizava-se de vários pseudônimos. Referência recente a isso foi feita em reportagem publicada no jornal O Globo, dia dois de julho último, a respeito da compilação das colunas de assuntos femininos a ser lançada este mês com o título CORREIO FEMININO. A matéria apresenta uma faceta pouco conhecida mas também muito característica de Clarice: a da mulher vaidosa, e que como jornalista podia dar dicas para outras mulheres também preocupadas com a moda, a beleza e comportamento. Para falar desses temas, Clarice assinou como Tereza Quadros, depois como Helen Palmer, e também foi a ghost writer da atriz Ilka Soares. Outra atividade que Clarice exerceu foi a produção de livros infantis. O primeiro deles, O Mistério do Coelho Pensante, data de 1968 e foi baseado numa história real da família. Depois vieram A Mulher que Matou os Peixes, A Vida Íntima de Laura, Quase de Verdade e Como Nasceram as Estrelas.

Em março de 2005, o jornal americano New York Times lhe deu consagração internacional ao chamá-la de Kafka da América Latina.

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29 Opiniões

  1. Eduardo disse:

    aproveitando, rola na internet um poema supostamente assinado por Clarisse, mas que eu andei pesquisando e constatei que NÃO é. Ele é interessante porque é um poema espelhado: pode ser lido de trás para diante. O autor verdadeiro continua anônimo.

    Não te amo mais
    Estarei mentindo dizendo que
    Ainda te quero como sempre quis
    Tenho certeza que
    Nada foi em vão
    Sinto dentro de mim que
    Você não significa nada
    Não poderia dizer mais que
    Alimento um grande amor
    Sinto cada vez mais que
    Já te esqueci!
    E jamais usarei a frase
    Eu te amo!
    Sinto, mas tenho que dizer a verdade
    É tarde demais…

  2. Anônimo disse:

    Clarice foi o(a) maior escritor do país no século 20, só perde para Machado no 19.

  3. Luciana Mares disse:

    Clarice foi uma grande mulher, além de grande escritora! Estou entusiasmada com esse novo livro que conterá textos das colunas que ela escrevia para os jornais, pois é um lado seu que pouco conheço até agora.

  4. Guilherme Apolinário disse:

    Além de grande escritora foi uma grande mulher, uma pessoa à frente de seu tempo, com a coragem de enfrentar tabus e o machismo da nossa sociedade.

  5. mmn-ramos@uol.com.br disse:

    Sempre será muito bom lermos coisas interessantes como a vida edessa grande mulher: Clarice.

  6. Mauricio Bernardi disse:

    Clarice não poderia dizer o mesmo que Artur Azevedo: seus contos, publicados em jornal, eram escritos em linguagem simples e dirigidos ao grande público. A autora de “Laços de Família” já tinha um público bem mais restrito, não tendo a intenção, ou o dom, de encantar a um grande número de leitores.

  7. Fanny Strowbowsky disse:

    Clarice foi, antes de qualquer coisa, uma grande mulher! Sabia como ninguém transmitir sentimentos e desejos nas coisas que escrevia, como “Laços de Família!, “Água Viva”, “A Hora da Estrela” ou “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, com linguagem simples, é fácil entrar na história, se envolver ou se identificar com seus personagens tão comuns e tão humanos que faz uma miscelânia entre a realidade e a ficção!
    Clarice Linspector é realmente inconfundível e digna de ser citada como uma das maiores autoras do século XX!

  8. Antunes Garcia, Corumbá, MT disse:

    O ON presta um grande serviço em enaltecer pessoas de valor no Brasil: estamos fartos de mau exemplos de políticos e jogadores de futebol gananciosos, quando não criminosos, temos de mostrar às novas gerações que há valores autênticos a serem seguidos aqui mesmo. Parabéns e continuem o louvável esforço!

  9. Renata Lôbo disse:

    Clarice Lispector foi sem dúvida uma mulher à frente de seu tempo! Ainda me surpreendo quando leio um livro, um trecho, ou um conto mesmo e imagino que ela viveu e morreu em uma geração tão diferente dessa que estamos vivendo agora!
    Minha admiração por essa mulher cresce cada vez mais, e ainda tenho tanta coisa para ler!…
    Mas no entanto, na minha opinião, ler Clarice não é nada simples, não é pra qualquer dia, ou qualquer hora… porque é de uma intensidade cada linha que chega a dar um certo medo de se perder!
    E é por isso que me fascina tanto!…

  10. robson disse:

    esse poema que pode ser lido de tras pra frente É DELA SIM.

  11. MANOEL COSTA disse:

    CLARICE TEM UMA SUTILEZA LINDA TANTO NA PENA COMO NA PELE, E , APESAR DE TER NASCIDO FORA ,CONSEGUIU PROVAR QUE O MEU BRASIL É CAPAZ DE PRODUZIR ALGO TAO LINDO E FORTE…COMO FOI E É CLARICE.

  12. Lena disse:

    EStou lendo o livro de crônicas “Aprendendo a viver”.
    Incrível a impressão que seus textos transmitem.
    Sem dúvida, uma mulher à frente do seu tempo.

  13. Luciana Romero disse:

    Clarice é quase indescritível. Sua sutileza mistura-se com a sua verdade afiada, saindo assim do lugar comum; Consegue transformar a mais dura realidade em poesia. Muito intimista, toca a todos que “não têm a alma tão pequena”, como ela gostaria que fossem lidos seus livros.

  14. Danielle Pinto disse:

    Grandiosa mulher!
    Sou suspeita pra falar…
    Pois amo os seus trabalhos!

    Uma escritora FANTÁSTICA!!!!

  15. Graziella disse:

    Clarice é tudo de bom.
    Ela sabia expor seus sentimentos em palavras, toda sua angustia fora transformada em contos, historias.
    Sou completamente fascinada por seus livros.
    Enfim CL se resume em apenas uma palavra.DEUSA!!

  16. José Grangeiro Sobrinho disse:

    O & N, está de patrabéns mais uma vez. Por esta, ao retratar, uma das maiores escritoras da Literatura de Língua Portuguesa, mostrando assim, que é o jornal mais dinâmico, ou por não dizer, o mais versátil, pois mescla temas, desde os polêmicos, até os culturais e intelectuais. Parabéns, mais uma vez. Vocês estão no caminho certo da informação com credibilidade e responsabilidade.

  17. marconi santos disse:

    é bastante salutar trabalhar e constatar que os alunos ficam totalmente fascinados com a obra de clarice, sou professor de literatura e totalmente apaixonado pela introspecção de clarice, ela é divina…..

  18. cicero simoes disse:

    Toda a obra de Clarice é fundamental na literatura brasileira.Nada foi escri
    to em vão.Clarice tinha o dominio completo da pala
    vra e dos sentimentos.

  19. alice cunha santos disse:

    adorei os livros que li dela e pretendo ler muito mais.ela e uma escritora fantastica.

  20. Hana Jacobowitz disse:

    Muito bom!

  21. Natalhya silveira disse:

    vejo estas obras de clarice como um instrumento de fundamental importancia na literatura brasileira para contribuir para o estimulo do interesse do leitor!!

  22. Nataly Tomé disse:

    O que dizer de Clarice ? Que ela é um ícone, que sua alma poética é ímpar? Que suas obras transcendem o real ? Que suas palavras tocam o nosso universo íntimo ?
    O que dizer de Clarice? Clarice, Clara Alice, você é insubstituível, isso é fato.

  23. Neusa Sofia Gräwer disse:

    As obras de Clarisse nos transmitem sentimentos que nós percebemos em nos mesmos. Mas, somente uma mulher, tão maravilhosa quanto ela, tem a habilidade para traduzir através da escrita tais emoções.

  24. Renata C. M. Garcia disse:

    Estou fascinada por Clarice e é uma pena que só fui ter contato com seus escritos agora que estou cursando Letras e pretendo fazer minha monografia sobre seus contos.
    O que falar mais sobre Clarice, é por si só já diz tudo e como entenedia o ser humano.Quero livros que falem de suas obras!

  25. bruno disse:

    Essa grandiosa mulher foi um marco na historia da literatura barasileira.

  26. helio (rio de janeiro) disse:

    Estive uma vez com Clarice, e sua conversa era caseira, feminina, familiar, discreta. Na época já lera Perto do Coração Selvagem e fiquei intrigada com o que considerei na época discursos incompatíveis. Ela gostava da vida, era belíssima, era a nossa maior escritora, mas não era arrogante. A sua vida pessoal, sua arte, seus interesses eram muitos e não brigavam entre si. Hoje lerei o Correio Feminino com o prazer que tive de ver suas pinturas, e ler avidamente os seus contos.

  27. Luiz Bouchardet disse:

    Alguém pode me dizer qual foi o PREMIO que qualquer meio de comunicação brasileiro deu a esta grande escritora? Ou foi só o jornal americano New York Times que reconheceu esta grande mulher brasileira para dar a ela uma consagração internacional.
    Será que nós não gostamos de pessoas inteligente e cultas, e sim, só de presidente analfabeto, futebol, carnaval e políticos corruptos?

  28. Joaquim Caldas disse:

    Descanse em paz! Seus escritos já nos confortam!

  29. walison dos santos brito disse:

    eu sou fa dela i digo qui clrice lispector foi uma grande mulher nao era brasileira mais vio ou brasil isso eu quero deixar aqui para a familia dela meu abraco minha gratidao olha clarice lispector esta de parabens descanse em paz

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