Início » Vida » Comportamento » O pedestre kamikaze
trânsito

O pedestre kamikaze

Todos nós, pedestres inveterados ou ocasionais, já passamos por grandes apertos no trânsito

O pedestre kamikaze
No Rio de Janeiro atravessar a rua é uma aventura digna da série “Missão Impossível” (Foto: Reprodução/Internet)

Quem não se lembra da velha piada que circulava nos  tempos em que as viagens ao exterior não eram tão corriqueiras? A dos dois amigos que estão em Nova York e se telefonam para combinar o encontro:

“Você, Pedro, que conhece bem a cidade, me diz onde podemos nos encontrar.”

            “Muito fácil, Marcelo, vamos marcar na esquina da rua Walk com a rua Don’t Walk”.

Não há turista brasileiro hoje que pague esse mico. O papo agora é assim:

            “OK, Paulinho, te esperamos na esquina sudeste da 46 com a 5a”.

Com toda essa sofisticação recém adquirida, entretanto, a esquina continua sendo a da Walk com Don’t Walk. Só que agora, por causa do turismo global, as palavras foram substituídas pelos bonequinhos verde assanhado e vermelho paradinho. E todo o mundo entende e respeita, pedestres e motoristas.

Em Berlim, os bonequinhos chamados Ampelmänchen, homenzinhos do sinal, têm toda uma longa história e viraram atração turística – há até, no Hackescher Markt, um bloco de edificios antigos lindamente  recuperados e transformados em shopping center na antiga Berlim Oriental, uma loja Ampelmann que vende uma porção de lembrancinhas, sacolas, mochilas, camisetas, chaveiros, e até uns brincos engraçadinhos, um Ampelmann verde e um vermelho para orelhas espertas.

Em Paris, nem precisa de sinal. Os “clous” são sagrados, mesmo tendo desaparecido há muito tempo, substituídos por zebras pintadas, uma pena pois os pregos gigantes no pavimento tinham um charme todo especial. Pouco importa, no entanto, que sejam pregos ou faixas, ninguém se atreve a ignorá-los. Um pé na faixa é suficiente para provocar a parada dos veículos e a travessia do pedestre, imperial.

Até Los Angeles, cidade em que o pedestre é uma avis rara, acaba de inaugurar um novo sistema de travessia em diagonal. Os sinais fecham simultâneamente em todas as  ruas do cruzamento para que os transeuntes possam atravessar sem fazer o tradicional L.

Depois dessa volta ao mundo a pé, chegamos ao Rio de Janeiro, onde o pedestre é, por força das circunstâncias, um kamikaze. A economia de energia há muito atingiu o sistema de trânsito, tendo como resultado uma extrema parcimônia com sinais. Não que os que existem sejam muito eficazes. A maioria dos motoristas cariocas é daltônica, apesar dos exames de vista periódicos impostos pelo Detran. Lembram um pouco a história do motorista de táxi argentino que, ao furar vários sinais vermelhos, leva seu passageiro a protestar e responde: “pero, señor, meu irmão e eu nunca paramos em sinal vermelho!”. No que ele, diante de um sinal verde, dá uma brusca pisada no freio e vai logo explicando: “Isso é se por acaso estiver passando meu irmão….”

Outra grande economia da prefeitura é com tinta branca. A maioria das “zebras” (estou falando de faixas pintadas no chão, não de seres humanos…) está completamente desbotada, o que, é verdade,  não faz muita diferença pois mesmo as que ainda estão visíveis são mero enfeite, ou até, em muitos casos, local de estacionamento Em todos os cruzamentos, ou quase, atravessar a rua é uma aventura digna da série “Missão Impossível”. Fecha o sinal num sentido, abre no outro, e os carros arrancam e dobram as esquinas em velocidade supersônica, pouco se importando com mães empurrando carrinhos, idosos com bengalas ou andadores, crianças de bicicleta  – ninguém escapa. E não há como evitar o perigo – em cruzamento algum existe uma sinalização que favoreça o pedestre que, além de arriscar a vida, ainda é, em muitos casos, interpelado pelo motorista irado cujo caminho ousa cruzar.

Todos nós, pedestres inveterados ou ocasionais, já passamos por grandes apertos no trânsito. No outro dia, foi meu marido que quase me deixa viúva, por conta de um ônibus afoito no centro da cidade. Eu mesma surfo diariamente na Raul Pompéia, esquina de Joaquim Nabuco. Acabamos com mais jogo de cintura do que os mais exímios toreros. Aposto que nem El Cordobés, nem Jesulín de Ubrique, nem Manzanares tem perícia igual à do pedestre carioca.

Não há dúvida de que assaltos, arrastões e trombadinhas são muito difíceis de controlar. Mas  obrigar o pedestre a enfrentar mais esse perigo cada vez que põe o pé na rua é simples descaso e incompetência.  A Lei Seca, com sua dose de paranoia,  equiparando o pinguço à senhora que comeu uma cereja ao licor, demonstrou que é possível educar os motoristas. Não seria hora de facilitar e proteger a vida do pedestre? Com a palavra a Prefeitura.

*Marilu Valente é  economista e diplomata.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *