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Crédito

Do ‘Heaven Card’ às 200 vezes no cartão

Vários fatores vêm levando a uma extraordinária expansão das fronteiras do cartão de crédito, às vezes até o limite do insólito

Do ‘Heaven Card’ às 200 vezes no cartão
Dinheiro não compra tudo; mas o cartão de crédito, talvez (Reprodução/Internet)

Vejam se vocês já repararam nesta contradição:

Por um lado, uma das reportagens mais comuns exibidas nos telejornais brasileiros é aquela onde um “consultor de finanças pessoais”, “especialista em economia doméstica” ou coisa que o valha esbanja desenvoltura diante das câmeras para orientar o distinto público com toda a profilaxia possível e imaginável contra o endividamento sem fim e a consequente ruína financeira individual.

Nessas reportagens, os especialistas — entre os quais notabilizou-se o Dr. Dinheiro, o mão fechada midiático do programa Fantástico, da Rede Globo — elegem sempre um grande vilão: o cartão de crédito. Eles chegam a dizer: “Vai ao shopping? Vá sem cartão”.

Por outro lado, nos intervalos comerciais que intercortam os blocos destes mesmos programas jornalísticos e generalistas das emissoras de TV nacionais abundam — e bota abundam nisso — os apelos estridentes ao parcelamento de tudo o que se possa comprar, contratar ou usufruir em várias, várias vezes sem juros.

Dízimo no débito automático

O dinheiro não compra tudo, por certo; mas o cartão de crédito, talvez. A redução dos custos de operação do cartão de crédito nos últimos anos, a multiplicação de pequenos comerciantes e prestadores de serviços que obtêm um CNPJ com alguns cliques ao se cadastrarem na Receita Federal como empreendedores individuais e a transformação de smartphones em verdadeiras máquinas de processamento de transações financeiras eletrônicas vêm levando a uma extraordinária expansão das fronteiras do cartão de crédito, às vezes até o limite do insólito.

O reverendo midiático R. R. Soares, por exemplo, criou o cartão de crédito da Igreja Internacional da Graça, apelidado pelas más línguas de “Heaven Card”, com o qual o fiéis podem, eles próprios, realizarem pequenos milagres como pagar contas “em até 40 dias, financiar no crédito rotativo e fazer saques de emergência no Brasil e exterior”.

A igreja de R. R. Soares também criou o pagamento do dízimo com débito automático em conta-corrente. Para tornar possível esta, digamos, “facilidade”, a Igreja Internacional da Graça fez parceria com o Itaú, Banco do Brasil e Bradesco. Ao anunciar a benção, Soares disse que quem aderisse à novidade ganharia “um brinde de Jesus” e o nome do fiel que não tivesse dinheiro em conta no dia do débito não seria incluído no SPC ou no Serasa.

Quase 18 milhões de cartões emitidos só em 2011

Noves fora os casos extremos, onde as máquinas da Cielo (céu, em espanhol e italiano) viram verdadeiros trocadilhos eletrônicos, hoje em dia os cartões de crédito são aceitos em consultórios médicos, táxis, feiras de rua, camelôs, engraxates e até ambulantes que vendem produtos na praia. As operadoras oferecem vantagens — ou pelo menos fazem tantas promessas — que seduziram até comunidades indígenas do sul da Bahia que vendem artesanato.

Só em 2011 foram emitidos 17,9 milhões de cartões de créditos de diversas bandeiras no Brasil, onde atualmente há 173,2 milhões de cartões em circulação. Tudo indica que em breve haverá mais cartões do que gente no país.

Muito em breve. Uma nova operadora de cartões que acaba de desembarcar no mercado brasileiro promete “revolucionar” o mundo das maquininhas de crédito com possibilidade de financiamentos em até 200 parcelas, emissão de 600 mil cartões até agosto deste ano e de 2 milhões até o final de 2013. Haja crédito. Haverá dinheiro para pagar?

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2 Opiniões

  1. André Luiz D. Queiroz disse:

    Está mais do que na hora de introduzir “Matemática Financeira” como matéria obrigatória do currículo de ensino fundamental. Esta disciplina não necessita de prévio conhecimento avançado de matemática (bastam os fundamentos das quatro operações e percentagem), e auxiliaria muitíssimo todos em terem disciplina financeira. As pessoas mais simplórias (e muitas vezes até aqueles mais cultos) são levados por bancos e financeiras a utilizar linhas de crédito das quais elas não precisam, ou que não são as mais adequadas a suas necessidades. Resultado: caem em dívidas desnecessariamente! Tudo pela ilusão de que pagando em sei lá quantas vezes o bem de consumo (supérfluo…) que querem adquirir sai mais barato…!
    Isso é um ardil, que só interessa à ‘agiotagem institucionalizada’ que temos. Por isso, costumo dizer que “Banqueiro bom é banqueiro morto!”

  2. julia maria santos da silva disse:

    não é uma mal notícia ter um cartão de credito parcelado em 200 vezes isso vai ajudar muita gente á comprar o que quiser mas por outro lado demora muitos anos para liquidar a conta do cartão obrigada

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