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Flores e liberdade: Revolução dos Cravos completa 41 anos

Portugal deve sua democracia a militares golpistas que há 38 anos destituíram um governo civil tirânico sem dispararem uma bala sequer

Flores e liberdade: Revolução dos Cravos completa 41 anos
Cartaz de comemoração do 25 de abril

“Tu vieste em flor, eu te desfolhei. Tu te deste em amor, eu nada te dei. Em teu corpo, amor, eu adormeci. Morri nele. E ao morrer, renasci.” Assim diz a canção “E depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho. A música ressoou por toda Lisboa precisamente às 22h45m do dia 24 de abril de 1974, transmitida pelos Emissores Associados da capital lusitana. Era o primeiro chamado para a revolução, como havia sido previamente combinado por oficiais da hierarquia intermediária do exército português.

Poucas horas depois, às 0h20m do dia 25, foram os versos de “Grândola Vila Morena” que ecoaram pela madrugada lisboeta. Era o sinal que faltava. “Em cada esquina, um amigo. Em cada rosto, igualdade.” Quando a voz de Zeca Afonso foi ouvida do Terreiro do Paço à Mouraria cantando a letra banida pelo regime salazarista, soube-se com alegria que em Portugal a censura e a repressão não tinham mais vez.

Assim, com trilha sonora e tudo, o Movimento das Forças Armadas (MFA) desencadeou o levante que pôs fim a uma ditadura que vigorava desde 1926, num só dia e sem disparar um tiro sequer. Era o fim do fascismo português, que já estava carcomido pela tresloucada perpetuação da aventura colonial na África. Portugal se viu livre do salazarismo quatro anos após a morte do próprio Salazar, e seis depois do seu afastamento da presidência do Conselho de Ministros por motivos de saúde.

Na manhã seguinte àquela madrugada de música e de democracia — democracia que vinha à luz pelo inusitado caminho de um golpe militar –, a população saiu às ruas e distribuiu cravos vermelhos aos soldados, em forma de agradecimento e solidariedade. Reza a lenda que os cravos apareceram pelas mãos de uma florista que levava ramalhetes para a inauguração de um hotel, mas são muitas as histórias que se contam em Lisboa a respeito daquele 25 de abril.

Fato mesmo é que os soldados, um após o outro, começaram a colocar as flores nos canos dos seus fuzis, batizando sem saber, com letras maiúsculas, uma revolução que ainda hoje é celebrada em Portugal como se tivesse sido feita ontem. Quando visitou Lisboa durante o período revolucionário, Gabriel García Márquez reportou a alegria do povo para a revista colombiana Alternativa: “É um país que nunca dorme. Às quatro da madrugada, numa quinta-feira qualquer, não havia um só táxi desocupado”. No 1° de maio daquele ano, um milhão de pessoas marcharam pelas ruas da capital para celebrar o Dia do Trabalho.

O processo revolucionário colocou em prática um programa para reerguer a economia, a política e a sociedade portuguesas do limbo no qual se encontravam em razão das dispendiosas e traumáticas guerras coloniais. Todas as ações eram baseadas no três Ds revolucionários: democratizar, descolonizar e desenvolver. Sindicatos e partidos foram legalizados, portugueses voltaram do exílio e se abriu as portas da prisão de Peniche, onde o regime fascista trancafiava seus presos políticos.

No dia 25 de abril de 1975 foram realizadas as primeiras eleições livres, para a Assembleia Constituinte. Venceu o Partido Socialista, para alívio dos que morriam de medo de que a Revolução dos Cravos terminasse em uma Cuba incrustada na Península Ibérica, e não no modelo europeu de democracia parlamentar, como afinal aconteceu. No início, o Partido Comunista Português havia sido o único e incondicional aliado do MFA. Com os ânimos acirrados desde o 25 de abril, até hoje o PS e o PCP se digladiam na tribuna do palácio de São Bento, sede do Parlamento português.

E o Brasil com tudo isso? O sucessor de Salazar, Marcello Caetano, exilou-se por aqui depois de ser deposto pela revolução. Foi morar em Copacabana e acabou como diretor do Instituto de Direito Comparado da Universidade Gama Filho. Morreu em 1980 vitimado por um prosaico ataque cardíaco. Mas isto é para os registros biográficos dos ditadores do século XX.

Paulo Francis disse certa vez que a maior contribuição da Revolução dos Cravos para o nosso país havia sido a chegada ao Rio de Janeiro do restaurante Antiquarius, em 1977. Após o fim do salazarismo, o ex-governador do Rio Carlos Lacerda teria convidado os sócios de uma pousada da região do Alentejo a se mudarem para o Brasil, onde não teriam problemas com revolucionários quaisquer e poderiam abrir um restaurante português de alto nível.

Francis certamente exagerou, com muita ironia e bom humor, como era seu hábito. A Revolução dos Cravos ajudou a deitar por terra um muro erguido pelo autoritarismo que separou dois povos irmãos. Foram décadas de ignorância recíproca. O caminho aberto pelo 25 de Abril para o intercâmbio cultural, político e econômico entre brasileiros e portugueses só foi pavimentado mesmo mais recentemente, quando da redemocratização do Brasil, mas foram os Cravos que aplainaram o terreno para a compreensão mútua.

Os estragos causados pela censura e demais cerceamentos autoritários nas relações bilaterais ainda não foram totalmente sanados, o que se reflete no absoluto descaso com que nossa mídia e elites políticas em geral tratam aquela pátria tão distante, mas tão próxima de nós por razões mais do que óbvias. Você sabe o nome do presidente de Portugal? Já viu a foto do primeiro-ministro português?

Um passo importante no sentido de estreitar os laços foi o acordo assinado há poucos anos entre o ministério brasileiro da Justiça e a Universidade de Coimbra para a troca de informações sobre as ditaduras de lá e de cá. Mas ainda é pouco.

Quando a Revolução dos Cravos estourou, com suas músicas-código rasgando a noite de Lisboa e seus fuzis feitos de vasos de jardim, Chico Buarque escreveu uma canção chamada “Tanto Mar”, que na letra original dizia o seguinte:

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Chico encarnava em seus versos a melancolia de um Brasil que acabava de ver o general Ernesto Geisel ser empossado como o quarto presidente do regime militar, mas também saudava e parabenizava os felizardos do outro lado do Atlântico, que num certo 25 de abril amanheceram entre flores e liberdade.

15 Opiniões

  1. Lucia Wommer disse:

    Tinha na época 15 anos, fui criada por um senhor portugues, tempos depois da revolução ganhei um disco de musicas revolucionárias entre elas grandula vila morena, lembro que ouvia sem parar este disco, gostaria muito saber o nome, era um disco com capa branca e um grande cravo vermelho, anos depois conheci portugal, sou completamente apaixonada por portugal e tudo o que se refere a ele, tenho muita saudades de lá, e em minha opinião portugal só ganhou com a revolução, apesar que as pessoas mais contemporaneas eram a favor de Antonio de oliveira salazar, onde diam que ele estava na terra, no mar e na terra.

  2. Nivaldo Capoia disse:

    Pelo menos lá em Portugal, na época, tinha militares comprometidos com a verdadeira democracia e com a verdade. Por isso eles tiraram aquele país das mãos de um governo tirano.
    E aqui? Quem nos “libertou” foi um grupo de políticos aloprados que só queriam a CHAVE DO COFRE para meterem a mão na grana.
    Quanto À democracia, a cada dia perdemos o pouco que temos.
    E a cada dia os malandros metem mais mão no sangue e suor de quem trabalha e produz.
    Portugal, apesar da crise européia, etc. ainda vive tranquilo. Tenho amigos por lá e nos comunicamos semanalmente.
    Agora quanto ao Brasil, se não abrirmos os olhos e partirmos para a ação concreta contra esse governo corrupto, vamos passar por sustos e desespero em breve.

  3. fervas disse:

    Tanta poesia, tanto romantismo!!!
    – A realidade é bem diferente.
    – Os oficiais milicianos que provocaram o golpe militar queriam somente ter as mesmas regalias que os oficiais de carreira, tanto em serviços como em donativos, nas campanhas africanas.
    – O partido comunista, aproveitou-se e ampliou, dando origem á farra dos bens públicos que o “infeliz” sovina ditador armazenou ao longo de 40 anos.
    – Infeliz porque ele era um pau mandado nas mãos da poderosa igreja católica, controlada pelo asqueroso cardeal cerejeira, dono de uma fortuna incalculável.
    – Só para lembrar, o governo teve que pagar o sepultamento do Salazar porque ele não deixou um vintém; já o execrável cardeal deixou uma das maiores fortunas do País.
    – Execrável porque num famoso discurso ele proferiu que o povo português para ser humilde tinha que passar fome.

  4. Luciano Pinheiro disse:

    eM 1975 eu militava no PCB, era um infante nas hordas do partido. Tinha 24 anos e via um país se calar diante das baionetas do regime militar. Fui preso, respondi processos. Hoje, talvez não fizesse isso novamente quiando vejo nossa “esquerda” destruir todos os meus sonhos de uma república mais democrática e menos corrupta. Entristeço de ver pessoas do meu tempo, hoje figurões no poder fazendo pior do que antes se fazia. A revolução portuguesa me encheu de alegria e a cançao do chico ainda hoje a canto. Não sei o nome do 1º ministro de Portugal. Lembro do Soares, socialista, risonho, inteligente, que nos visitou algumas vezes. Lembro que vi pela TV a alegria de um povo que realizou na prática o que Mahatma Gandi fez na Índia. Vi com desgosto Marcelo Caetanoe ser recebido com honras em meu país assim como alguns nazistas que aqui aportaram e vioveram até o final de seus dias sem serem importunados. Foi bonita a festa pa.

  5. Jeane Lima Caldas disse:

    E fico muito feliz pelas conquista de nossos irmaos portugueses,no entanto me entristeco,com nossa realideda atual de Democracia e Liberdade,pois parece retroceder com tanta corupcao para uma Ditadura de FRAUDES.

  6. helio disse:

    A queda da ditadura, lá e cá, é sempre uma grande festa. Imensa conquista que os governos seguintes devem nunca esquecer e sempre honrar.

  7. WILLIAM GURZONI disse:

    Nada como um brasileiro como Chico Buarque , para coroar os Cravos Portugueses de Fe , Esperança e Gratidao.

    como sempre o Brasil e so alegria e poesia .

  8. Paulo Galdino Coelho disse:

    Embora passados alguns dias, gostaria de manifestar minha opinião sobre o texto e principalmente sobre a revolução dos cravos.

    Considero o texto maravilhoso e oportuno, ressaltar feitos dessa natureza e da forma como aconteceu enobrece pessoas e resgatam a qualidade maior que é a busca da PAZ através da própria PAZ.

    Movimentos dessa natureza encantaram e encantam nossos dias. Lembrar que tudo podemos sem que para isso tenhamos que nos ferir o corpo, mas temos sim que mostrar nossa alma. E é a alma que encanta e faz diferença. As flores talvez sejam a expressão exata dessa felicidade eterna que o povo portugues comemora a cada 25 de abril.
    Parabéns a todos e a nós inclusive.

  9. Sheila Moreira disse:

    Quisera que o espirito de união e patriotismo fosse também nos dias de hoje. Bem como o sentido humanitário e de respeito ao próximo…Pois hoje se vive um Portugal preconceituoso e generalista de pessoas que não se respeitam e nem tampouco aos imigrantes que residem no país seja para estudar ou trabalhar. Sabemos que a imigração brasileira neste país não teve um inicio dos melhores, mas será que assim como o regime do Estado foi atualizado, a cabeça das pessoas poderiam atualizar no tocante a imigração, pois há imigrantes brasileiros que vão para Portugal para estudar ou trabalhar o mais diguinamente possível.
    O sentido de “irmãos” entre Brasil e Portugal deve deixar de ser puramente políticagem para ser praticado.

    Sheila Moreira
    Mestranda do curso de Gestão de Empresas
    Universidade de Évora

  10. Madalena Chiese disse:

    Viva o povo português. Nossos irmãos de história e de idioma. Parabéns ao site pela iniciativa de marcar o 35 aniversario da revolução dos cravos.

  11. Márcio Penedo disse:

    O senhor Benedito deve ser um dos velhos reacionários que perambulam por Portugal repetindo em cada esquina sobre tudo o que vêem e ouvem “não era assim nos tempos de Salazar”. Talvez seja leitor da folha, e entusiasta de neologismos como “ditabranda”.

  12. Lídia disse:

    Lindo! Lindo! Lindo! Ah …quem nos dera… todas as revoluções fossem assim movidas pela consciência dos homens despertada por anseios de liberdade e respeito por cada um individualmente e como armas música e flores, e ainda, depois de tudo inspirar música e considerações tão intensas, tão inspiradoras. A muito não leio algo tão apaixonante. Parabéns Hugo!! Parabéns povo Lusitano!! Parabéns Chico!! Lindo, pá

  13. Sandra Lopes disse:

    Maravilhoso texto!!!Eu e minha familia chegamos a sentir na pele tudo o que veio a ocorrer depois dessa data, porém, foi com certeza absoluta o melhor para Portugal.
    Lembro-me bem da música Grândola Vila Morena.Eu estava em Moçambique,ainda criança e já cantava a música,mas bem baixinho, a pedido dos meus pais, pois o clima por lá já estava bem pesado e cantá-la, soava como afronta para os homens da FRELIMO.
    Obrigada.

  14. Benedito Lacerda disse:

    Salazar foi um grande governante. Portugal deve tudo a ele e seu regima. Abaixo essa revolução!

  15. Roque S. de Souza disse:

    Fez bem esta matéria sobre a Revolução dos Cravos. Foi ontem e já estamos tão distante do belo acontecimento revolucionáro realizado pelo povo português. Saudações Revolucionárias

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