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Maluf, a última fronteira do fisiologismo?

Eleitores se escandalizaram com a aproximação ao deputado procurado pela Interpol. Mas, depois de Sarney e Collor, onde está a incoerência?

Maluf, a última fronteira do fisiologismo?
Maluf, como Darth Vader: mas já não faz tempo que Lula passou para 'o lado negro da força'?

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Em um editorial histórico publicado entre os dois turnos da última eleição presidencial francesa, o Le Monde criticou abertamente a virada extremista do então candidato Nicolas Sarkozy, que, vendo-se atrás de seu concorrente François Hollande, adotou parte do discurso xenófobo e nacionalista do partido de extrema-direita Front National para ganhar alguns votos. Segundo o jornal, mesmo que a estratégia se pagasse do ponto de vista eleitoral, não deixaria de tornar mais vulnerável o partido e Sarkozy, já que enfraqueceria as suas convicções fundadoras e misturaria todas as direitas numa só. Era um preço que não valia pagar por um cargo na presidência.

“Também trata-se de um erro moral”, fulminou o editorial. “Em política, como em tudo, o fim não justifica todos os meios. A eleição não legitima todos os cinismos”.

As palavras soam duras num ambiente onde política, apesar de ser política, é também um mínimo de princípio e convicção. No Brasil, porém, onde política não é nada além de fisiologismo e corporativismo eleitoral, onde partidos não se apoiam em ideia alguma e regiões inteiras são governadas apenas por caciques brigando por seus próprios interesses, o “erro moral” apontado pelo Le Monde soa como um anacronismo absurdo e irreal.

Já faz mais de duas décadas que Luiz Inácio Lula da Silva e o PT recusaram o apoio de Ulisses Guimarães no segundo turno da eleição de 1989, já que uma aliança com o PMDB da época (do qual o PMDB de hoje é uma pálida cópia) feriria a pureza do partido. É sabido que Lula se arrependeu amargamente da decisão e o partido mudou sua postura, arquitetando as alianças mais diversas a nível regional e federal.

Por isso, é difícil entender a surpresa das pessoas ao verem Lula apertando a mão de Paulo Maluf, símbolo da corrupção no país. A foto com Lula, Haddad e Maluf juntos circulou a semana toda pelas redes sociais, sempre acompanhada de mensagens de perplexidade ou de desilusão. Virou até meme da internet, com montagens de Maluf como Darth Vader ou ainda uma montagem com filtro vermelho e com os três políticos de olhos cobertos, uma alusão ao caráter obsceno e pornográfico do encontro.

Para eleitores do PT, a aliança virou uma espécie de linha a não ser atravessada: muitos agora juram que vão abandonar o partido, como os comunistas rasgaram suas carteirinhas após a invasão da Checoslováquia. Falou-se por aí que Lula “rasgou sua história”. Mas, por mais triste que seja a parceria, e por mais vulgar que seja o seu objetivo (pouco mais de um minuto no horário eleitoral!), não há nada de incoerente na escolha do ex-presidente, pelo menos desde 2002, quando ele e seu partido chegaram ao poder em uma coligação esdrúxula com o PL.

Todos os partidos desejavam Maluf, e já faz tempo que o PT é um partido como os outros. Nos últimos anos, seu programa foi invadido por palavras como “agenda” e “governabilidade”, que aos olhos de muitos de seus eleitores, legitimam ideologicamente o fisiologismo do partido. Sem pudor ou dores de consciência, Lula tem andado de braços dados com um coronel (Sarney), um ex-presidente afastado por impeachment (Collor), e teve como vice um empresário na lista suja do trabalho escravo (Alencar), um dos piores crimes que se pode cometer. Diante desse time, ter a Interpol na sua cola poderia ser considerado um agravante? Fica estranho chamar a aliança Haddad-Lula-Maluf de “pornografia” quando, ao redor, a política inteira se mostra tomada pela promiscuidade. Afinal, já não faz tempo que Lula passou para “o lado negro da força”?

Um dos maiores problemas do fisiologismo é que, aos poucos, apagam-se as fronteiras morais, ficando quase impossível saber onde termina o propósito governista, e onde começa um simples hábito feio, uma ânsia egoísta e vazia por acúmulo de poder. A tal linha que não pode ser ultrapassada sempre será subjetiva, ou pior, sempre poderá ser justificada por alguma falácia (logo abraçada pelos intelectuais orgânicos). A questão é saber por que, aos olhos de eleitores que se mantiveram passivos ao fisiologismo nos últimos 10 anos, a aproximação com Maluf seria a última fronteira. Por que Maluf e não os outros? A incoerência está com o PT, ou com seus eleitores?

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4 Opiniões

  1. jan disse:

    Alem disso, Maluf, mesmo sendo deplorável, não é pior que alguns personagens que hoje estão no poder, MAG e Dirceu por exemplo. Há de se considerar a imagem diabólica que o PT construiu durante décadas em cima do famigerado deputado.
    Um mito ao contrario, um bode expiatório, que Erundina soube explorar com sucesso.
    Veremos o desenlace destas jogadas politicas….

  2. helo disse:

    Comparações injustas: Sarkozy fez alianças com políticos ideologicamente diferentes e quando estava no auge da disputa do segundo turno. Não se aliou a político com ficha na Interpol. Aqui, longe dos períodos eleitorais, estamos há 10 anos assistindo um grupo voltado para manobras dentro do poder, alianças com o que há de pior, e sem o mínimo gosto pela discussão sobre o país(educação, saúde etc). O crime do Collor (destituído por caixa 2 na campanha conduzida por PC Farias) é igual ou maior que o mensalão. Delúbio, para diminuir a gravidade do mensalão (compra de votos), declarou que o crime era somente o de caixa 2 de campanha. Se o crime era o mesmo que o do Collor, a explicação encontrada para inocentar o beneficiado foi a de que o candidato “nada sabia”. Difícil acreditar que um presidente tão tarimbado e esperto foi enganado pelo seu PC Farias e pelos dirigentes de seu partido?

  3. Júlio Cardoso disse:

    Aliás, o Maluf deve ter ficado ofendido de posar ao lado do “Dom Quixote” Lula…

  4. Carlos U. Pozzobon disse:

    Mas o PT nunca teve um PROJETO NACIONAL !!! O que quer o PT? . Tire o discurso genérico da justiça social, terra e trabalho, o que sobra? Alguém pode dizer: mas isso é muito!!! Mas é genérico !! Um projeto nacional implica em dizer onde se quer chegar: a tal de terra e trabalho é apenas uma generalidade de percurso. Mas qual é mesmo o percurso? O PT não sabe, a nação não sabe e ninguém sabe. Mas então o que sobra???? Ora bolas, o que o PT quer é se manter no poder indefinidamente. Como secou a fonte da esquerda, eis que ele descobriu a fonte da direita e daí, somando os tributários, pretende continuar caudaloso. Só que a seca é muito grande e vai terminar ficando no tamanho que era. Maldita geografia política. Nada parece dar resultado, mas por enquanto o PT apenas realizou uma operação de laboratório e criou um organismo geneticamente modificado chamado MALULAFISMO. Pretende ser resistente a todos os ataques dos inimigos e dispensar os pesticidas habituais da oposição. Mas corre o risco de não vingar, ficar apenas na promessa e declinar de forma irremediável.

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