Início » Cultura » Mad Men: o outro lado do paraíso
Contemporânea

Mad Men: o outro lado do paraíso

Série icônica por excelência, Mad Men é a gênese de uma sociedade que acreditava buscar o paraíso prometido, mas perdeu-se no caminho. Por Bolívar Torres

Mad Men: o outro lado do paraíso
Don Draper e a família 'perfeita': felicidade ilusória

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

Bolívar Torres é jornalista e escritor

Siga o colunista no Twitter: @bolivar_torres

Finalmente terminou o longo inverno. Depois de 18 meses de ausência, Mad Men retorna neste domingo, 25 de março. Para quem estava acostumado a acompanhar uma nova temporada da série todo ano, a parada foi quase insuportável. Sinceramente, nem sei como sobrevivi. Algumas séries são assim, acabam fazendo parte de sua vida. Você fica apegado a seus personagens, você acompanha as suas vidas. Perdê-los de vista é se afastar de um amigo próximo, de um parente.

Mad Men, diga-se de passagem, não é a única série essencial da televisão, uma indústria que parece viver sua era de ouro. Faz tempo que canais fechados, como a HBO ou a ACM, passaram a inovar muito mais do que o cinema. A seu favor, uma agilidade maior em dialogar com questões contemporâneas, mas também em propor novas alternativas estéticas (quem diria). Sim, a TV já havia nos mimado com obras-primas como Sopranos e The Wire, ou ainda a mais recente Breaking Bad, que chega a sua última temporada este ano. Mas, mesmo tendo seu lugar garantido no panteão da teledramaturgia, arrisco a dizer que nenhuma dessas três séries tocou nossa realidade de maneira tão íntima quanto Mad Men.

Explico melhor: Sopranos e The Wire diziam muito sobre a sociedade em que vivíamos, ou por outra, nos colocava frente a frente com a linha tênue que separa civilização e barbárie. Esta linha são as instituições, e todos os mecanismos que sustentam sua engrenagem gigante e complexa. Ambas mostravam a árdua trajetória do indivíduo dentro dela, o movimento conflituoso dentro de suas pequenas regras, suas intermináveis burocracias. E mostravam, também, como na maioria das vezes tornamo-nos refém dessa mesma engrenagem, criada supostamente para proteger-nos. Eram séries que nos tocavam como cidadãos; sem dúvida, vimos muito de nós mesmos em seus episódios.

Mas se The Wire, Sopranos e outras grandes séries fazem questão de dialogar com o momento, Mad Men, por sua vez, se refugia em uma saborosa anacronia: os anos 60 e a ilusória inocência da pós-guerra. Mas há, no entanto, muito dos nossos dilemas modernos no escritório de publicidade de Don Draper de quarenta anos atrás. Se Mad Men virou uma série icônica, como as inúmeras matérias sobre sua volta parecem comprovar, não é só por causa do esmero plástico de sua imagem, da qualidade de sua escrita ou de um mero fetichismo pelo imaginário dos anos 60. Mad Men, na verdade, é a gênese de uma sociedade perdida, é onde regressamos para ver como nosso fracasso começou.

Não é um acaso a série girar em torno do mundo da publicidade e seu anti-herói, Don Draper, viver sob uma identidade falsa e continuamente reinventada.

Como já lembrou o criador da série, Matthew Weiner, Don Draper pertence a uma tradição americaníssima inaugurada pelo Gatsby de Fitzgerald: seu corpo fluido e misterioso personifica a mobilidade social de uma terra de oportunidades. Mas, a cada degrau subido entre as classes, Draper perde “um pedaço de si mesmo”. Com sua desenvoltura natural, parece à vontade em todos os espaços, mas não encontra a paz em lugar nenhum, seja nos escritórios e restaurantes chiques de Manhattan, seja no jardim aconchegante de sua mansão suburbana. Daí sua constante neurastenia em meio a uma vida “perfeita”.

Como todos os personagens da série, Draper tem um sentimento instintivo em pertencer à história, à trajetória coletiva de um país. Mas, ao mesmo tempo, guarda sua dose de inadequação, em um jogo em que ora aparece à frente ora atrás, ora domando as mudanças do mundo ora sendo ultrapassado por elas. O poder encantatório de suas frases feitas, repetidas à exaustão por sua voz sussurrada, se debate entre os novos costumes ao mesmo tempo em que os moldam. Como bem definiu o crítico Jean-Sebastien Chauvin em um número especial da Cahiers du Cinéma dedicado a séries americanas, Draper é tanto um farol quanto um barco à deriva.

Ele e seu séquito de publicitários constroem e reconstroem, através de slogans, a imagem de uma América idealizada. Neste sentido, a beleza plástica da série não é meramente ilustrativa. Sua obsessão pelo detalhe nos cenários, nos figurinos e na direção de arte, está a serviço de uma reflexão sobre a imagem e o mundo. Raramente se viu um momento tão forte como o último plano do piloto da série, quando Draper volta à sua linda casa de subúrbio, vê seus filhos dormindo, é abraçado pela esposa (uma loira hitchcockiana, clone de Grace Kelly), até que a câmera se afasta colocando aquele paraíso prometido sob outra perspectiva – a de um território ao mesmo tempo familiar e ameaçador. O plano fecha como uma publicidade dos anos 60, a fabricação de uma imagem ilusória de perfeição. A tragédia da família patriarcal. A tragédia de todo um mundo moderno. Difícil não lembrar da frase de Max Ophuls: “felicidade não tem nada que ver com alegria”.

“A razão de você não ter sentido [amor], é porque ele não existe”, diz Don Draper, em um diálogo assustador. “O que você chama de amor foi inventado por caras como eu, para vender nylon. Você nasce sozinho, morre sozinho, e este mundo te joga um monte de regras para que você se esqueça destes fatos”.

Mad Men é a entrada do homem em um mundo governado pela imagem, o momento exato em que esta passa a afetar e mover o indivíduo. A publicidade pode ser vista como uma volta ao mundo sensível, a reapropriação dos totens numa lógica de sociedade de consumo e de mercado. Seu jogo de aparências salva os personagens do vazio mais profundo, da completa aniquilação. Naquela que é talvez a cena mais bonita da história da televisão, Don Draper apresenta a seus clientes uma campanha publicitária para o Kodak Carousel, uma máquina de slides. Enquanto projeta imagens da própria família na parede, Draper fala em criar um “laço sentimental” com o produto. Aos poucos, percebe-se que o publicitário virou refém de seus próprios jogos de manipulação. É o vazio do seu desejo que vê refletido pelo projetor, a “dor de uma antiga ferida”.

****


Aproveitando a boa discussão provocada pela minha coluna da semana passada, “O bem que que a pirataria nos faz”, queria dizer a todos que assistirei a quinta temporada de Mad Men da mesma forma como assisti às últimas quatro: baixando da internet, no meu computador. Há mais de seis anos que não tenho televisão em casa e preferi aderir à pirataria. Se não fosse por ela, teria que pagar um preço abusivo por canais de televisão, que me ofereceria um serviço insatisfatório. Ou seja, seria obrigado a ver séries com pelo menos um ano de atraso, além de intervalos comerciais insuportáveis e talvez até cortes indevidos nos episódios.

Se um dia as empresas me oferecerem um serviço on-line por um preço realista, e com o qual eu puder baixar episódios com boa qualidade de imagem e no mesmo momento em que passam nos Estados Unidos, eu pagaria com o maior prazer. Mas, enquanto isso, vou continuar aproveitando o mundo maravilhoso download, como praticamente todo mundo inteligente que conheço.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

2 Opiniões

  1. Jacytan Melo disse:

    Concordo plenamente com você você, em gênero e grau.

  2. Marcelo disse:

    Bolívar, não conhecia sua coluna, cheguei até aqui por alguma pesquisa no google.
    O fato é que adorei o que li, e passarei a acompanhar seu trabalho.
    Sobre MadMen, tenho parte das temporadas mas ainda não comecei a ver. Farei isso em breve, agora mais do que nunca.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *