Início » Cultura » ‘La poésie du Brésil’: uma antologia inédita para francês ver
Cultura

‘La poésie du Brésil’: uma antologia inédita para francês ver

Recém-lançada na França, a edição bilíngue da coletânea já está disponível em livrarias de países francófonos, mas também do Brasil e de Portugal

‘La poésie du Brésil’: uma antologia inédita para francês ver
Foto tirada em 1966 na comemoração dos 60 anos de Mario Quintana. Retratados aqui os poetas Drummond, Vinícius, Manoel Bandeira, Quintana e Paulo Mendes Campos (Reprodução/Internet)

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

Quatro séculos nos contemplam nessas páginas. A tarefa de Max Carvalho, tradutor e poeta francês nascido no Rio de Janeiro, foi das mais árduas. De Anchieta a Drummond, dos cantos de amor indígena aos concretistas, ele selecionou, traduziu e contextualizou parte da nossa aventura poética para o público francês. Antes de La poésie du Brésil (Edições Chandeigne), o Brasil nunca havia ganhado uma perspectiva tão ampla – trata-se, afinal, da primeira grande antologia de poesia brasileira publicada no país de Molière. Recém-lançada na França, a edição bilíngue já está disponível em livrarias de países francófonos, mas também do Brasil e de Portugal.

Capa da antologia de poemas brasileiros vendida na França (Divulgação)

Com a ajuda dos tradutores Ariane Wikowski, Isabel Meyrelles, Inês Oseki-Dépré, Michel Riaudel e Patrick Quillier, Carvalho dedicou-se cinco anos ao projeto. No total, foram nada menos do que 130 poetas distribuídos em 1500 páginas. A motivação era dupla: apresentá-los ao leitor estrangeiro, mas também preservar suas memórias, já que, segundo o organizador, as novas gerações francesas ainda ignoram muito do que já fora traduzido anteriormente.

“Nos anos 70, quando comecei a me interessar por poesia brasileira, havia alguns poucos poetas traduzidos, e hoje há ainda menos”, avalia Carvalho, 52 anos. “É só pegar o exemplo de João Cabral de Melo Neto, que teve traduções, mas nenhum trabalho de apresentação sistemática da sua obra. Hoje, está esquecido. E se isso acontece com Cabral de Melo Neto, que é um dos principais nomes, você imagina então o resto… É um deserto. Mesmo uma geração de poetas que tiveram boa repercussão nos anos 60 e 70, como Cecilia Meireles, já não se encontra mais nas livrarias. Foram conhecidos durante um tempo, mas não conseguiram permanecer.”

Filho de cantores líricos brasileiros, Carvalho mudou-se para Paris aos três anos de idade. Em 1992, resolveu  “fugir para o mato”, a bela e tranquila região de Cévennes, no sul da França, onde vive até hoje. Adolescente, entrou em contato com a coleção de poesia na estante dos pais (lia especialmente Bandeira, Cabral, Drummond), que despertou sua paixão pela literatura brasileira. Vendo a falta de antologias gerais (além de limitadas em seu conteúdo, a maioria está esgotada e só se encontra disponível em bibliotecas ou sebos), empenhou-se no projeto quase solitário, que lhe exigiu muita paciência.

“Infelizmente, foi um trabalho longe da fonte”, lamenta Carvalho, também responsável na França pela tradução da poetisa Maria Ângela Alvim (1926-1959). “Não pude ir para Rio ou São Paulo, mas passei um ano em Lisboa pesquisando em sebos. Lá descobri algumas maravilhas desconhecidas dos franceses, alguns esquecidos até mesmo no Brasil, como Julia da Costa, Auta de Souza, ou ainda Edgard Matta e Odylo Costa Filho”.

Teria sido muito mais simples para Carvalho deixar de lado tudo que veio antes do romantismo, negligenciando os mitos indígenas, o Quinhentismo e as primeiras manifestações barrocas. Mas interessava ao tradutor uma abordagem plurissecular, que se obrigasse a explorar uma arte a partir de sua “infância”.  É importante ressaltar que tais obras não foram incluídas apenas com um simples interesse documental, e sim por seu valor artístico intrínseco. Só assim, explica Carvalho, seria possível penetrar no coração da nossa “hinterlândia”.

Por seu alcance e diversidade, o projeto assustou muita gente. Apesar da ajuda de colaboradores, Carvalho se lançou praticamente sozinho na tradução de obras de tempos e estéticas muito diferentes (ele calcula ter traduzido cerca de oitenta por cento dos 130 poetas do livro).  Afinal, até que ponto pular de Gregório de Mattos a Bandeira pode confundir a cabeça de um tradutor? Como lidar com a distância entre os poetas, com o vocabulário mutante, as transformações linguísticas e culturais?

“Cada época conta com suas dificuldades”, explica Carvalho. “Mas creio que, quando se vai fundo na experiência poética, sempre se consegue achar a fonte da mata. As dificuldades às vezes nos surpreendem porque abrem caminhos, interrogações que valem muito mais que suas respostas. Como poeta, nunca separei o fato de traduzir cada época em um só tempo”.

Seguindo a ordem cronológica e analisando nossa evolução através de verbetes, a antologia acaba por lançar interrogações inevitáveis sobre a identidade brasileira, mas também sobre a própria legitimidade de sua tradução e organização: quando a poesia brasileira pode ser considerada realmente brasileira? Em que momento, e através qual autor, se dá início a sua expressão escrita? É legítimo incluir autores nascidos na Europa? São questões que permearam o projeto de Carvalho, sem nunca chegar a respostas definitivas. Como ele próprio afirma na introdução, a publicação não deve ser vista como uma simples “obra coletiva” que segue piamente as leis das antologias, mas sim como uma longa flanerie pela história poética do Brasil, que inclui seus sentidos, seus odores, o deslumbre diante dos grandes espaços e a descoberta das mais íntimas sensações.

A única frustração de Carvalho foi não ter conseguido chegar aos contemporâneos. Nenhum poeta da antologia nasceu depois de 1940. A intenção do tradutor era chegar até os dias de hoje, mas foi vencido pelo cansaço e o prazo que se esgotava.

“No fim, foi como um parto”, conta. “Mas ainda tenho a esperança de estender a antologia ao trabalho dos contemporâneos, num projeto separado”.

Assim, talvez consiga acender um interesse mais permanente dos leitores franceses pela produção brasileira, que depois de um certo período de relativa, digamos, “curiosidade”, acabou caindo no esquecimento.

“Sinceramente, eu acho que a situação não é muito favorável”, avalia o tradutor. “Perguntei a  poetas franceses, e alguns mal ouviram falar em Drummond ou Bandeira. Acredito que ainda há um trabalho imenso a ser feito na divulgação de novos poetas e dos antigos, e espero que seja adotado pelas próximas gerações”.

O esforço titanesco de Carvalho certamente não foi em vão. A antologia vem recebendo boa recepção na imprensa francesa nas últimas semanas. Para a tradicional Magazine Littéraire, “este belo livro fará data”, pois incentiva continuações: “Já conhecíamos Carlos Drummond de Andrade ou Haroldo de Campos,  mas aqui está Raul Bopp e seu sábio ‘primitivismo’, aqui está o espirituoso Mario Quintana e o melancólico Augusto Meyer, dois poetas do Rio Grande. Ou ainda Manoel de Barros, o deão deste livro (ele nasceu em 1916), com seu amplo sopro lírico, e a surpreendente  Hilda Hilst, cujas ‘odes mínimas’ se dirigem à morte”.

Já para o jornal Libération, a antologia comprova que os  “mais belos trechos da poesia brasileira se devem a este tipo de marginais inflexíveis, nem sempre malditos, não necessariamente descartadas do debate sobre a emancipação de seu país, mas que, em matéria de originalidade, nunca se deixam contar pelos fantasmas coletivos”.

 

TRECHOS

NOUVELLE LUNE

Ma nouvelle chambre

Au soleil levant :

Ma chambre une fois encore en vigie sur la baie.

 

Après dix ans sur cour

Je renoue avec l’aurore.

Je retrempe mes yeux dans les menstrues exsangues de l’aube.

 

Chaque matin l’aéroport d’en face m’enseigne à partir :

 

J’apprendrai avec lui

À m’en aller pour de bon

– Sans peur,

Sans remords,

Sans regrets.

 

N’allez pas croire que j’attends la pleine lune

– Ce soleil de la démence

Vague et noctambule.

Ce que je veux,

Ce qu’il me faut avant tout

C’est la nouvelle lune

 

(MANOEL BANDEIRA – LUA NOVA)

 

LA CONQUÊTE DU JOUR

Au commencement, tout était sombre. Il faisait toujours nuit. Le jour n’existait pas. Les hommes vivaient près des termitières. Tout était très compliqué. Personne ne voyait rien. Les oiseaux fientaient sur les gens. Il n’y avait pas de feu, les terres étaient en friche. Il n’y avait rien. On distinguait seulement ces petites lueurs aux abords des termitières. Les frères Kuát et Iaê, le Soleil et la Lune, ne savaient que faire pour aider les leurs qui mouraient de faim, sans pouvoir travailler. Eux aussi avaient faim et se demandaient comment ils pourraient faire de la lumière. Ils voulaient faire le jour, mais ils ne savaient pas comment. Après avoir longuement réfléchi, ils firent un tapir en baudruche et lui bourrèrent le ventre avec du manioc et avec d’autres choses encore, afin que ça pourrisse et pue. Au bout de quelques jours, la baudruche commença à empester. Tout était déjà avarié à l’intérieur, avec de la vermine grouillant dessus. Le Soleil fit un paquet avec la vermine, qu’il remit aux mouches, en leur disant de le porter au village des oiseaux. Les mouches s’y rendirent aussitôt et arrivèrent là-bas avec le paquet plein de bestioles. Les oiseaux les encerclèrent pour savoir au juste ce qu’elles apportaient. (…)

(Trecho de Três mitos índigenas do Xingu – recolhidos no século XX)

 

JEU

La tunique étant

unique

roulent les dés

sur le tapis vert.

 

La tunique étant

sans pareil

il faut

les dés.

Six faces blanches et les

chiffres qui décideront

de sa propriété :

 

un geste, un

pari

et la décision sur le

vert

imprimée.

 

La tunique,

elle, demeure intacte

(ORIDES FONTELA – JOGO)

 

 

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *