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Crítica

‘Livre’, um filme que foge dos estereótipos

Chamam atenção a fotografia de Yves Bélanger e, especialmente, o trabalho de edição a cargo de John Mac McMurphy e Martin Pensa

‘Livre’, um filme que foge dos estereótipos
De pouco adiantaria esta narrativa correta, que foge dos estereótipos cinematográficos mais comuns às cinebiografias, se o restante do filme não encontrasse amparo em uma parte técnica bastante azeitada (Reprodução/Blog)

A imagem que fazemos de nós mesmos  influencia bastante a imagem que o mundo faz de nós. Se agirmos como pobres coitados, é comum que os outros sintam pena. Se agirmos com arrogância, confiantes ao extremo, será muito mais fácil despertarmos uma série de sentimentos ruins. Agora, quando uma vida adquire contornos dramáticos a ponto de ser suficientemente interessante para ser transformada em filme, mais pessoas, para o bem ou para o mal, serão influenciadas. Autora e protagonista da autobiografia homônima que deu origem ao longa-metragem Livre (Wild, no original), Cheryl Strayed, parece ter plena consciência desta dicotomia.

A trajetória da menina mimada, brilhantemente interpretada por Reese Whiterspoon, que após a morte da mãe (Laura Dern) leva uma vida de esbórnia, drogas e infidelidades conjugais, é narrada de forma imparcial, de modo a não induzir os sentimentos do público mesmo diante de um desfecho que, lá pelas tantas, se anuncia como óbvio. Fruto da forma como a protagonista passou a se enxergar depois de uma viagem de autodescoberta pelas trilhas do principal deserto americano, a visão levada às telonas encontrou amparo e respaldo em dois importantes personagens: o cineasta canadense Jean-Marc Vallée e o roteirista e romancista britânico Nick Hornby.

O primeiro dirigiu, com sucesso, a cinebiografia “Clube de Compras Dallas”, em que a trajetória de seu personagem principal, Ron Woodrof (Matthew McConaughey), encontra semelhanças com a de Strayed. Já o segundo, em seu livro mais famoso, “Febre de Bola”, brinca de forma bem humorada com as agruras de um torcedor (ele mesmo) acostumado a sofrer com seu time de futebol. Dá para dizer, seguramente, que o encontro do ponto de vista destes três profissionais, Strayed, Vallée e Hornby, moldou o jeito como o filme foi feito e se apresenta ao espectador: uma obra que não oscila nem para o dramalhão, nem para a epopeia de uma heroína pronta a ser idolatrada.

De pouco adiantaria esta narrativa correta, que foge dos estereótipos cinematográficos mais comuns às cinebiografias, se o restante do filme não encontrasse amparo em uma parte técnica bastante azeitada. Chamam atenção a fotografia de Yves Bélanger e, especialmente, o trabalho de edição a cargo de John Mac McMurphy e Martin Pensa. A alternância entre cenas que se passam no passado, no presente e os sonhos que a personagem tem ao longo do filme é tão sutil e natural quanto, possivelmente, será para o grande público aceitar que o desfecho desta obra é muito mais próximo da realidade do que as demais películas do gênero.

*Bruno Giacobbo escreve para o site BlahCultural, parceiro do Opinião e Notícia

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