Início » Opinião » Artigos » Quando a prostituição não é da sua conta
Privacidade

Quando a prostituição não é da sua conta

Laurie Shrage, professora de filosofia, escreve sua opinião sobre o assunto no 'New York Times'

Quando a prostituição não é da sua conta
A troca de serviços sexuais para o ganho monetário deveria ter garantias de privacidade ou transparência? (Foto: Pixabay)

Quando sexo e comércio se encontram, as regras relativas à privacidade e à transparência rapidamente ficam obscuras. Para o bem maior, em operações de mercado a privacidade é limitada de uma forma que seria inaceitável no que diz respeito à atividade sexual privada. Então, trocar sexo por dinheiro deveria ter garantias de privacidade ou de transparência?

Quando se trata de sexo, as pessoas geralmente esperam poder tomar decisões sobre suas atividades sexuais e relacionamentos sem qualquer interferência. Já no caso de atividades de comércio, é esperado que a troca esteja sujeita a regras claras de mercado e à transparência. O comércio tipicamente ocorre em locais públicos, e muitas vezes queremos que as transações de mercado sejam regulamentadas por terceiros.

Quando parceiros sexuais trocam dinheiro e presentes entre si, geralmente isto é visto como uma troca privada. No entanto, o que acontece quando uma pessoa tem vários parceiros sexuais, e regularmente recebe dinheiro e presentes de cada um deles?

Dois pesos, duas medidas

Tradicionalmente, uma mulher que teve mais de um parceiro sexual de quem recebeu diversas formas de apoio material era suscetível de ser considerada uma “mulher pública”, isto é, uma prostituta ou profissional do sexo. Embora historicamente tenha havido uma tolerância social significativa para os homens que têm e suportam várias amantes, a desaprovação moral para as mulheres que têm múltiplos amantes resultou em leis pelas quais estas mulheres podem ser punidas por prostituição.

Ter múltiplos parceiros de quem se recebe apoio monetário não é o mesmo que dirigir um bordel. No entanto, pode haver uma linha tênue entre estes tipos de atividade. Por exemplo, uma pessoa que tem vários amantes que a apoiam economicamente tem direito à privacidade em relação à sua vida sexual?

Hoje em dia, algumas mulheres jovens optam por procurar homens, conhecidos como “sugar daddies”, que possam ajudá-las a pagar a sua mensalidade da faculdade e seus custos de vida, usando sites de namoro online. Em troca, as mulheres oferecem companheirismo e outras formas de intimidade a estes homens. As atividades dessas mulheres devem ser tratadas como uma forma de prostituição? Casais de namorados muitas vezes trocam dinheiro e presentes. No entanto, essas trocas de dinheiro não transformam seus relacionamentos em transações comerciais.

Além disso, o fato de o Estado deixar de perseguir estas pessoas não quer dizer que a população deva tolerar pessoas fazendo sexo em carros, nas ruas ou em outros locais públicos. Em uma sociedade democrática liberal, o direito fundamental à privacidade e à igualdade de tratamento perante a lei deve proteger as pessoas desde que elas não prejudiquem os outros nem sejam um incômodo público.

Este modo de pensar em relação a atividades sexuais privadas está alinhado com as políticas da Grã-Bretanha e de outros países que adotaram o modelo britânico, onde proporcionar sexo por dinheiro e oferecer dinheiro por sexo não são crimes, desde que estas atividades aconteçam em locais privados. Este é um modelo diferente do sueco, por exemplo, que criminaliza oferecer dinheiro por sexo, ou o “modelo de redução de danos” holandês, que permite e regula estabelecimentos comerciais de sexo.

Embora as pessoas possam acreditar que fazer sexo por dinheiro não é nem sábio, nem bom, sociedades democráticas e livres agora permitem que adultos, casados ou não, façam as suas próprias escolhas sobre por que e com quem ter relações sexuais.

 

Fontes:
The New York Times-When Prostitution Is Nobody’s Business

3 Opiniões

  1. André Luiz D. Queiroz disse:

    “ou atrocidades” = “outras atrocidades”…

  2. André Luiz D. Queiroz disse:

    Não conheço as obras dos filósofos/cientistas citados, mas faço um contraponto: as sociedades islâmicas em geral são extremamente repressoras em relação à sexualidade, e, via de regra, intolerantes com a prostituição. Daí temos essa aberração chamada “Estado Islâmico”, que entre ou atrocidades pratica a venda de escravas sexuais (cinicamente chamadas de ‘esposas’). Isso pra mim é muito mais barbárie do que a descriminalização do prostituição.
    Sejamos realistas: enquanto houver quem esteja disposto a comprar prazer sexual, haverá quem aceite vender! Então, que se legalize! Eu penso assim.

  3. Ludwig Von Drake disse:

    Civilização é sinônimo de interdição sexual, Reich e Freud explicam isso; mas é claro que não há consenso. De outro modo, Immanuel Kant diria que uma conduta só pode ser socialmente aceitável se todos puderem praticá-la igualmente. É possível liberar geral sem retornar à barbárie?

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *