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O bom e velho português: atacado por anglicismos e gerundismos

É a velha mania - não se sabe se imposta, espontânea ou de caráter adquirido - de usar palavras estrangeiras em vez do rico e vasto idioma

O bom e velho português: atacado por anglicismos e gerundismos
Não há dúvida de que os brasileiros adoram os estrangeirismos, principalmente os de origem inglesa (Foto: Pixabay)

Na televisão, um comercial com a voz de Antonio Fagundes nos ensina a levar uma vida mais ousada. O ator nos apresenta a expressão “Go” – o equivalente ao nosso “Vá” – como um passaporte para acabar com a mesmice de nossos dias. A preocupação com o vocábulo-novidade acaba desviando do principal objetivo: a fixação do nome do anunciante que pagou regiamente por aqueles 30 segundos de exposição. A peça publicitária é um tiro na água: o espectador esquece o nome do produto e se pergunta por que nossa palavrinha de duas letras não é suficiente para “ir” aonde quiser. A pronúncia de “go” gera outra confusão, uma vez que Fagundes não narra uma partida de futebol nem faz o comercial de uma empresa aérea.

É a velha mania – não se sabe se imposta, espontânea ou de caráter adquirido – de usar palavras estrangeiras em vez do rico e vasto idioma trazido por Cabral. Se o amigo leitor está preocupado com sua “performance”, o problema pode ser resolvido no Boston Medical Group. É só ligar para o “call center” e marcar um “check-up”. Se for mulher, basta uma ida ao Shopping Center, aproveitar as ofertas de uma “sale”, que é como chamam uma liquidação. Senão, um “personal trainer” ou mesmo um “personal stylist” podem ajudar no “upgrade”.

Professor que é uma referência quando o assunto é língua portuguesa – e também jurado do quadro “Soletrando”, do programa “Caldeirão do Huck”, Sérgio Nogueira acha que o uso de palavras estrangeiras é normal nas línguas vivas. “Chamamos a isso de empréstimo vocabular. Assim sendo, usarmos quimono (do japonês), chope (do alemão), estrogonofe (do russo), espaguete (do italiano), detalhe (do francês) ou futebol (do inglês) é perfeitamente aceitável. Não há dúvida de que os brasileiros adoram os estrangeirismos, principalmente os de origem inglesa: ‘designer’ é muito mais que um decorador; ‘know-how’ vale bem mais que o conhecimento; ‘coffee break’ é muito melhor que um simples intervalo para o café”, brinca.

Para o consultor de idiomas Eduardo Tetera, é possível que as pessoas achem mais “fashion” falar em inglês porque dá mais credibilidade. “É inerente a um povo cuja identidade cultural tem sido abafada por muitos anos. Tem mais crédito o idioma dominante no comércio mundial, ou é mais ‘chique’ se comunicar na língua do país que pode ditar normas de comportamento”, destaca.

Enfático e quase colérico defensor da língua, o gramático português Cândido de Figueiredo (1846-1925) era radicalmente contra as influências estrangeiras no idioma, fato que ficou patente em sua obra, intitulada “Estrangeirismos”. Há dez anos, tramita no Congresso Nacional projeto de lei do deputado federal Aldo Rebelo que dispõe sobre a promoção, proteção, defesa e o uso da língua portuguesa. O objetivo é evitar o bombardeio de expressões estrangeiras. Mas parece que o projeto deu um “pit stop”. Sérgio Nogueira também é defensor da língua portuguesa e acha que chegamos ao limite: “Os anglicismos se tornam chatos e inúteis. O problema não é o uso, e sim o abuso. Para que “printar” se posso imprimir? Por que “startar” se posso começar?”, sugere.

A mania fácil de falar difícil

Outra coisa que incomoda Sérgio Nogueira é o gerundismo – muito usado nos serviços de “telemarketing”. “O pior não é fato de ele vir ou não do inglês (de um tempo de verbo que não existe em português). O problema é a falta de objetividade e a sensação de ‘enrolação’, de falta de comprometimento. Quando alguém me diz que ‘vai estar resolvendo’ o problema, creio que seja uma forma educada de me dizer que ‘não tem jeito’. Perceba como a forma mais simples é mais incisiva: ‘Resolveremos o problema’. Nesse caso, o falante assumiu um compromisso, o que não ocorre com o gerundismo”. O professor aponta outras manias: “Outro incômodo são os modismos, tipo “a nível de”, “eu enquanto diretor”, “focado”, “fazer colocações”.

Sérgio Nogueira combate ainda a adoção de palavras de uso restrito, como fazem os advogados (com a devida vênia), jornalistas (pressionados pelo deadline) e policiais (quando os meliantes logram êxito): “Isso sempre representou a busca da superioridade intelectual. Há algumas categorias profissionais que não abrem mão desse hábito. É uma forma de reter o conhecimento e de valorizar o profissional. A eficácia da comunicação fica num segundo plano. Eduardo Tetera arremata, denunciando os segmentos da moda, das artes e economia: “Em tempos de crise financeira, termos como “subprime”, “leasing” e “spread” são mais sonoros. No dia-a-dia é também comum ouvir pronúncias como “over” e “hi-tech”, comenta.

É comum em palestras ou seminários alguém “passar a palavra” ao invés de dizer “vamos ouvir” fulano de tal. As pessoas não “dão” entrevistas, “concedem”. Um novo verbo que causa grande efeito e pode até arrancar aplausos é o inacreditável “oportunizar” – que não significa rigorosamente nada e nem está no dicionário. Mas dá o maior “feedback” quando dito de forma enfática.

Em tempo: momentos antes de ser enviada para o editor, a primeira versão deste texto foi apagada pelo “Word”. Este é um “remake”.

15 Opiniões

  1. Daniel disse:

    Inexiste dúvida em relação à preferência por termos anglicizados, principalmente quando a intenção é o eufemismo.
    Recentemente tive contato com o termo “home office” como proposta inovadora e (supostamente) vantajosa. Segundo a lógica de quem o adotou, “trabalhar em casa” não é de bom tom.
    Enquanto cursava arquitetura, ouvi professores gualdirem saliva ao brindarem com “close”, “upgrade”, “stand by”, “background”, “promoter”, “lounge”, “designer” (decorador, nunca!), “sketch”, “shaft”, “hall” etc.
    Além dos comandos em inglês “extend”, “offset” e “trim”, típicos de programas como AutoCAD, que acabam por substituir os nomes das técnicas de desenho feito à mão.
    A endorragia (gerundismo) é outro péssimo hábito que vitupera ouvidos sensíveis.
    Abunda a fauna que anda a atacar a última flor do Lácio.

  2. Klaus Röthig disse:

    Cinco anos após o artigo nota-se o acerto do colega de comentários, Markut. O gerundismo não vingou, pois não estava na boca da sociedade – embora fosse uma tentativa ignorante de busca de superioridade intelectual. No mais, sou da mesma opinião, a de que o tempo dirá se determinado termo vingará.
    Também concordo em parte com a Heloisa. O problema é que mesmo em inglês a palavra “design” não é precisamente “project”. Assim, há uma delicada diferença entre o projeto e o “design”. “Design” é (não apenas) o desenho de um projeto, no sentido de dar-lhe uma aparência mais agradável, ou prática, ou em voga. É o que faz a diferença entre, por exemplo, um liquidificador dos anos 1960 e um atual. Fundamentalmente não há diferenças entre ambos. O funcionamento é o mesmo, os botões são os mesmos, o motor é o mesmo, ou seja, em termos fundamentais de projeto, não há nenhum avanço tecnológico. Somente em termos de design.
    Isso me traz de volta ao cerne: embora chato algumas vezes, o estrangeirismos são necessários para cobrir alguma lacuna num idioma.
    Para ilustrar, como diríamos ‘avião’ sem estrangeirismo? Poderíamos usar construções como em alemão “Flugzeug”, que significa “coisa que voa”. Mas o que serve para o alemão, que permite a construção de novas palavras a partir de palavras existentes — e que, mesmo assim, prefere o termo “Telefon” a “Fernsprecher”(“falador distante”) –, não serve necessariamente para todos os idiomas.
    Mas só para isso. O resto é chatice.

  3. will alves disse:

    Excelente texto! Creio que alguns anglicismos sao “naturais” e totalmente aceitaveis por falta de uma palavra ou expressao melhor equivalente em língua portuguesa. Mas a maioria sao por puro “esnobismo”, como muito bem ressaltado no texto, buscando “superioridade”.
    Vivo em Europa há mais de uma década. E, em Portugal e Espanha quase, ou, rarissimas vezes, nao se usa. Em Portugal eles dizem ” o rato”, em vez de “mouse”, em Espanha “Centro Comercial”, em vez de Shopping Center, etc.

  4. Lavi disse:

    Diante dessa situação eu só tenho uma coisinha a dizer a estes desavisados: PAREM COM ISSO!

  5. Antonio Junior disse:

    Gostei do texto, mas não me conformo ainda com essas palavras invadindo o nosso dia a dia. Me da nojo ao ouvir essas palavras americanizadas. O pior é que a cada dia aumenta mais isso, até onde vamos chegar? Será que no futuro não vamos mais falar o nosso querido e velho Português?

  6. Luiz Leitão disse:

    Eu já fui mais radical em relação a anglicismos, mas hoje os aceito com moderação, embora evite usá-los.

    Verdade que as línguas vivas estão sempre se transformando, influenciando e sendo influenciadas; natural portanto, que a língua inglesa, sendo o idioma universal, seja mais absorvido. O inglês é sintético por natureza, o que é bom, mas muita gente ainda emprega termos estrangeiros por esnobismo, enquanto outras nem se dão conta do hábito, automatizado.

    Mas, para além dos termos estrangeiros, implico com a mania de dificultar o uso do português: por que falar inicializar, se iniciar é mais curto e bonito?

    Dizer visualizar tira a beleza do texto, quando ver cai bem melhor.É a mania do “izar”. Minimizar (minorar, reduzir), otimizar (melhorar), maximizar (aumentar).

    Eduardo Martin morreu ano passado. Ele escreveu o manual de Redação e estilo do Estadão. No livro, Martins dizia que há sempre uma palavra mais adequada para transmitir a informação, e deve-se fugir dos modismos, clichês.

    Concordo com ele, a originalidade condena expressões desgastadas como “pontapé inicial”, “fechar com chave de ouro”, e outras.

    Para não falar nas redundâncias: comparecer pessoalmente, meu amigo pessoal, foram todos unânimes.

    Termino o comentário com minha queixa predileta: não vi, até hoje, ou não me lembro de ter visto, a menção correta, em jornais e revistas ao termo “cilindrada”. A turma toda diz: “Uma moto de 400 cilindradas”.

    Cilindrada não é unidade de medida de volume, que no caso de motores, é o cm3, ou c.c. Então, o certo é dizer: uma moto com 400 cc de cilindrada, ou uma moto de 400 cc, ou cm3.

    Pois a “responsa” dos jornais de divulgar o uso correto do idioma é maior que a de outros veículos escritos dada a sua circulação, muito mais ampla.

    P.S.: “Reformada” nossa língua, amaldiçoo a confusão estabelecida no emprego do hífen, com as exceções, uma complicação danada da qual não dei conta, ainda.

    Abraços.

  7. Antonio Campos Monteiro Neto disse:

    Não só de estrangeirismos e gerundismos consiste o assassinato da língua portuguesa. Os jornais são pródigos em noticiar tragédias com “vítimas fatais”. Ora, fatal = aquilo que mata. A vítima morre, e portanto não pode ser fatal.

    Outras impropriedades bastante cultuadas:

    Elo de ligação
    Acabamento final
    Certeza absoluta
    Nos dias 2 e 3, inclusive
    Prêmio extra
    Juntamente com
    Em caráter esporádico
    Expressamente proibido
    Terminantemente proibido
    Duas metades iguais
    Destaque excepcional
    Sintomas indicativos
    Há anos atrás
    Vereador da cidade
    Relações bilaterais entre Brasil e Argentina
    Outra alternativa
    Minuciosos detalhes
    Interromper de uma vez
    Anexar junto
    De sua livre escolha
    Superavit positivo
    Todos foram unânimes
    A seu critério pessoal
    Conviver junto com
    Encarar de frente
    Fato real
    Multidão de pessoas
    Amanhecer o dia
    Nova criação
    Frequentar constantemente
    Empréstimo temporário
    Compartilhar conosco
    Surpresa inesperada
    Completamente vazio
    Colocar em seu respectivo lugar
    Escolha opcional
    Continua permanecendo
    Atrás da retaguarda
    Planejar antecipadamente
    Repetir de novo
    Sentido significativo
    Voltar atrás
    Abertura inaugural
    Pode possivelmente ocorrer
    A partir de agora
    Última versão definitiva
    Gritar bem alto
    Comparecer em pessoa
    Colaborar com uma ajuda
    Demasiado excessivo
    Abusar demais
    Exceder em muito
    Preconceito intolerante
    Medidas extremas em último caso.

    Se reconhecer alguma, não pense duas vezes: elimine-a do seu dicionário.

  8. Leonardo Marcondes disse:

    Sou professor de redação e, ainda assim, me percebi em situações desconcertantes – ainda mais depois da leitura deste texto.
    (Mas no Brasil de hoje, a língua e seus aspectos formais são desprezados. O que importa, agora, definitivamente, é a rapidez da comunicação. Os código ficam para os chatos e velhos desocupados.)
    Tentarei amenizar os vícios, ficarei mais atento.

  9. Markut disse:

    @Arlon Borges,
    caro Arlon
    Não sei responder à sua pergunta.
    No meu entender, o tempo e o uso se incumbirão de respondê-la.
    Mas ,creio que delivery é usada em alguns casos (poucos, pelo menos aquí em São Paulo) e que a palavra entrega, ainda predomina.
    Delivery, sale, off, etc. são inevitaveis e desagradaveis modismos.
    Volto a lhe afirmar o que penso: o tempo e o uso é que poderão dar a resposta.

  10. heloisa disse:

    Markut disse tudo.
    Discordo de Sergio Nogueira somente quando ele diz que “designer” é muito mais que decorador. São profissões diferentes: O “designer” projeta objetos e o decorador arranja objetos diversos num determinado espaço interno. O decorador não projeta objetos e o designer não articula espacialmente objetos diversos. “Designer” significa projetista. A correta tradução de “design” não é desenho mas sim projeto. “To design” não é desenhar é sim projetar. Desenhar em ingles é “to draw”. Também em espanhol “diseñar” é projetar, e desenhar é “dibujar”. O português é mais pobre que o ingles e o espanhol nesses assuntos.

  11. tuttygualberto disse:

    Concordo com você “em gênero, número e grau”.
    Mas a melhor idéia até hoje apresentada é a do Policarpo Quaresma de Lima Barreto. A substituição do português pelo tupi-guarani, a verdadeira língua do Brasil. hehehe!

    Obs: “a nível de” é de matar.

  12. Arlon Borges disse:

    Eu gostaria de saber do Markut se ele acha uma evolução positiva passarmos a chamar “entrega” de “delivery”.

  13. Markut disse:

    De todas as ranzinices de um Cândido de Figueiredo, ontem, ou de um Aldo Rabelo, hoje, o que ressalta é que eles insistem em ignorar a essência da linguagem, como um organismo vivo, permanentemente em evolução.
    Tanto os galicismos de ontem como os anglicismos de hoje, são fruto da inevitavel influência cultural ,ou econômica de determinados paises,com influências marcantes, mas não únicas, no caso a França e, após, a Inglaterra e os Estados Unidos.
    Amanhã, quem será:a China, a Rússia?
    O fato é que a linguagem, maravilhoso instrumento da comunicação humana, não pode ficar engessada.
    Os próprios gramáticos não conseguem evitar o reconhecimento, através da história, dessa constante transformação.
    Quanto ao uso e abuso dos estrangeirismos, eles são inevitaveis e a sua transitoriedade , ou não, será regulada espontaneamente, pelo uso.
    Veja-se o caso do gerundismo: é um péssimo desacerto, que não vinga, porque não está na boca da sociedade.
    É inutil lutar contra o bendito tsunami das línguas, dialetos e sotaques.
    As diferenças são enriquecedoras, pois permitem a desejavel multiplicidade das percepções.
    Em resumo: viva a Babel.

  14. Alvaro Spadim disse:

    Por vivermos numa época em que a forte influência das economias transforma rapidamente hábitos e atitudes locais, sobremaneira nas grandes capitais, este assunto torna-se ainda mais importante.
    O brasileiro vive sob o fantasma de pertencer a um eterno país colônia e talvez por isso não dê o devido valor a sua própria formação cultural. E mais, ao não perceber que no aumento da aceitação às imposições culturais estrangeiras está à negação de seu próprios valores o brasileiro favorece ao desaparecimento de sua identidade. É preciso repensar esta situação de dentro para fora, ou seja, de dentro de nosso sistema educacional para a sociedade como um todo.

  15. Dorival Silva disse:

    O Claudio Carneiro tem razão: precisamos defender nosso português contra a ignorância dos marqueteiros e contra a indigência mental dos que pensam que a língua inglesa é melhor do que a nossa.

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