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Academia Brasileira de Música

Homenagem a Luiz Paulo Horta

O musicólogo Manoel Correa do Lago homenageou o crítico recentemente falecido com discurso na Academia Brasileira de Música. Leia a íntegra do discurso

Homenagem a Luiz Paulo Horta
O jornalista e acadêmico Luiz Paulo Horta morreu no último dia 3 de agosto, aos 69 anos (Reprodução/OGlobo)

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As homenagens que foram e continuam a ser prestadas ao Luiz Paulo têm destacado as suas várias facetas, e sua presença fecunda em cada uma das áreas em que atuou: seja como  jornalista – ao mesmo tempo editorialista, crítico musical e cronista -, seja  como pensador religioso – autor de textos consagrados, e recentemente empenhado em dar novo impulso ao Centro Dom Vital -, seja a do membro ilustre da Academia Brasileira de Letras. É portanto natural e oportuno, nesta sessão na Academia Brasileira de Musica, – academia na qual ele ocupava desde 1989 a Cadeira 21, sucedendo ao grande compositor Claudio Santoro – , que esta fosse principalmente dedicada à sua atuação e presença tão marcantes, no cenário da Música no Brasil.

Para descrever o lugar central que a música ocupava em sua vida, nada melhor do que ouvir as palavras que pronunciou por ocasião de sua posse na Academia Brasileira de Letras:

“Nasci músico, tenho vivido na música, na música pretendo morrer. Que mistério é esse que nos envolve e nos abre as portas da transcendência? Beethoven disse uma vez que a música é uma revelação mais alta do que toda a filosofia. Podeis concordar ou não com esta frase; mas é fato que a magia da música rompe as fronteiras mais recônditas, talvez porque ela seja mesmo um idioma universal”.

 

Obra

Os textos musicais de Luiz Paulo Horta estão reunidos em três coletâneas de artigos na imprensa , publicados entre 1977 e 2012 no Jornal do Brasil e no Globo,  com os títulos de Cadernos de Música, Música das Esferas e À procura de um cânone; dois livros de iniciação musical com os títulos Guia para uma discoteca básica (1997) e Sete noites com os clássicos: para entender os estilos musicais da Renascença ao Modernismo; e um livro escrito para o centenário de Villa-Lobos em 1987, o qual se tornou  um verdadeiro clássico, intitulado Villa-Lobos – uma introdução. Luiz Paulo Horta deu também uma colaboração importante em obras coletivas, tais como o “Dicionário Zahar de música” (1985), o “Guia do ouvinte de música clássica” (1988), e a edição brasileira do “Dicionário Grove de música” (1994). Em todos esses textos, ricos em informações e insights mas que nunca adotam um tom acadêmico, Luiz Paulo exerce o seu dom singular de “dar a entender”, tornando inteligíveis temas que costumam intimidar um público que hesita em abordá-los, por presumir de antemão uma inaccessível complexidade. Penso ser essa uma característica que  sua crítica musical compartilha com suas crônicas abordando  os outros temas  que também o apaixonavam, — ligados à religião, filosofia, literatura, política –, e que ele sabia, como ninguém, fazer dialogar entre si.

Em seu prefácio à coletânea À procura de um cânone, Ivan Junqueira situa Luiz Paulo Horta na “longa e nobre tradição no Brasil, do gênero literário da crônica”, a qual faz remontar a Machado de Assis e José de Alencar, inscrevendo-o  numa linhagem ilustrada por nomes como Rubem Braga, Manuel Bandeira, Drummond, Otto Lara Rezende e Ledo Ivo. Ainda citando Ivan Junqueira: “a crônica se tornou em nossa imprensa, uma alta manifestação do discurso literário, mas sem perder sua fundamentação e compromisso eminentemente jornalístico […] Sua pena obedece às exigências de brevidade, humor, coloquialismo e aquele tom de conversa ou (desconversa) que, refinada, culta e às vezes alusiva, foi sempre uma arte nos textos do Machado de Assis”.

Nos seus dois livros de iniciação musical, nos quais naturalmente adota um tom distinto das crônicas, encontra-se a mesma capacidade da expressão simples sem perda de conteúdo. Um exemplo é essa introdução às suas Sete noites com os clássicos, que leio a seguir:

“Os estilos musicais são com seres vivos: em determinado momento começam a existir, a partir de algumas sementes. Crescem, atingem o apogeu, e depois são substituídos por outros, quando a sua seiva começa a enfraquecer. Entender esses estilos ajuda bastante a conhecer e a amar os grandes compositores e sua música […] Neste livro, propomos uma viagem por sete grandes estilos da música clássica, começando com a Renascença e terminando no Modernismo”.

Já no seu livro sobre Villa-Lobos, escrito em outro registro, permanecem as características que tornam seu estilo inconfundível, e que pode ser exemplificado pelos próprios títulos de cada capítulo, cuja sequência constitui por si só um sugestivo roteiro — e quase uma interpretação – da trajetória do compositor; são: “Prelúdio”, “No compasso do choro”, “Correrias pelo Brasil”, “Villa-Lobos e a Crítica”, “Semana de Arte Moderna”, “O índio de casaca”, “Um grande sopro passou”, “Entradas e Bandeiras”, “A hora das Bachianas” e “Villa-Lobos no outono”.

 

Uma visão ampla da música

Luiz Paulo Horta tinha, da música, uma visão extremamente abrangente, enquanto fenômeno universal não circunscrito a uma época ou a uma área cultural privilegiada, e tampouco prerrogativa de iniciados, sendo bem conhecida sua “quase-campanha” contra o uso do adjetivo “erudito”  aplicado ao repertório clássico da música de concerto. Entretanto, longe dele uma atitude de relativismo que, ao aceitar tudo, resultasse em nivelamentos por baixo, ou na ausência de uma hierarquia de valores: é particularmente significativo, a essa respeito, o título À procura de um cânone dado à sua última coletânea . Essa visão abrangente, Luiz Paulo a devia em parte a seus três grandes mestres na música, – Salomé Gandelman, Homero de Magalhães, e Esther Scliar -, cada qual tendo-o marcado de maneira distinta. Gostaria, por um momento, evocar a figura notável, e tão cedo desaparecida de Esther Scliar, que contava Luiz Paulo entre seus alunos preferidos: compositora refinada e de grande talento — dividida entre as tendências que pontuaram a “vanguarda” dos anos 50 e 60, e  suas convicções ideológicas –, e uma extraordinária pedagoga, capaz de analisar em suas aulas  tanto um moteto isorítmico de Guillaume de Machaut  quanto um “canto de cego” do Nordeste, ou ainda a Suíte Lírica de Alban Berg ou o Canto Sospeso de seu condiscípulo Luigi Nono.

O período histórico no qual se formaram a visão e sensibilidade musicais de Luiz Paulo, — o século XX  da “Era da Reprodutibilidade” –, se caracterizou por revelar, e tornar accessível,  um vasto  “museu imaginário” (parafraseando André Malraux) sonoro,  que alargou de uma forma sem precedentes os horizontes da experiência musical, muito além da que era proporcionada pelo corpus musical europeu herdados dos séculos XVIII e XIX: do ponto de vista temporal, fazendo a história da música ocidental recuperar muitos séculos antes de Bach, trazendo à tona os repertórios do canto gregoriano, da polifonia medieval contemporânea das catedrais góticas, da música  sacra e profana da Renascença, das primeiras óperas “inventadas” no século XVII, e assim tirando do esquecimento nomes e obras hoje absolutamente indispensáveis, como (para mencionar apenas alguns): Guillaume de Machaut, Josquin des Prés, Orlando di Lasso, Palestrina, Gesualdo e Monteverdi. Por outro lado, esse “museu imaginário” foi também estendido “territorialmente”, para além do espaço europeu: tornaram-se disponíveis gravações e documentos das tradições musicais do Oriente (bastando mencionar as da Índia, Bali, as músicas de côrte do Japão e da China) revelando novas sonoridades, a riqueza de suas heterofonias, e uma outra noção e  percepção do tempo; as músicas camponesas da Europa central (tão amorosamente estudadas por Bartok, Kodaly e Brailöiu) não subordinadas à quadratura rítmica que prevaleceu na música europeia a partir do Renascimento; a “explosão” da música popular urbana em diversos continentes, partindo de tradições musicais não-europeias, – das quais o Jazz é o exemplo mais conspícuo – revalorizando aptidões musicais ligadas à oralidade e à improvisação; as músicas ditas “primitivas”, — desde os esquimós aos índios do Brasil, e notadamente as africanas –, que vêm sendo repertoriadas há mais de um século; todas essas novas experiências sonoras vieram contrariar e alterar enraizados hábitos de escuta, e influenciaram profundamente a criação musical da 2ª metade do século XX, bastando pensar nos nomes de Boulez, Stockhausen,Cage ou ainda Messiaen, Jocy de Oliveira e Philip Glass.

É no contexto desse amplo e novo universo sonoro, — do qual se alimentaram as vanguardas e o experimentalismo que floresceram, e muitas vezes se digladiaram, no pós–Guerra –, que se moveu a crítica musical exercida por Luiz Paulo durante mais de trinta anos e inspirou iniciativas, — notadamente no período  em  que dirigiu a programação musical do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro –, tais como a vinda de Stockhausen  ao Brasil ,com a realização (juntamente com Nenem Krieger e Jocy de Oliveira) de um ciclo memorável de concertos e conferências do compositor que ficaram documentados.

 

Raízes no Brasil

Sem pretender traçar uma genealogia, que ele não ostentava, é também relevante notar que  Luiz Paulo  descende de figuras que participaram ativamente  da História do Brasil, bastando mencionar, no século XIX, seus tataravós o Visconde de Ouro-Preto, último primeiro-ministro do Império, e Gaspar Silveira Martins, líder da Revolução Federalista de 1894 e um dos maiores tribunos de seu tempo ; e no século XX ,  seu bisavó o almirante Alexandrino de Alencar, ministro da Marinha durante a República Velha , ou ainda seu avó Armando de Alencar ministro do STF nos anos 30. Penso que a convivência com a rica tradição oral familiar da qual Luiz Paulo era depositário, não somente constituía um filtro que aguçava a sensibilidade de sua análise e interpretação das “coisas do Brasil” (expressão recorrente em sua pena), como também lhe dava um profundo senso de enraizamento no país, e na sua história. Isto se refletia num grande otimismo em relação ao Brasil — tema permanente de suas reflexões, convencido de que aqui se realizava uma experiência cultural e civilizatoria únicas- , e uma tendência a situar fatos e  personagens na perspectiva de “tradições brasileiras” in progress: se  o tema fosse, por exemplo  o pensamento católico, no pano de fundo estariam Jackson de Figueiredo,  Corção, Alceu Amoroso Lima ou Sobral Pinto; se fosse a música, estariam   presentes os “elos de continuidade”  unindo, por exemplo,  o Padre José Maurício a Carlos Gomes, respectivamente mestre e discípulo do autor do Hino Nacional , Francisco Manoel da Silva; ou ainda, no arco temporal ligando Villa-Lobos a Almeida Prado, a tradição construída por nomes como Lorenzo Fernandes, Mignone , Guarnieri , Kollreuter, Santoro ou Edino Krieger.

Concluiria, observando que Luiz Paulo Horta, ao mesmo tempo em que foi um dos membros de maior destaque na história dessa Academia , deixou o  exemplo de um humanista completo , — ao qual tão bem se aplicava a fórmula vinciana do “nada do que é humano me é alheio” – , com a peculiaridade de seu “humanismo” ter, como pedra angular, a experiencia da música.

*Manuel Corrêa do Lago ocupa a cadeira nº 15 da Academia Brasileira da Música

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4 Opiniões

  1. Myrna Herzog disse:

    Obrigada por reproduzirem o lindo texto de Manoel Corrêa do Lago, que homenageia com muita propriedade e inspiração a figura extraordinária de Luiz Paulo Horta.

  2. olbe disse:

    Justa homenagem. Ele foi um homem de uma integridade, inteligência e preparo como poucos no nosso País.

  3. Roseli Sá disse:

    Com essa incrível e riquíssima pesquisa em homenagem a Luiz Paulo Horta, o musicólogo Manoel Corrêa do Lago conseguiu abrilhantar e valorizar ainda mais os feitos dessa personalidade ímpar e de grande destaque, seja na área jornalística e literária quanto na filosófica e musical.
    Parabéns, Manoel Corrêa do Lago, por esse belo texto tão repleto de detalhes sobre a vida do inesquecível Luiz Paulo Horta.

  4. Maria Clara Bingemer disse:

    Luiz Paulo Horta era um ser banhado em beleza. Amava a música, a literatura, enfim todas as formas da estética que abrem o ser humano para a transcendencia e o atestam como um ser pneumatificado. Justíssima homenagem que muito me alegra pela grande amizade que me uniu e me une a Luiz Paulo Horta.

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