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Gastronomia no Rio

Lasai: calma, competência, e muito sucesso

Um restaurante que aproxima salão e cozinha, cozinheiro e cliente, com pratos fantásticos

Lasai: calma, competência, e muito sucesso
Salão do Lasai, restaurante do chef Rafael Costa e Silva (Foto: Reprodução/Internet)
Polvilho e beterraba (Fotos: Ignacio Peixoto)

Polvilho e beterraba (Fotos: Ignacio Peixoto)

Outro dia, tive a oportunidade de jantar no  Lasai, restaurante do chef Rafael Costa e Silva que abriu no Humaitá, Rio de Janeiro, há pouco menos de um ano.  De seu nome basco (lasai: calma, tranquilidade),  sua porta fechada, sua fachada não sinalizada,  seu cardápio mutante (fixo, escolha entre 7 e 13 etapas, sem opção à la carte) e sua proposta fantástica  (verduras e legumes orgânicos provenientes da própria horta), criou-se  um ar de exclusividade e mistério de proporção quase maçônica. Pelo menos para minha imaginação, que confesso ser fértil. Em suma, estava curiosíssima.

Ao aproximar-nos da casa, um competente valet nos saudou cordialmente e abriu a porta sem muita cerimônia.  E me senti transportada. Não estava mais na Rua Conde de Irajá, no Humaitá, no Rio de Janeiro. “O ar aqui é diferente,” pensei.

Pão no vapor (Foto: Ignacio Peixoto)

Pão no vapor

O ambiente consegue ser rústico e sofisticado, austero e aconchegante, preciso e relaxado. Ao longo da noite, entendi o fenômeno criador de sua atmosfera: a sintonia única entre salão e cozinha. O restaurante funciona como um só organismo. O serviço flui naturalmente, sem pretensão, leve, solto, informado, inteligente e simpático, sem ser inconveniente.  Cozinheiros também servem clientes, e entram e saem da cozinha com graça e confiança.  Não há vestígio da natural e imponente barreira entre cozinha e salão. Magia pura.

Língua

Língua

Começamos nosso “Festival” harmonizado no deck. “Pratos para comer com a mão,” alertou o garçom.  Chips de batata doce com molhos, verdurinhas e microervas, polvilho com beterraba e creme de queijo de ovelha,  brandade de pargo (bem pargo!) com chips de batata roxa.  Tudo muito gostoso.  Mas  esperava mais variedade.  Tubérculos também podem ser estrelas!

lasaivieira

Vieira

Desta primeira parte de nossa degustação, nota 10 para a língua em tempura de ervas.  Gosto de quero-mais.  Destaque também para o pão de vapor com rabada.  Acho que meu pãozinho poderia ter ficado mais tempo no vapor, (estava um pouco borrachudo e tinha um gosto de farinha crua lá bem longe), mas fiquei encantada.  Não sei se por conta da carne bem temperada e macia… ou terá sido o fio de gordura que escorreu pelo canto da boca que me conquistou?

Passamos ao salão principal.  Dentre os cinco pratos servidos, a vieira com rabanete e tutano e a lula em sépia com risoto de açafrão e ar de vôngole impressionaram.  A vieira doce, tostada no maçarico, com a picância crocante do rabanete, e o tutano…e o tutano.  Mais tutano, por favor!

Fubá

Fubá

O prato da lula de sabores fortes muito bem casados foi perfeitamente harmonizado com um Bagatelle (se minha memória não falha) leve na boca e forte no nariz (notas de metano/enxofre).  Aliás, o somelier,  apesar de não ter cumprido sua promessa de me mandar a relação dos vinhos (e pratos) servidos, está de parabéns.  De começo ao fim, suas escolhas surpreenderam e incontestavelmente agregaram dimensão à experiência gustativa.  Recomendo, sem dúvida alguma, a harmonização.

A única decepção da noite foi o último prato salgado: a “vaca”. Pedaço de carne de boi com três batatinhas e glace — prato que, quando não executado com perfeição quase sobre-humana, não consegue ser nada além de ordinário.  Infelizmente faltou sal na carne e nas batatas, e a glace, embora viscosa e lustrosa, estava amarga.

Mas foi rápido, as sobremesas logo acabaram com o amargo vestígio do prato anterior.  A primeira, uma caixinha de massa crocante e quebradiça recheada com um creme delicioso, um verdadeiro presente de morango.  A outra, um bolo de fubá molhadíssimo, com sorvete de erva doce (parcimônia no açúcar), foi paixão à primeira prova.

Saímos do restaurante com a certeza de tempo muito bem aproveitado.  Foi realmente uma noite maravilhosa.  Um golpe de ar fresco da serra fluminense em pleno Humaitá.  Parabéns ao chef e sua equipe.

 

Lasai: Rua Conde de Irajá no. 191, Humaitá, tel 3449-1834/1854

Experiência “Não me Conte Histórias” – 7 etapas – R$185

“Festival” – 13 etapas – R$245

4 Opiniões

  1. Isabela Cesar disse:

    Barbara, você escreveu tão claramente que
    quase pude sentir o sabor dos pratos só de ler!
    Parabéns!!!! Precisamos de mais gente assim
    escrevendo sobre o que é a comida.

  2. Florence. Sherrill disse:

    Delicioso texto ..ja fiz minha reserva pra ir la conferir

  3. Alfredo Sloan disse:

    Quem será essa pessoa que tem o desplante de se apropriar do nome do grande Brillat-Savarin, o maior nome da gastronomia no mundo?

  4. Brillat Savarin disse:

    É um absurdo um jovem em começo de carreira cobrar bem mais caro que o restaurante de Claude Troigros, o chef mais famoso do Brasil.

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