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Chile

O possível (e provável) regresso de Michelle Bachelet à presidência

Radicada nos EUA, ela alcança altos índices de intenção de voto mesmo sem confirmar candidatura

O possível (e provável) regresso de Michelle Bachelet à presidência
Ex-presidente é o nome mais cotado para o pleito de 2013 (Reprodução/Internet)

Qualquer conversa política com membros do governo de Sebastián Piñera, do Parlamento e dos partidos políticos chilenos convergem para uma pessoa que não vive há quase dois anos no país e mantém silêncio sobre a situação local: a ex-presidente Michelle Bachelet, que está morando em Nova York, onde atualmente é diretora-executiva da ONU Mulheres. Ela é um dos nomes mais cotados para a próxima eleição do Chile, que ocorre no fim do ano que vem. Mas, Bachelet só deve definir a sua participação entre novembro e dezembro, embora a liderança nas pesquisas de intenção de voto a empurre a participar da disputa.

Segundo a última pesquisa, realizada pelo Centro de Estudos Públicos (CEP) do Chile e divulgada no último dia 21, há uma forte preferência por um segundo mandato de Bachelet. No estudo, diante da pergunta “Quem você gostaria que fosse o próximo presidente?”, a socialista obteve 50% dos votos, seguida de longe pelo atual ministro das Obras Públicas, Laurence Golborne, com 9%. O cineasta Marco-Enríquez Ominami, do Partido Progressista, aparece em terceiro, com 4%. Já em relação a pergunta “Quem você acha que vai ser o próximo presidente?”, Bachelet lidera com 46%, frente aos 14% de Golborne.

A ex-mandatária, no entanto, ainda não confirmou seu nome na corrida presidencial. Em dezembro passado, em uma de suas poucas visitas públicas ao Chile, quando perguntada sobre o assunto, disse secamente: “Eu não ando com terno de candidata”. Mas, para um dos colaboradores mais próximos de Bachelet, com os prazos mais apertados e o grande apoio público, as possibilidades de ela recusar participar do pleito são praticamente nulas.

Segundo o professor do curso de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Mario Sacchi, no entanto, o resultado ainda não está tão bem definido. Na sua avaliação, o cenário chileno está totalmente tumultuado pelas greves e manifestações diárias, o que torna difícil saber o que poderá acontecer na eleição no final de 2013: “Por enquanto, são conjecturas futuras”.

O professor de Relações Internacionais do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) Lier Pires também avalia o cenário político do Chile como incerto, apesar de acreditar em “um futuro e cada vez mais provável governo socialista”. Segundo ele, a realidade chilena parece absolutamente contraditória. Por um lado, o governo do presidente Piñera vem mantendo um crescimento econômico bastante sólido, hoje na casa de 5,5% ao ano, conforme dados recentemente divulgados pelo CEP. Por outro, enfrenta o maior movimento grevista das duas últimas décadas e vê sua popularidade cair para patamares inferiores a 30%. O que está acontecendo então?

“O Chile vive uma profunda crise social cujo elemento mais visível é o sistema educacional. Estruturado sobre bases privadas ainda no governo Pinochet, esse sistema é visto pela juventude chilena como injusto, elitista e excludente. Revolucioná-lo é muito difícil pois significa enfrentar a herança neoconservadora que, por décadas, tem sido tanto o pilar do crescimento econômico do país quanto a razão essencial do aprofundamento de suas históricas desigualdades sociais”, afirma Pires.

No Chile, não se sabe praticamente nada sobre a vida da ex-presidente nos Estados Unidos, apesar do grande interesse despertado por sua figura. Depois de um governo de quatro anos sem conflitos graves, Bachelet deixou o cargo em março de 2010 com a popularidade de 84%. A partir de então, tomou a decisão de fugir da situação política local, aceitou a nomeação na ONU Mulheres e se estabeleceu em Nova York sozinha, sem a companhia de sua mãe de 85 anos e de seus três filhos.

Mas, como uma pessoa que está fora do dia a dia do país pode se manter tão popular? Para Pires, há vários motivos para que a força política de Michelle Bachelet se mantenha em alta. Em primeiro lugar, há uma razão histórica: ela é filha do mítico general Alberto Bachelet, militar que se manteve fiel a Salvador Allende quando, em 1973, o também general Augusto Pinochet liderou o golpe que extirpou o presidente socialista do Palácio La Moneda e implantou a ditadura. Além disso, lembra o especialista, Michelle também faz parte das mais de 30 mil pessoas que foram torturadas e presas durante o regime Pinochet:

“Já do ponto de vista político, importa lembrar que ela foi a primeira mulher chilena a ascender à presidência da república. Nessa condição, realizou um bom governo, enfrentando com coragem importantes cataclismos naturais, como o terremoto de 2010, e mantendo intacta sua simpatia e carisma naturais. Por tudo isso, e também pelo trabalho que vem desempenhando junto às Nações Unidas, sua popularidade está não apenas preservada, mas também renovada”.

Se for eleita, na análise de Pires, a considerar as aspirações que hoje motivam os estudantes chilenos, Bachelet deverá enfrentar as questões sociais sensíveis, como uma educação pública, gratuita e de qualidade, com a preservação do crescimento econômico. “Em outras palavras, um futuro governo socialista deverá encontrar o ponto de equilíbrio entre Estado e mercado, entre crescimento econômico e desenvolvimento social, sem o qual nenhum governo democrático contemporâneo pode subsistir”.

Os dois professores concordam que a eleição de Bachelet seria positiva para o Brasil. Para Mario Sacchi, “ela é uma profissional séria e sua nomeação seria muito importante para nossas relações comerciais e políticas em nível regional”. Já na avaliação de Pires, as relações Brasil-Chile dependem substancialmente dos esforços brasileiros no sentido de aprofundar o processo de integração com seus vizinhos para ampliar sua influência local e global. “A agenda entre os dois países deve buscar adensar as relações recíprocas em três grandes campos temáticos: comércio, finanças e política regional. Só assim questões sensíveis como direitos humanos, desenvolvimento e a própria adesão do Chile ao Mercosul poderão encontrar bases sólidas para avançar”.

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