Início » Opinião » Biografias » Paulo Rónai
Grandes Brasileiros

Paulo Rónai

Paulo Rónai, filho do livreiro Miksa (Maximiliano) Rónai e de Gizella Rónai, nasceu em 13 de abril de 1907, em Budapeste (Hungria), onde fez os quatro anos primários, os oito de secundário, e cinco de estudos superiores na Faculdade de Filosofia da Universidade Péter Pázmány (1925-1928), completados com três anos em Paris, na Sorbonne (1929-1931), e cursos de férias na França (Alliance Française de Paris) e na Itália (Universitá per Stranieri, de Perúgia). Tirou os diplomas de Professor do Curso Secundário – de latim, francês, italiano e húngaro – e de Doutor em filologia latina e neolatina. Deu a público, em 1930 e 1939, respectivamente, À margem dos romances de mocidade de Honoré de Balzac (tese de doutoramento) e Poetas latinos (Antologia de dois mil anos de poesia latina, traduzida em versos húngaros, com introdução).

Colaborou na Nouvelle Revue de Hongrie, orientando-lhe a parte literária e traduzindo muitas matérias do húngaro para o francês. De 1934 a 1940, lecionou latim, francês e italiano, em dois colégios de Budapeste, além de ter sido, de 1933 a 1938, professor dos cursos da "Società Dante Alighieri", daquela capital.

Topando certa vez com uma coletânea de poemas portugueses, muniu-se de uma gramática e de um dicionário português-alemão, e atirou-se a estudar a nossa língua. Em seguida, conseguiu obter do Brasil livros de poesia, e, dentro em pouco, em 1939, publicava em versos húngaros Mensagem do Brasil, uma antologia da moderna poesia brasileira seguida, em 1940, de Poemas de Santos, uma antologia de poesias de Ribeiro Couto. Ao mesmo tempo, numa grande sociedade de conferências budapestenses, deu palestras – e pela primeira vez isso aconteceu na Hungria – sobre literatura brasileira.

Em 1940, por ser judeu, foi vítima da perseguição nazista, sendo preso no campo de trabalho de Hárossziget, uma ilha do Danúbio, perto de Budapeste, onde dormia num estábulo e era obrigado a trabalhar como pedreiro na demolição de um edifício militar para em seguida reconstruí-lo, dez metros adiante.

No entanto, Ribeiro Couto já havia então alertado ao Itamaraty da existência daquele amigo do Brasil em tão longínquo país e o governo brasileiro oficialmente convidou Paulo Rónai a visitar-nos, em 1941, gesto que acabou salvando sua vida.

Não se salvou, entretanto, a sua noiva, Magda, com quem ele se casou daqui, por procuração, na tentativa de salvá-la, depois de ter-se baldadamente esforçado, durante anos, para tirá-la de lá. Magda foi assassinada pelos nazistas; e assim o foram quase todos os amigos que deixara em Budapeste, muitos deles da intelligentsia magiar, entre os quais quatro escritores que figuram na Antologia – Molnár Akos, Pap Károlv, Szerb e Gelléri.Em 1945, naturalizou-se brasileiro – com dispensa do prazo legal, por serviços culturais prestados ao país. Anos depois, casou-se com Nora, também naturalizada brasileira, e teve duas filhinhas brasileiras, Cora e Laura, integrando-se, perfeitamente, em nosso meio.

Paulo e Nora Rónai

Ao longo de suas atividades profissionais, foi professor do Liceu Francês, do Colégio Pedro II, do Colégio Metropolitano e de várias outras prestigiosas instituições de ensino. Seus alunos se lembram dele como um mestre rigoroso, porém justo e carinhoso, apaixonado pelo seu ofício. Com o tempo, tornou-se um escritor brasileiro, sendo numerosos os livros que publicou. Merecem lembrança especial suas séries de manuais de Francês e de Latim, sua antologia do conto mundial Mar de Histórias (em colaboração com Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira), seus volumes de ensaios Como Aprendi o Português e Outras Aventuras, Encontros com o Brasil, Escola de Tradutores, Pois é e Babel & Antibabel. Foi responsável pela edição brasileira da Comédia Humana de Balzac, edição esta considerada a mais completa e bem cuidada pela própria Maison de Balzac, em cuja exposição permanente figura em lugar de destaque. Dirigiu ainda a famosa Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura. Traduziu para o português muitas obras da literatura universal, destacando-se a Antologia do Conto Húngaro e Os Meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár.

Como dicionarista foi responsável pela parte de estrangeirismos do dicionário Aurélio, e além de colaborar em vários outros dicionários, escreveu ele mesmo um dicionário português/francês e francês/português, além do mais conhecido dicionário de citações publicado em nossa língua. Sua colaboração na imprensa literária foi das mais relevantes. Foi visionário ao apontar as qualidades de escritores que vieram a ser reconhecidos como os maiores vultos da literatura nacional, como Guimarães Rosa, Drummond, Nelson Rodrigues e Cecília Meirelles, entre outros. Deu cursos e fez conferências sobre literatura brasileira em Paris, Toulouse, Rennes, Neauchâtel, Heidelberg, Budapeste e Tokyo. Lecionou literatura brasileira e francesa como Visiting Associate Professor na University of Florida, em 1967. Assinale-se, finalmente, os seus contatos com o teatro. Traduziu do húngaro a peça de Alexandre Török, Uma Noite Estranha, para a coleção "Teatro" do Ministério da Educação e Cultura. Em 1965, deu uma série de conferências no Teatro Municipal sobre "Capítulos da História do Teatro Universal", reproduzidas na Revista do Teatro. Enfim, escreveu uma peça infantil em 1966 para divertimento de suas filhas Cora e Laura, que a representaram em sua casa de Friburgo, o Sítio Pois é, com seus amigos do vizinho Sítio Cabubo. Paulo Rónai morreu em Nova Friburgo, RJ, em 01 de dezembro de 1992.

Leia aqui os outros artigos desta série

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

7 Opiniões

  1. Laura Rónai disse:

    Fico contente de ver papai homenageado, é bom saber que ele não foi esquecido. E é importante agradecer ao autor desse belo texto, Alexandre Teixeira.

  2. Mateus Kacowicz disse:

    Paulo Rónai trouxe sua cultura, seus valores, seu humanismo. Ao apagarem a luz sobre a Europa os alemães não conseguiram evitar que alguns clarões viessem a iluminar por aqui.

  3. ernando disse:

    Tenho garantido meus pequenos conhecimentos à admiração e uso das traduções excelentes de Paulo Ronai, um mágico nas letras e comunicação escrita,traduzindo até a neuro/linguagem dos autores.

  4. Evandro Correia disse:

    A contribuição dos judeus que vieram para cá fugindo de Hitler é incalculável. Seja no campo cultural, seja no empresarial.

  5. S. R. Tuppan disse:

    Honra a Paulo Rónai, de quem me aproximei através de Balzac. Embora não nos conhecêssemos pessoalmente, contribuiu para a minha leitura do mundo, conseqüentemente, para a minha escritura.

  6. Fernando dos Reis disse:

    Orgulho-me de ter estudado e acompanhado Rónai através de seus vocabulários ortográficos da língua portuguesa. Fui morar em Friburgo e tive a honra de conhecê-lo pessoalmente. Sua vida, além de emocionante, foi grandiosa para a humanidade. Com sua morte, o Brasil ficou um pouco mais burro.

  7. Estéfan Polay disse:

    Nas devidas proporções, identifico-me com Paulo Rónai (Rónai Pal), pois sou descente de húngaros, também estudei línguas neolatinas – só não sou doutor. Fui professor na área de linguística românica e até hoje leciono latim e francês. Nas aulas de latim usamos os volumes do Curso Básico de Latim, de sua autoria (estamos no Gradus Tertius). É estudando por meio desses seus livros que eu e minha aluna particular, Márcia da Silva Cruz, nos aprofundamos no estudo da língua de Cícero. O Brasil perdeu um importante intelectual, cujo maior mérito é ter aprendido e usado com perfeição a língua portuguesa, na origem, tão diversa da sua língua materna.
    Requiescat in pace, Rónai Pal!

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *