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ELEITORADO MANIPULADO

Cambridge Analytica: quem navega os votos é o mar, ou melhor, o Ocean

O problema ético da manipulação do eleitorado está posto desde sempre; o problema legal está posto agora mais que nunca

Cambridge Analytica: quem navega os votos é o mar, ou melhor, o Ocean
O problema ético da manipulação política das mentes e corações está posto desde sempre (Foto: Arabnet)

Já corria adiantado o dia 9 de novembro de 2016 quando um, até então, pouco conhecido CEO de uma, até então, pouco conhecida empresa britânica de “mineração” e análise de dados para campanhas eleitorais contou vantagem em um comunicado dirigido à imprensa:

“Estamos contentes em afirmar que nossa técnica revolucionária de análise de dados desempenhou um papel essencial na incrível vitória do recém-eleito presidente Donald Trump”, disse Alexander James Ashburner Nix, o jovem manda-chuva da Cambridge Analytica.

Poucos meses antes, em agosto daquele ano, o então apenas candidato em plena campanha pelo Partido Republicano à Casa Branca escrevia em sua agitada conta no Twitter, no mesmo dia em que recebeu no palanque o político britânico Nigel Farage, um dos líderes da campanha bem-sucedida pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE): “Podem me chamar de Mr. Brexit”.

Voltando três meses mais no tempo, Trump declarava à imprensa, quando em visita à Escócia, em junho, que via “um paralelo real” entre sua campanha e o Brexit: “As pessoas querem recuperar seu país, querem a independência”. Naquela altura, os britânicos tinham acabado de decidir, em referendo, que o país deveria afinal deixar a UE, optando, em outras palavras, por mais protecionismo econômico e pelo fortalecimento das fronteiras. Em resumo: à moda Trump.

Uma outra maneira de dizer é que o Brexit foi também à moda Cambridge Analytica, cujos serviços de análise de Big Data, contratados pelo movimento Leave.EU ainda no início da campanha pelo “sim” (pelo “não” à Europa), teriam desempenhado papel igualmente essencial no resultado do referendo.

Se por um lado nunca foi comprovada a influência russa na vitória de Trump como no Brexit, por outro é pública e notória a influência da dobradinha entre psicometria e ciência da computação nos dois principais (e, pode-se dizer, inesperados, e com mais fortes desdobramentos) resultados que saíram das urnas de todo o mundo naquele ano de 2016, o que levou o site americano Vice a classificar essa dobradinha como “os dados que viraram o mundo de cabeça para baixo”.

‘A onda que me carrega, ela mesma é quem me traz’

Mas nem só de Big Data vive, ou vivia, Mr. Nix. A rigor, a rigor, a Cambridge Analytica vive antes é do Big Five, um modelo extraído das ciências comportamentais e que é de nada menos que de “medição”, podendo ser também para manipulação, do comportamento dos indivíduos, com base em cinco fatores da personalidade do ser humano.

São eles: “abertura” (o quanto o indivíduo é afeito a novas experiências); “consciência” (o nível de perfeccionismo do sujeito); “extroversão” (em que ponto o cara está entre uma criatura social ou antissocial); “amabilidade” (o quanto se é solidário e disposto a cooperar com outras pessoas); e, por fim, “neuroticismo” (o grau de estabilidade/instabilidade emocional do cabra).

Em inglês, as iniciais das cinco palavras que são os cinco fatores de análise do Big Five formam o acrônimo Ocean. Se o sambista já dizia que “não sou eu quem me navega”, quem ora navega as democracias ocidentais parece ser também o mar, ou melhor, o Ocean, cujos milagres de Iemanjá estão à venda para os pleiteantes a timoneiros das nações, com garantia de precisão de bússola das marés eleitorais, influenciando, assim, de posse dessas informações, e como vento, o sol e a lua, o próprio movimento das águas. “A onda que me carrega, ela mesma é quem me traz”.

A rigor, a rigor, nada muito diferente do que sempre se fez, ou sempre se buscou fazer – ainda que de maneira, digamos, analógica – em quaisquer campanhas de amealhamento da preferência das massas.

O problema, pelo menos o problema legal (o problema ético da manipulação política das mentes e corações está posto desde sempre), surge, mais que nunca, quando a metodologia do Big Five é aplicada para análise de dados de 50 milhões de usuários coletados de maneira ilícita, visando o uso dos resultados da psicometria na definição do resultado da última eleição presidencial na maior potência do planeta, como esse Opinião e Notícia repercutiu na última terça-feira.

O modelo Big Five existe desde os anos 1980, e foi desenvolvido com base em questionários respondidos por voluntários. Mark Zuckerberg nasceu no ano de 1984; em 2004, fundou o Facebook; em 2016, sua empresa, sua rede social, não tomou providências quando soube que dados de usuários foram usados da maneira que foram usados, nada voluntariamente, pela Cambridge Analytica. Em 2018, vendeu US$ 900 milhões em ações do Facebook antes do escândalo estourar e sua empresa perder US$ 37 bilhões em valor de mercado.

 

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