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'O PARAÍSO SÃO OS OUTROS'

Escandinávia ‘de boas’ no ranking mundial da felicidade

Por que a Escandinávia é considerada uma das regiões mais felizes do mundo e qual o motivo da fascinação com o bem-estar alheio?

Escandinávia ‘de boas’ no ranking mundial da felicidade
O paraíso são os outros, sem dúvida, mas ele pode ser longínquo, quase inacessível (Foto: Pixabay)

“Descubro cada vez mais que o paraíso são os outros. Vi num livro para adultos. Li só isso: o paraíso são os outros. A nossa felicidade depende de alguém. Eu compreendo bem”.

Esse é um trecho de um livro cujo título é precisamente um pedacinho desse trecho: “O Paraíso São os Outros”, de Valter Hugo Mãe, o celebrado escritor português sobre o qual José Saramago chegou a dizer que, ao lê-lo, teve a impressão de que assistia a um segundo parto da língua portuguesa. Pois foi sob o mote de uma famosa frase de Jean Paul Sartre, “o inferno são os outros”, e virando-a pelo avesso, que Valter Hugo Mãe pariu esse pequenino livro em que a narradora, apenas uma menina, discorre com toda inocência que houver nessa vida sobre os casais, a solidão, as formas mais modernas de viver o amor, enfim, sobre esse traço da natureza humana que é depender dos outros para ser feliz.

Outro traço, um tanto estranho, da mesma natureza humana parece ser a insistência em projetar a felicidade, esta abstração, em povos de terras distantes. O paraíso são os outros, sem dúvida, mas ele pode ser longínquo, quase inacessível; podem, os outros, morar longe, por assim dizer, a depender da latitude e da longitude de onde se lamenta não ter havido melhor sorte de nascença, e de onde se alimenta a fascinação com o bem-estar alheio.

Esta fascinação tem sido fartamente alimentada especialmente desde 2012, ano em que a Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU (SDSN, na sigla em inglês) divulgou pela primeira vez o seu Relatório Mundial da Felicidade, uma espécie de ranking dos povos mais felizes do planeta segundo a análise de uma série de variáveis inevitavelmente arbitrárias, do PIB per capta à percepção da corrupção, passando por, não menos importante, características psicológicas atribuídas a determinados povos, nomeadamente os povos escandinavos, que ocupam cinco, e as três primeiras, das dez mais altas posições da mais recente edição do ranking.

Antes de ter a ver, a alegria solta na Escandinávia, com o fato de que lá se mantém os mais bem conservados resquícios do que um dia foi chamado de Estado de Bem-Estar Social europeu; antes de um sistema de proteção social que ainda logra poupar, no geral, os habitantes daquelas bandas boreais do globo dos desesperos materiais dessa vida; antes disso tudo, “o que funciona bem nos países nórdicos é o senso de comunidade e a visão do que promove o bem comum”, como afirmou recentemente à Associated Press o chamado “homem mais feliz do mundo”, Meik Wiking. Ele é executivo-chefe do Instituto de Pesquisas sobre Felicidade, de Copenhague, na Dinamarca, país que encabeçou o ranking mundial da felicidade nos primeiros anos de realização do estudo, mas que acaba de perder o primeiro posto, no ranking de 2017, para a Noruega.

“Bom para a Noruega — disse Wiking — Acho que a Dinamarca não possui o monopólio sobre a felicidade”. Ruim para o mercado editorial global, que diante da supremacia danish em matéria de ser feliz apostou muito recentemente na edição de brochuras que tentam explicar — e ensinar — o segredinho do sorrisão dinamarquês. São livros como, literalmente, “O Segredo da Dinamarca” (LeYa, 2016), cujo subtítulo é “Descubra como vivem as pessoas mais felizes do mundo” (não mais); ou ainda “Crianças Dinamarquesas” (Fontanar, 2017), sobre a maneira de criar os filhos daquele que é considerado “o povo mais feliz do mundo por todas as edições do Relatório Mundial da Felicidade” (tampouco).

As editoras terão que lidar agora com uma lei típica da sociedade do espetáculo,  segundo a qual aos segundos colocados, como o segundo país mais feliz do mundo, está reservada a má sorte dos vice-campeões dos torneios de futebol: ninguém se lembra deles. A rigor, todos que até agora se debruçaram sobre o hygge, termo que designa a atitude dos dinamarqueses perante a vida, seu estado de espírito permanente de quem toma vinho em família e faz carinho no cachorro à beira da lareira (algo que no Brasil, com bom humor, poderia ser traduzido como “deboísmo”, a nova filosofia “de boas” da internet), terão agora, antes de tudo, que ressaltar que esta palavra dinamarquesa tem origem em um palavra norueguesa, sim senhor, que significa “bem-estar”.

Pelo menos até sair o ranking mundial da felicidade do ano que vem, quando Noruega e Dinamarca poderão muito bem serem ultrapassadas pela Islândia, outro país escandinavo, hoje terceiro colocado no ranking, e onde é ambientado o romance “A Desumanização”, também de Valter Hugo Mãe, e de cujas páginas, de uma passagem do livro que ele próprio escreveu, o português tirou a ideia para tirar “O Paraíso São os Outros” da cartola. “A desumanização” conta a história de uma outra menina, também apenas uma menina, Halla, que perde sua irmã gêmea, Sigridur, e se afunda na solidão, a fim de fugir ao inferno de ver refletida nos olhos dos outros a culpa de ser a parte da irmã que sobreviveu. Seu pai lhe censura: “O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti”.

Na contramão dos manuais de felicidade escandinava, o jornalista britânico Michael Booth acaba de publicar o livro The Almost Nearly Perfect People  (“Gente Quase Perfeita”, em tradução livre), ainda inédito no Brasil. Pois, no livro, Booth sustenta que por sob os tapetes da felicidade “doriana” na Noruega existe um isolacionismo que beira o ultranacionalismo. Sobre o segredo dinamarquês para ser feliz, sobre o vinhozinho com a família e o cão, “de boas”, à beira da lareira — sobre o hygge, afinal — ele diz que na verdade não passa da busca por uma “satisfação autocomplacente, cômoda e pequeno burguesa”, que no limite pode transbordar para a xenofobia. Se a vida está muito longe de ser podre no reino da Dinamarca, sequer tudo são flores, como se vê. Afinal, o agora número dois entre as estirpes mais felizes sobre a Terra é também o país do príncipe mais atormentado da história da literatura mundial e, claro, de sua noiva, a infeliz Ofélia.

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