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Crise econômica

Crescimento do PIB do Brasil pela S&P

A agência não tinha muito o que fazer dada a nova trajetória de superávit primário, os elevados juros e o baixo crescimento econômico

Crescimento do PIB do Brasil pela S&P
As outras agências de classificação de risco devem rebaixar a nossa nota, mas ainda manteremos o grau de investimento, com a possibilidade de termos também perspectiva negativa (Foto: Wikimedia)

Escutei muita gente simpatizante do governo federal falar mal da revisão de estável para negativa da classificação de risco em moeda estrangeira de nossa divida pela Standard & Poor’s (S&P). A agência não tinha muito o que fazer dada a nova trajetória de superávit primário, os elevados juros e o baixo crescimento econômico. Tudo isso agravado ainda pela crise politica.

As outras agências de classificação de risco devem rebaixar a nossa nota, mas ainda manteremos o grau de investimento, com a possibilidade de termos também perspectiva negativa. Essa novela vai continuar até o final do governo Dilma.

Vale lembrar que, no caso da Moody’s, no ultimo relatório da agência do dia 5 de junho eles já alertavam que o Brasil passaria a Índia em 2016 e seria o país com maior endividamento (% do PIB) no grupo de emergentes e o único país no grupo de emergentes que desde 2010 teve uma sensível piora tanto na relação divida bruta/PIB como no pagamento de juros. Se já havia a perspectiva de rebaixamento em junho agora ela passou a ser uma certeza.

Mas apesar da perspectiva negativa da S&P para a nossa nota, muita gente não percebeu que a agência ainda trabalha com um cenário de recuperação da economia um pouco melhor que a do mercado.

– Projeções de crescimento do PIB Relatório da S&P de março de 2015 quando manteve a classificação de risco do Brasil com perspectiva estável.

2015: -1,0%

2016:  2,0%

2017:  2,3%

2018:  3,0%

– Projeções de crescimento do PIB Relatório da S&P de julho2015 quando a perspectiva de classificação de risco do Brasil passou de estável para negativa.

2015: -2,0%

2016:   0 %

2017: 1,5%

2018: 3,5%

Esse cenário de recuperação do crescimento da S&P é um pouco melhor que o da pesquisa FOCUS e mostra como a agência acredita na recuperação do Brasil, pelo menos por enquanto. As expectativas de crescimento do PIB pela última pesquisa FOCUS são as seguintes:

2015: -1,8%

2016:   0,2%

2017:   1,7%

2018:   2,0%

A diferença é pequena. Crescimento médio do PIB pela S&P do Brasil no segundo governo Dilma será de 0,7% ao ano e, pela pesquisa FOCUS, 0,5% ao ano. O problema é que a tesouraria dos grandes bancos no Brasil tem uma trajetória de crescimento médio do PIB que pode ser de “zero” a 0,2% de 2015 a 2018, e com dois anos consecutivos de queda do PIB (2015 e 2016).

Assim, com os dados de hoje, o crescimento médio do PIB do Brasil de 2015 a 2018 de 0,7% ao ano previsto pela S&P é o que temos de mais otimista. Por aqui, as projeções são ainda piores.

Qual é hoje a meta do governo para crescimento do PIB de 2015 a 2018? Bom, parece que “a meta está aberta mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta”. Ainda bem que não tem meta porque se não teríamos mais medidas mágicas de curto prazo.

Em tempo, jornais estão falando que o Congresso Nacional recebeu recado da S&P. Mas quem recebeu recado foi o governo. Há hoje no Brasil uma espécie de esperança coletiva que o Congresso Nacional faça um ajuste fiscal com forte apoio da oposição e do Executivo. Ou seja, as pessoas querem um parlamentarismo branco pró-reformas em um regime presidencialista.

Chegamos em um ponto que o “deixar sangrar” ou o “quanto pior melhor” é ruim para todo mundo. Congresso precisa ter uma postura muito mais positiva pró ajuste e pró reformas. Mas o exemplo tem que vir do governo a começar com uma agenda positiva que o governo simplesmente não consegue colocar no papel.

Por exemplo, a simples proposta de retirar a obrigatoriedade de a Petrobras ser operadora única do Pré sal, um projeto do senador Jose Serra (PSDB-SP) que interessa a Petrobras, é hostilizado pela “esquerda” e até pelo Ministro da Educação sem nenhum argumento técnico. Os que falam contra adoram o  termo “soberania”nacional” e aplaudem quando a Petrobras vende ativos ou quando a China sinaliza que pode nos “ajudar”. Falar que o projeto tira recursos da educação é de um desconhecimento tão grande quanto aqueles que acham que o fim da CPMF tirou recursos da saúde.

O governo e o seu partido tem que parar de procurar falsos fantasmas e achar que a “elite”, da qual faz parte boa parte daqueles que se auto intitulam de esquerda, tem uma agenda contra os pobres. Não há nada pior para os pobres e não pobres  do que um pais que deverá crescer 0,5% ao ano ou menos nos próximo anos e a decepção que as pessoas terão com promessa feitas há pouco mais de um ano que não serão cumpridas dada a falta de recursos orçamentários.

Em resumo, o Congresso precisa ser mais responsável. Mas para isso precisará da ajuda do governo. Não dá para cobrar responsabilidade do Congresso e atirar pedra nos deputados e senadores quando esses querem debater algumas temas, como a terceirização, que não conta com a simpatia do governo, ou quando qualquer tentativa de ajudar a Petrobras é interpretada como uma invasão de americanos gananciosos no Pré Sal.

*Mansueto Almeida é economista do Ipea e titular do Blog do Mansueto

Fontes:
Blog do Mansueto-Crescimento do PIB do Brasil pela S&P

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