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Má tradução de ‘Raylan’ empobrece obra de Elmore Leonard

Editora confiou a tradução a uma pessoa não qualificada para isso. A média é de pelo menos um absurdo por página

Má tradução de ‘Raylan’ empobrece obra de Elmore Leonard
No original, o livro é ótimo, cheio de ação, linguagem rápida com frases e diálogos curtos (Divulgação)

Falecido neste ano aos 86 anos de idade, Elmore Leonard foi considerado nas últimas décadas o melhor escritor de livros policiais dos Estados Unidos. Ao contrário de alguns famosos como Agatha Christie que dedicou a maior parte de seus livros ao detetive Hercule Poirot, ou ao pai de todos, Conan Doyle, com Sherlock Holmes, Leonard não se fixou num só herói. Mas o “federal marshall” Raylan Givens aparece em vários de seus livros e foi tema de uma série de TV chamada “Justified”.

Sou admirador do autor há muitos anos e já li muitos de seus livros, inclusive este, sempre no original em inglês. O livro é ótimo, cheio de ação, linguagem rápida com frases e diálogos curtos. Infelizmente a editora, e é chato dizer isso a respeito da Companhia das Letras, provavelmente a melhor do país, confiou a tradução a uma pessoa não qualificada para isso.

O tradutor visivelmente tem pouco conhecimento do inglês coloquial usado por Leonard, e abusa de traduções literais que absolutamente não servem. Tive a paciência de ir até a página 28. A média é de pelo menos um absurdo por página. O tradutor também abusa da tradução chula quando o autor usa um eufemismo para, por exemplo, o órgão sexual masculino. Não vou citar aqui tudo que achei errado, apenas alguns casos para ilustrar minha opinião:

 

Original (O): Raylan Givens was holding a federal warrant to serve …

Tradução (T): Raylan Givens segurava um mandado federal para intimar…

Comentário (C): O policial estava de posse do mandado, não quer dizer que ele estava segurando o dito cujo na sua mão.

 

O:  He never packs, that I know of.

T: Ele nunca carrega nada, eu sei.

C: O autor queria dizer, em linguagem coloquial, que o bandido não costumava andar armado. “Ele nunca carrega nada” não informa isso claramente ao leitor.

 

O: The SUV was traveling through a bottom section of East Kentucky…

T: O SUV viajava por  uma área baixa no leste de Kentucky…

C: O autor usa “bottom” no sentido de “área de baixo”, ou “do sul”, do leste de Kentucky, não se refere a altitude.

 

O: You got taken, …

T: Eles te deram um chapéu, …

C: O policial está explicando a um bandido que os outros bandidos o passaram para trás, ou deram um golpe nele, o enganaram. Não conheço essa expressão “dar um chapéu”.

 

O: Techs dusted the place, …

T: Os técnicos espanaram o local, …

C: O assunto é o local onde o bandido do comentário anterior foi vítima de um golpe. Os técnicos da polícia revistaram o local e espalharam o pó usado para procurar impressões digitais. Esse é o sentido de “dusted” (dust é pó, ou poeira). O tradutor achou que estava se falando de limpar, tirar a poeira com um espanador, e traduziu como “espanaram”.

 

O: He’s known the…. since whoopin cough and the measles.

T: Conhece os … desde que tiveram tosse e sarampo.

C: A tradução correta é “coqueluche e sarampo”. O tradutor teve preguiça de se informar. Era só procurar num bom dicionário, ou buscar no Google.

 

 

 

 

 

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3 Opiniões

  1. Eliahu Feldman disse:

    Creio que em geral o crítico da tradução tem razão. Como se costuma dizer “traduttore, tradittore…”. Mas um dos comentários dele pode nao estar correto:

    O: You got taken, …

    T: Eles te deram um chapéu, …

    E o crítico iz que não conhece a expressão “dar um chapéu”
    Se não me engano, essa expressão vem do futebol, e configura a situação em que um jogador encobre o seu adversário com a bola e o “engana”, ou seja é um drible pelo alto. Se assim for, o tradutor está certo, embora usando uma gíria de futebol local, pois em outros lugares, o dito “chapéu” é chamado de “balão” ou “balãozinho”, e é considerado um drible vexatórorio para quem o sofre, como tomar um drible por entre as pernas.

  2. Roberto1776 disse:

    Traduzir, acreditem ou não, é mais difícil do que escrever, pois o tradutor precisa entender exatamente o que o escritor tinha em mente quando escreveu. Obter esse entendimento é extremamente difícil, principalmente para quem não viveu alguns anos no país em que se fala o idioma do texto original. Bom mesmo é quando a tradução é feita por um escritor de sucesso no idioma para o qual está traduzindo.
    O fato inegável é que essa atividade (traduzir) não é devidamente valorizada. A mesquinharia das editoras, via de regra, é a razão pela qual seus livros são mal traduzidos. Se melhorem drasticamente a remuneração dos tradutores, as editoras estarão livres de passar por esses vexames, pois os tradutores terão recursos financeiros para passar, pelo menos, um ano sabático no país em que se fala o idioma do original a ser traduzido. Tradutores precisam definitivamente ser muito mais bem remunerados do que são atualmente.

  3. Helena disse:

    A tradução saiu na forma literal porque, pelo jeito, o tradutor é incapaz de interpretar um texto, só pode!

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