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A morte do leão Cecil

Não se chora por leões no Zimbábue

Segundo um artigo polêmico do zimbabuano Goodwell Nzou, a notícia da morte do leão Cecil foi um alívio

Não se chora por leões no Zimbábue
Ao perceber que o assassino do leão estava sendo pintado como o vilão da história, o autor diz ter enfrentado a mais gritante contradição cultural que experimentou durante cinco anos estudando nos Estados Unidos (Reprodução/PETA)

A morte do leão Cecil, atração turística do Zimbábue, causou comoção popular, principalmente, nos Estados Unidos. O leão de 13 anos usava um colar GPS, porque estava sendo estudado por uma universidade. A morte do animal foi atribuída ao dentista americano e premiado caçador Walter Palmer. Mais duas pessoas envolvidas na caçada tiveram de comparecer a um tribunal do país africano sob acusação de caça furtiva.

De acordo com a Autoridade de Proteção da Vida Silvestre e dos Parques Nacionais, a caça é uma fonte importante de renda e gera quase US$ 40 milhões por ano ao Zimbábue, apesar de ser criticada por muitos.

No entanto, o zimbabuano Goodwell Nzou escreveu um artigo polêmico no New York Times falando sobre o alívio que sentiu quando ouviu falar sobre a morte do leão. Ele disse que o menino da aldeia que existe dentro dele vibrou ao saber da notícia: menos um leão para ameaçar famílias como a sua.

Ao perceber que o assassino do leão estava sendo pintado como o vilão da história, o autor diz ter enfrentado a mais gritante contradição cultural que experimentou durante cinco anos estudando nos Estados Unidos. “Será que todos aqueles americanos que assinam petições entendem que os leões realmente matam pessoas? Que toda a conversa sobre Cecil ser ‘amado’ ou ser um ‘favorito’ era uma propaganda exagerada da mídia?”, escreveu.

Ele conta que em sua aldeia no Zimbábue, que é cercada por áreas de conservação de vida selvagem, nenhum leão jamais foi amado ou recebeu um apelido carinhoso. Afinal, eles são objetos de terror. Quando tinha nove anos, um leão rondava aldeias perto de sua casa. Depois de ter matado algumas galinhas, cabras e uma vaca, finalmente, sua aldeia ficou em alerta. Uma semana depois, sua mãe contou que seu tio tinha sido atacado, mas conseguiu escapar.

Quando o leão finalmente foi morto, ninguém se importou se o seu assassino era uma pessoa local ou um caçador de troféus de caça, se foi uma invasão ou morto legalmente. Eles dançaram e cantaram pela derrota da fera. Recentemente, um menino de 14 anos de idade, em uma aldeia não muito longe da sua, não teve tanta sorte. Ele foi atacado por um leão enquanto dormia e morreu.

Nzou também explica que a morte de Cecil não tem atraído muito mais simpatia de zimbabuanos urbanos, apesar de eles viverem sem o perigo da vida selvagem. Poucos já viram um leão, uma vez que as caçadas são um luxo que residentes de um país com um rendimento médio mensal abaixo de US $ 150 não podem pagar.

Segundo o autor, os animais selvagens têm um significado quase místico para os zimbabuanos. Eles pertencem a clãs, e cada clã tem um totem que representa o animal do seu antepassado mitológico. O totem do clã do autor é representado pelo elefante, e por tradição, ele não pode comer carne de elefante, já que seria como comer a carne de um parente. Mas esse respeito por esses animais nunca os impediu de caçá-los ou que eles fossem caçados por pessoas de fora. Afinal, Nzou está familiarizado com animais perigosos, já que perdeu sua perna direita por conta de uma picada de cobra aos 11 anos.

A tendência americana de romantizar animais com nomes e hashtags se transformou em uma situação comum, ao mesmo tempo que durante uma década, 800 leões foram legalmente mortos por estrangeiros ricos. Enquanto isso, políticos zimbabuanos estão acusando os Estados Unidos de encenar o assassinato de Cecil como um “truque” para constranger o país africano. Já os americanos, que segundo Nzou mal conseguem encontrar o Zimbábue em um mapa, estão aplaudindo a demanda da nação para a extradição do dentista, sem saber que um elefante bebê teria sido abatido para o mais recente banquete de aniversário do presidente do Zimbábue.

Segundo ele, os zimbabuanos estão se perguntando por que os americanos se preocupam mais com os animais africanos do que com os próprios africanos. Os Estados Unidos, portanto, não teriam o direito de dizer o que os zimbabuanos devem fazer com seus animais, já que eles mesmos permitiram que seus próprios leões da montanha fossem caçados até a quase extinção no leste dos Estados Unidos.

 

 

Fontes:
The New York Times-In Zimbabwe, We Don’t Cry for Lions
G1-Zimbábue adia julgamento do organizador da caça do leão Cecil
G1-Morte de Cecil pressiona EUA para proteção de leões africanos
G1-EUA abrem inquérito sobre morte do leão Cecil no Zimbábue

1 Opinião

  1. Gabriela disse:

    Achei muito interessante e importante a opinião de Nzou. Mas me irrita muito quando usam esse argumento contra ativistas: de que só se importam com os animais e não com os seres humanos. Uma coisa não anula a outra! Pelo contrário! Os maiores ativistas animais são também grandes humanitários! (Gary Yourofsky, por exemplo).
    E o caçador matou por esporte. Não foi pra proteger aldeia nenhuma.
    Mas para mim a hipocrisia real é que as mesmas pessoas que se comoveram tanto com a morte do leão e estão demonizando os caçadores são as que não dispensam um churrasco ou um hamburguer… e sabem muito bem que o animal que estão comendo sofreu bem mais no abatedouro do que os animais que são caçados.

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