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CULTURA

O último ‘adieu’ de Charles Aznavour

A provável despedida do chansonier em Paris

O último ‘adieu’ de Charles Aznavour
Charles Aznavour, um mestre no palco (Foto: Wikimedia)

Certamente o ensolarado domingo de 14 de outubro não foi o que esperava grande parte da juventude parisiense. Os jovens amanheceram com o gosto amargo de uma derrota no campeonato do mundo. Na noite da véspera, bares e cafés de Paris estouravam de tão lotados com a moçada torcendo loucamente pelos “bleus”. Foi uma decepção. Perderam a semifinal para os ingleses que há um século não conseguem derrotar. “A Inglaterra continua sendo a pérfida Albion”, resumiu o jornal Le Figaro.

Desculpe decepcionar o prezado leitor julgando que estou escrevendo sobre futebol. “Copa do mundo em 2007?” estará indagando, intrigado. O campeonato em questão é de rugby, um esporte para o qual os brasileiros são tão indiferentes quanto para o crickett, o que já não acontece com os argentinos que disputariam o 3o lugar dias depois. Nos anos 50 a mais bonita revista esportiva da América do Sul, “El Grafico”, já estampava lindas reportagens coloridas sobre o desenvolvido rugby portenho mas, apesar disso, ao contrário dos badalados profissionais da seleção francesa, os jogadores da Argentina são até hoje praticamente amadores, engenheiros, médicos e até um cantor lírico. Mesmo assim impuseram nova derrota aos franceses na petit finale, dias depois, chutando a França para o quarto lugar.

Se a juventude gramava tristeza naquele domingo à tarde, os coroas estavam felizes caminhando alvoroçados à entrada do monumental o “Palais de Congrès” para assistir um espetáculo de seu grande ídolo. Tem 83 anos e há fortes indicações de que este seja seu “Adieu”. Comenta-se que desta vez ele se despede dos palcos para sempre. Seu nome é uma instituição na música francesa: Charles Aznavour.

Nas festas dos casamentos que se realizam no Brasil há um momento em que o disc jockey se prepara para encher a pista de romantismo ao colocar a gravação de Aznavour de sua composição “The old fashioned way”, o fox trot suavemente dançante, na versão que ele gravou em inglês. Nem bem a música começa, o efeito é fatal. Todo mundo é tomado por um impulso de dançar com a mulher amada e, de preferência, “cheek to cheek”. Nesse caso, “joue contre joue”.

Nessa tarde, a plateia de 3.423 lugares do Palais estava literalmente ocupada por um público acima dos 45 anos, ávido em assistir seu grande ídolo, quase certamente o último dos “Grandes” depois da morte de Frank Sinatra, com quem, aliás, ele gravou várias vezes. Acreditem, Aznavour está em plena forma física e vocal, com seu timbre ligeiramente arranhado e a dose de vibrato que é uma marca.

O baixinho de 1,60m entra antes da orquestra atacar o primeiro número, vestido de negro dos pés ao pescoço, caminha elegantemente – sem desfilar – para o centro do grande palco, seu habitat de trabalho, onde comanda um espetáculo impecável recheado das canções que todos ali conhecem quase de cor. Descreve a origem de cada uma com a autoridade de autor e a intimidade de um pai, cantando-as sem esforço, incitado pelo impressionante domínio com que desempenha a arte que teceu ao longo de sua vida.

Além de “Aznavoice”, como é apelidado, também pode ser Monsieur Charm. Com marcante naturalidade, Aznavour é um mestre no palco. Seus gestos são envolventes, usa o tempo e o espaço com tanta pertinência que, se quisesse, poderia prescindir do texto poético e ainda estaria dando uma aula de interpretação vocal. Para acompanhar a expressão de suas mãos valeria uma câmera cinematográfica exclusiva, captando uma hipotética lição destinada a cantores aprendizes e diplomados.

No momento certo, recua até a coxia e retorna dançando consigo mesmo, envolvendo-se com o braço esquerdo pelo ombro direito enquanto esconde o microfone com o outro braço para interpretar em francês o célebre fox em francês, “Les plaisirs démodés”, que conquistou o mundo, deixando a plateia emocionada. Aznavour é impressionante como autor, é absoluto como cantor: “Viens découvrons toi et moi / les plaisirs démodés / Ton coeur contre mon coeur / malgré les rythmes fous / Je veux sentir mon corps / par ton corps épousé / Dansons joue contre joue ……”. Canta ainda La Boheme, Mourir d’amour, Qui, etc. O público aplaude como quem recebe uma dádiva. E é mesmo uma dádiva ver e ouvir Aznavour que some na coxia depois de receber bouquets de flores aos montes, saindo de uma vez após dois bis.

Possivelmente seja a derradeira chance. Pelo menos até o dia 10 de novembro, o último chansonier canta em Paris. Quem se habilita? À moda antiga! Como indica o Guia Michelin para atrações excepcionais: il vaut le voyage.

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5 Opiniões

  1. Fernando disse:

    Fico feliz por dois motivos: por saber da existência de um site excelente, que eu não conhecia, e por poder, a partir de agora, ler seus textos quinzenalmente, com aquele conjunto (invejável, direi, sabendo que você vai entender que é no bom sentido) que é a sua marca inconfundível: concisão, português perfeito, memória impecável, charme em cada linha (técnica ou memorialista) e, sobretudo, a sua clareza, honesta e superior, como sempre – e que nos faz ver cada cena, cada momento descrito: estou, de camarote em minha memória, vendo você entrar na Rinaldi e sair com o seu buquê de strelitzas (só você para citar uma flor tão singular – no geral, você sabe, seria, no máximo, umas rosas e olhe lá). Parabéns e sucesso em seu mais novo espaço, uma trincheira de bom gosto e classe, que passo a imprimir a partir de agora, para ler sempre.

  2. Evandro Correia disse:

    Aznavour é mesmo maravilhoso. E essa coluna é muito boa, parabéns!

  3. Gilberto Brasil disse:

    Zuza viveu e conviveu muito de perto com o cast da Record , no auge dela. Dos veteranos Elizete , Ciro Monteiro, Aracy, Ataulfo, Isaurinha , etc , etc aos entao novatos Elis, Edu Lobo, Chico, Nara , etc , etc. Enfim , todo mundo que contava na MPB , naquele momento. Ele tem muitas estórias prá contar. Até que apareça outro melhor que ele , Zuza continua sendo o cara. Não e saudosismo. É um pedaço importante da nossa história cultural.

  4. guta soares disse:

    zuza descreve o show de aznavour com a mesma singeleza dos gestos das mãos do grande e imortal cantor. o baixinho de 1,60 é um gigante no palco. só uma pena: tudo isso ser em paris… parabéns pelo texto. muito bom!

  5. federica disse:

    Concordo com Guta, com Gilberto, Evandro e Fernando. Cada qual sabe o que é bom. O texto, o Zuza, o Aznavour, a coluna…Agora entendo!…porque não pode comparecer ao seu posto no Tim Festival-Rio de Janeiro!!!
    Acabo de verificar que voce estava no Palais du Congrès de Paris !!!
    Brincadeira gente! O Zuza é esse deslumbramento mesmo…Bom pra nós que podemos tê-lo não importando onde esteja no momento.Beijos e obrigada.

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