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ESPANHA

Além da Catalunha, quem mais quer escapar da ‘prisão’?

Há poucos sinais de que o separatismo se espalhe como um rastilho de pólvora entre paióis, mas na Espanha a pólvora não é mera figura de linguagem

Além da Catalunha, quem mais quer escapar da ‘prisão’?
Catalães votaram referendo sobre independência no dia 1 de outubro (Foto: Flickr/Day Donaldson)

Na véspera daquela que talvez seja a mais controversa consulta popular do planeta neste ano que já se encaminha para o fim, milhares de pessoas uniram-se em marcha pelas ruas de Santiago de Compostela, noroeste da Espanha, em apoio ao que aconteceria no seguinte no outro lado do país, e que ficou conhecido como “1-O”, em alusão ao primeiro dia desse outubro que põe a terra de Cervantes em ebulição, a despeito da vizinhança do inverno europeu, e que, ao contrário de 2017, parece longe de chegar ao fim: o referendo sobre a independência unilateral da Catalunha.

À frente da grande marcha estava uma grande bandera amarela e vermelha catalã, flamulando lado a lado com outra, a estreleira, bandeira nacionalista da Galícia, da qual Santiago é a capital, mas não como Belo Horizonte é a capital das Minas Gerais ou Fortaleza é a do Ceará. Duas notórias integrantes do Bloco Nacionalista Galego (BNG, um partido político da Galícia), a deputada Noa Presas e a porta-voz nacional da legenda, Ana Pontón, seguravam, uma em cada ponta, uma faixa com os dizeres: “Galícia, Catalunha, Independência”. O símbolo do BNG é uma versão estilizada da estreleira, que é utilizada apenas pelos nacionalistas de esquerda, com sua estrela vermelha de inspiração socialista sobreposta ao azul e branco da ponta setentrional da Península Ibérica.

A Galícia é uma das três “nacionalidades históricas” da Espanha reconhecidas pela constituição pós-Franco, de 1978, junto com o País Basco e a Catalunha. São regiões com especificidades culturais e linguísticas, regiões autônomas, mas submetidas à palavra final, por assim dizer, do Estado espanhol.

Dentre as três, a Galícia é a que historicamente menos é dada a impulsos independentistas mais concretos, por pouca vontade popular e pela lacuna de uma força política organizada que faça essa vontade aumentar. Não obstante, nenhum espanhol hoje duvida que tão aceso quanto o sol de La Mancha é o cenário propício para que a centelha separatista se espalhe pelo reino de Espanha a partir do paiól da Catalunha, ou pelo menos que haja mais gente sentido-se à vontade para riscar o fósforo.

O ‘nascer’ do País Basco 

No mesmo dia da marcha em Santiago de Compostela, a 570 quilômetros de distância de uma outra grande manifestação de apoio ao separatismo catalão tomou conta das ruas de Bilbao, capital do País Basco, mas não como Campo Grande é a capital do Mato Grosso do Sul ou Macapá é a do Amapá. Um dos líderes do ato, Arnaldo Otegi, porta-voz do partido nacionalista de esquerda basco de sugestivo nome Sortu (“nascer”), saudou as pessoas que no dia seguinte iriam às urnas para votar “pela proclamação da república catalã”, e conclamou seus compatriotas (os bascos, que fique entendido) para se colocarem no “seu próprio caminho para recuperar a soberania”.

Na Espanha, porém, em se tratando de ímpetos independentistas, o rastilho de pólvora entre paióis é muito mais do que mera figura de linguagem. A luta de “libertação nacional” do Euskadi Ta Askatasuna, ou Pátria Basca e Liberdade, vulgo ETA, deixou um saldo cruento de cerca de 900 mortos e 16 mil feridos desde o dia 7 de junho de 1968, quando o grupo fez sua primeira vítima, o policial galego José Pardines, até o dia 30 de julho de 2009, quando fez sua última, o policial francês Jean-Serge Nèrin.

Foi só há poucos meses, porém, em abril desse ano, que o ETA, no qual Arnaldo Otegi militou, resolveu entregar às autoridades de Madri as toneladas de armas e explosivos que ainda tinha em seu poder, quando a organização anunciou que renunciaria à luta armada pela independência do País Basco da Espanha.

Mesmo integrado, ainda há pouco, às instituições democráticas, o ETA ainda é capaz de produzir calafrios, fazer tremer os calcanhares e enrijecer a musculatura do trapézio das autoridades espanholas quando divulga um comunicado, após as cenas de violenta repressão por parte da polícia enviada por Madri aos locais de votação do referendo na Catalunha, dizendo que, “depois de quatro décadas, o regime de 1978 mostra suas verdadeiras intenções: imposição, dependência e opressão”. E dizendo mais, pura pólvora: “o Estado espanhol é uma prisão”.

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1 Opinião

  1. jan disse:

    Fosse o rei da Espanha sábio, tomaria a liderança do movimento separatista, apoiando a criação de uma nova nação em que seria também o chefe de estado. Assim são, por exemplo, o Canadá e a Austrália, até hoje estados sob a chefia da Rainha da Inglaterra.

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