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CARROS ABANDONADOS

Brasil: de criadouro de carros a fábrica de mosquitos

Custo alto de manutenção tem feito milhares de brasileiros abandonarem seus carros, que acabam se tornando criadouros do mosquito da dengue

Brasil: de criadouro de carros a fábrica de mosquitos
Em 2014 a prefeitura de São Paulo recolheu das ruas no intervalo de seis meses mais de mil automóveis abandonados (Foto: Pixabay)

Lá pelo fim de um dos últimos verões, lá pelo encerramento de uma edição do telejornal Bom Dia Brasil, da Rede Globo, o apresentador Rodrigo Boccardi chamou as imagens de um depósito de carros sucateados localizado na beira da Via Dutra, na chegada à cidade de São Paulo. Outra apresentadora, Giuliana Morrone, alarmou-se: “um especialista me explicou que esses carros abandonados têm o microclima ideal para o mosquito da dengue”. Para a proliferação do mosquito transmissor da dengue, doença velha, e da zika, doença nova que apavora o país, mas talvez não mais do que o aumento de há poucos dias do preço da gasolina, este que acaba de transformar um tanque cheio de um carro popular num pequeno baú de tesouro valendo, não raro, mais de R$ 160,00, só que condenado a literalmente virar fumaça ao longo de uma semana de vai e vem para cumprir com as urgências da vida.

A maioria dos brasileiros viaja nas cidades grandes e médias como pacotes de carne embalada à vácuo adereçadas com patas de jabuti: apertados e devagar em ônibus que circulam no Rio de Janeiro e Fortaleza, em Porto Alegre e Belo Horizonte, Campo Grande e Manaus, escoltados, porém e por isso, por uma imensa frota de Gols e HB20s, Palios e Sanderos, menos de Civics e Corollas, mas todos carros de passeio financiados em até 60 vezes para serem carros de ir trabalhar, instrumentos do dia-a-dia mantidos sob um custo cada vez maior, o que se manifesta não apenas na cada vez mais temida bomba de abastecimento, com o preço da gasolina guardando menos relação com a lei da oferta e da procura e mais com gambiarras econômicas de lesa-bolso inventadas para tentar desesperadamente cumprir metas (de déficits) fiscais.

IPVAs literalmente impagáveis para muita gente; altos custos das revisões periódicas; pedágios de dois dígitos; estacionamentos, estes sim, irrepreensíveis cumpridores da lei da (pouca) oferta e da (muita) procura; trocas de pneus de dois em dois anos, em caso de sorte de não vê-los estourados antes; baterias que duram cada vez menos, ao passo que aumentam os dispositivos automáticos, e portanto elétricos, nos carros que vão saindo das fábricas; e vade-retro receber uma multa por um descuido, ou uma imprudência qualquer que pode custar o equivalente à compra do mês, talvez a uma mensalidade da escola das crianças.

Em São Paulo, todos os dias sete milhões de pessoas tiram seus automóveis da garagem na mesma hora para ir dar conta de ganhar a vida. Mais cedo ou mais tarde vão parar todos, os carros, em um dos 28 depósitos de sucata mantidos pela prefeitura paulistana. São cemitérios de lata-velha que dali sai leiloada a R$ 0,15 ou R$ 0,20 o quilo; dali, dizem os especialistas, saem nuvens de Aedes Aegypit, como fogos-fátuos, para assombrar os vivos, à moda dos vampiros brasilienses.

Em 2014 a prefeitura de São Paulo recolheu das ruas no intervalo de seis meses mais de mil automóveis abandonados, usados até onde deu e deixados para lá por falta de dinheiro para manutenção, ou por excesso de dívidas com multas e impostos. Incentiva-se quem tem dinheiro a comprar mais um; cogita-se tomar dinheiro de quem não pode mais manter o carro que tem. Tramita no Congresso Nacional um projeto de lei que transforma o abandono de carro em infração de trânsito “gravíssima”, sujeita a multa pesada.

Em São Caetano do Sul, cidade vizinha a São Paulo, há 3 automóveis para cada quatro habitantes. São Caetano fica no ABC paulista, maior criadouro de carros do Brasil. É a cidade com maior taxa de carros per capta do país. Há poucos anos o então secretário de mobilidade urbana da cidade explicou: “a população é apaixonada por automóvel”. O amor, como se sabe, é eterno enquanto dura. Por TV, rádio, jornal ou internet, volta e meia veicula-se o conselho, dado por especialistas outros, sobre o tempo ideal para se desfazer de um carro depois de comprá-lo novo: “5 anos de casamento”.

Assanhado pelo cupido da publicidade, que atira flechas enfeitiçadas nos intervalos dos telejornais, por incentivos fiscais comprados pelas montadoras na boca do caixa dois, e pela desilusão profunda com o transporte público, o amor por carros cresceu no Brasil em meio a este macroclima de consumo colérico de bens que, como se vê, nem são tão duráveis assim. Como no Brasil tampouco o são as estradas, os salários e os cenários de bonança econômica e crédito em expansão. Com a taxa de inadiplencia no financiamento de veículos batendo nos 5%, a Justiça brasileira tem dado aos bancos sinal verde para tomar o carro de quem atrasa prestações, mesmo quando o financiamento está praticamente quitado.

Esfregando as mãos, a multinacional de tecnologia Cisco prevê que em breve haverá mais gente no Brasil com celulares do que com luz e água potável. Uma outra previsão recente, sempre especializada, anuncia que a frota brasileira de carros de passeio, de ir trabalhar, deve triplicar até 2050, com a “taxa de motorização” crescendo bem mais do que a taxa da população. A previsão do tempo para as próximas décadas é, pois, ao gosto do mosquito Aedes e de outras pragas do Egito que, esfregando as patas, abatem-se sobre nós.

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2 Opiniões

  1. Áureo Ramos de Souza disse:

    Em se tratando de São Paulo ainda bem que é um ou dois carros abandonados nas ruas, aqui em Recife são os ferros velhos de carros e são muitos mai de 30 carros e tem muitos que de vez quando a ´policia descobre que é desmanche. Na BR 101 Sul em nossa cidade conheço 3 FERROS VELHOS ou desmonte de carros roubados e as autoridades não tomam providência.

  2. laercio disse:

    Os carros que ficam acumulados no pátio deveriam sofrer uma pesquisa para sabermos qual a viabilidade de serem recuperados ou não.
    Exemplo: um carro custa 20 mil reais mais, entre taxas, multas,etc) soma 15 mil; certamente o proprietário não irá mais recupera-o.

    Geralmente os veículos vao para leilão mas tal processo implica em burocracia que é menos eficaz do que algo que tivesse rotatividade diária.

    A proposta é vender tais veículos em condições impares para servidores públicos fornecendo recursos instantâneos para o estado e criando novas vagas para o cumprimento de novos estacionamentos.

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