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Sobre apertos de mão duvidosos e alianças espúrias

A política brasileira ainda não chegou ao século XXI

Sobre apertos de mão duvidosos e alianças espúrias
Wagner Moura, Marcelo Freixo e Marcelo Yuka no lançamento da candidatura do PSOL à prefeitura do Rio (Gustavo Stephan/Ag. O Globo)

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Em sua coluna semanal, meu amigo e nobre colega de Opinião & Notícia, Bolívar Torres, fez pouco caso do tão falado aperto de mãos entre Lula e Paulo Maluf, afirmando que há muito o PT era um partido como os outros, e que, portanto, uma aliança com o ex-prefeito paulistano procurado pela Interpol não deveria surpreender ninguém, especialmente depois que Lula já havia se aproximado de antigos desafetos como José Sarney e Fernando Collor de Mello. No dia anterior, Claudio Schamis, que semanalmente sacia a sede dos vorazes antipetistas que se amontoam na nossa seção de comentários, comparara o ato de Lula e do PT à prostituição. Talvez os maias estivessem certos e o fim do mundo realmente esteja se aproximando, mas pela primeira vez me peguei concordando mais com o Schamis do que com o Bolívar.

Dez dias antes, o blog de Reinaldo Azevedo na Veja trazia um artigo intitulado As bobagens monumentais de Marcelo Freixo, o novo queridinho dos socialistas de Copacabana, Ipanema e Leblon, no qual o raivoso conservador criticou a postura do candidato do PSOL à prefeitura do Rio de Janeiro. O motivo para tamanha fúria foi o fato de Freixo ter dito que sua campanha tentaria repetir os moldes dos protestos da Primavera Árabe, que tiveram grande participação da juventude nas redes sociais. Freixo também declarou que, chegando a segundo turno, não faria “alianças espúrias”, e buscaria “alianças com a sociedade”.

Você pode gostar ou não da Veja. Você pode gostar ou não de Marcelo Freixo. Você pode gostar ou não de Lula e Maluf. Muitos adoram, e muitos odeiam. Mas de onde eu venho, se um candidato – que até hoje vive sob esquema de proteção por sua atividade contra o crime organizado, e que terá cerca de um minuto nos programas eleitorais – diz que se recusa a fazer “alianças espúrias”, ele merece aplausos independentemente de sua ideologia, e não a avalanche de pedradas que Freixo recebeu da Veja.

Tratá-lo como queridinho dos socialistas da Zona Sul (leia-se, de gente apegada a valores esquerdistas no conforto de seus luxuosos apartamentos) é se esquecer de que sua atuação na CPI das Milícias visava proteger gente oprimida na Zona Oeste, certamente uma área da cidade em que não vivem os leitores da Veja (salvo pelos moradores da Barra da Tijuca, uma espécie de Flórida carioca, completamente fora de sintonia com o resto da região). Apresentar os resultados da Primavera Árabe – tiranias que agora se tornaram tiranias legitimadas pelo voto – é no mínimo ridículo, especialmente porque o próprio artigo deixa bem claro que o candidato falava sobre a mobilização da juventude nas redes sociais, algo que o PSDB quis emplacar na última eleição presidencial, e não conseguiu.

Mas Azevedo vai mais longe. Ele ironiza a decisão de evitar as alianças espúrias. “Aliança só com o povo! Huuummm… Digam-me um só ditador que não tenha tido essa ideia primeiro”. Ora, a aliança de um governante deve sim ser com o povo que ele governa, e não com os burocratas do cenário político. Na visão do blogueiro da Veja, Freixo estaria pedindo licença para ser um ditador municipal ou para conduzir o Rio ao caos e à paralisia. Mas não há na fala do deputado qualquer espécie de discurso “contra tudo e contra todos”, e sim uma posição firme de não comprometer os ideais sob o quais sua candidatura foi lançada. O apoio do ator Wagner Moura à candidatura também é ironizado, já que um dos personagens de Tropa de Elite 2 é inspirado em Freixo. Para Azevedo, o segundo filme conseguiu descaracterizar tudo o que havia de bom no primeiro, então eu deduzo que ele preferia ver o capitão Nascimento colocando os traficantes favelados “no saco”, e ameaçando empalá-los com cabos de vassoura, do que vê-lo combatendo a nefasta relação do poder público com as milícias.

Sobram críticas ao PSOL, usando como exemplo o desligamento de Heloísa Helena e as críticas ao partido feitas pelo senador amapaense Randolfe Rodrigues (que disse sim que o PSOL deve ser um partido preparado para dialogar com as massas e não apenas consigo mesmo, mas que não afirmou – ao contrário do que publicou a versão online do jornal carioca O Globo – que existem setores fascistas dentro do partido). E o PSOL é criticável e admirável justamente por isso: por ser, talvez excessivamente, apegado às velhas ideologias, e pouco disposto a cruzar as linhas que muitos eleitores do PT acham que Lula cruzou ao se aliar a seus desafetos.

Marcelo Freixo não é o super-herói que seus correligionários acreditam que ele seja. Mas é visto até mesmo por seus adversários como um político sério, e no cenário atual – onde homens de terno vendem a mãe por uma nota de R$ 100 – é alguém disposto a não poluir sua candidatura com alianças com figuras duvidosas. É importante lembrar que a disputa conta ainda com a temida aliança entre Rodrigo Maia e Clarissa Garotinho (sobrenomes que trazem calafrios a boa parte do eleitorado carioca), e o tucano Otávio Leite. Ele talvez nem chegue ao segundo turno. Eduardo Paes, o atual prefeito, que defendeu no palanque os mesmos milicianos que Freixo combateu, lidera uma coligação de nada menos que 18 partidos. O discurso de Freixo e algumas de suas escolhas (como a de colocar o músico Marcelo Yuka como seu vice) são perfeitamente questionáveis. Já a decisão de não corromper sua candidatura não é.

Amigos meus, eleitores assumidos de Freixo, comemoraram o artigo de Azevedo, afirmando que a popularidade do deputado anda causando temores na direita. Não acho que seja o caso, embora esteja bem claro que o medo é o grande instrumento a ser usado aqui. Um exemplo claro disso é que mesmo com o PT diariamente dando de bandeja motivos para as mais ferozes críticas, é quase impossível não esbarrar com comentários que associam o governo corrupto do Partido dos Trabalhadores a sei lá quantos mil mortos em Cuba, à ameaça de uma ditadura comunista e a uma série de bobagens repetidas incessantemente por aqueles que culpam o atual governo por qualquer unha encravada que os aflija. Mesmo com a abundância de motivos para reclamar, os antiesquerdistas ainda baseiam seus discursos nos bichos papões da Guerra Fria, o que só prova que – tanto de um lado quanto do outro – a política brasileira ainda não chegou ao século XXI.

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16 Opiniões

  1. Anália disse:

    Senhor Felipe,

    seu artigo é um alerta para o povo do Rio de Janeiro. Precisamos ter discernimento para separar o joio do trigo. Politico é tudo igual. É o jargão de maior utilização hoje pelo brasileiro.
    Não estamos mesmo no século XXI, paramos no tempo e no espaço, mas o brasileiro mudou, está mais esperto, o problema é que não temos muitas opções e, com isso, a escória faz a festa.

    Parabéns,

    gostei muito do seu texto.

    Análi

  2. helo disse:

    Tão alentador lembrar que nem todos os políticos são maus, que existem os íntegros como Marcelo Freixo. Parodiando Calvino, é necessário tanto na vida quanto na política, manter o olhar atento para ver, dentro do inferno que nos rodeia, o que não é inferno. As desilusões com os homens no poder me fazem muitas vezes focar nos malfeitos.

  3. áureo Ramos de Souza disse:

    Só uma coisa tenho a dizer, se a INTERPOL procura MALUF onde foi que Lua viu el?

  4. Luis Teixeira disse:

    FELIPE VARNE,

    a analogia com ditadores nao tem nada a ver com a sua conclusao…. esta claro que aquela expressa O FATO desse discurso bonito ser explorado outrora por pessoas totalitarias, ou seja, o discurso do candidato sozinho NAO diz absolutamente nada.

    tropa de elite 2 realmente desvirtuou o sentido do primeiro filme, ao limpar a barra do politico esquerdista. Criou uma figura abstrata chamada de o “sistema” quando devia dar nomes aos bois, como por exemplo, as relacoes que o PT, o PDT, o PCB, PCdoB e o PSB possuem no Foro de Sao Paulo, entidade essa ligada a varias organizcoes de esquerda latino americanas, inclusive o Partido Comunista de Cuba e as FARC da Colombia, esta por sua vez a origem do problema do trafico de drogas em nosso continente.

    Por fim, sugiro que vc analise o que ele fala, o que faz, o que ele ja fez, e logicamente, a quem ele serve….
    no portugues claro, as reunioes do partido(internas e externas), os discursos publicos, e claro, quem FORNECE a grana da campanha….

    eu nao quero rotular Marcelo Freixo. Eu apoio acoes acertadas como a que ele fez contra as milicias, no entanto, isso NUNCA vai fazer com que eu apoie totalmente um politico.

    um abraco

  5. João Cirino Gomes disse:

    Repassando

    Não sou dado a perseguição, mas penso que se não votarmos eles não desistirão e aí sim está tudo “dominado”, principalmente em SP.
    Em Osasco, um município de São Paulo, fizeram um trabalho imenso com os jovens se elegeram e agora não se reelegem e assim vão pegando os espaços…

    Mas que votar está cada vez mais difícil não tenho dúvida.

    abs – Shila Carvalho

    Uma Aula de História-

    O Futuro do PT

    (Lúcia Hippólito)

    “Nascimento” do PT:

    O PT nasceu de cesariana, há 29 anos. O pai foi o movimento sindical, e a mãe, a Igreja Católica, através das Comunidades Eclesiais de Base.

    Outros orgulhosos padrinhos foram os intelectuais, basicamente paulistas e cariocas, felizes de poder participar do crescimento e um partido puro, nascido na mais nobre das classes sociais, segundo eles: o proletariado.

    “Crescimento” do PT:

    O PT cresceu como criança mimada, manhosa, voluntariosa e birrenta. Não gostava do capitalismo, preferia o socialismo. Era revolucionário. Dizia que não queria chegar ao poder, mas denunciar os erros das elites brasileiras.

    O PT lançava e elegia candidatos, mas não “dançava conforme a música”. Não fazia acordos, não participava de coalizões, não gostava de alianças. Era uma gente pura, ética, que não se misturava com picaretas.

    O PT entrou na juventude como muitos outros jovens: mimado, chato e brigando com o mundo adulto.

    Mas nos estados, o partido começava a ganhar prefeituras e governos, fruto de alianças, conversas e conchavos. E assim os petistas passaram a se relacionar com empresários, empreiteiros, banqueiros.

    Tudo muito chique, conforme o figurino.

    “Maioridade” do PT:

    E em 2002 o PT ingressou finalmente na maioridade. Ganhou a presidência da República. Para isso, teve que se livrar de antigos companheiros, amizades problemáticas. Teve que abrir mão de convicções, amigos de fé, irmãos camaradas.

    Pessoas honestas e de princípios se afastam do PT.

    A primeira desilusão se deu entre intelectuais. Gente da mais alta estirpe, como Francisco de Oliveira, Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho se afastou do partido, seguida de um grupo liderado por Plínio de Arruda Sampaio Junior.

    Em seguida, foi a vez da esquerda. A expulsão de Heloisa Helena em 2004 levou junto Luciana Genro e Chico Alencar, entre outros, que fundaram o PSOL.

    Os militantes ligados a Igreja Católica também começaram a se afastar, primeiro aqueles ligados ao deputado Chico Alencar, em seguida, Frei Betto.

    E agora, bem mais recentemente, o senador Flávio Arns, de fortíssimas ligações familiares com a Igreja Católica.

    Os ambientalistas, por sua vez, começam a se retirar a partir do desligamento da senadora Marina Silva do partido.

    Quem ficou no PT?

    Afinal, quem do grupo fundador ficará no PT? Os sindicalistas.

    Por isso é que se diz que o PT está cada vez mais parecido com o velho PTB de antes de 64.

    Controlado pelos pelegos, todos aboletados nos ministérios, nas diretorias e nos conselhos das estatais, sempre nas proximidades do presidente da República.

    Recebendo polpudos salários, mantendo relações delicadas com o empresariado. Cavando benefícios para os seus. Aliando-se ao coronelismo mais arcaico, o novo PT não vai desaparecer, porque está fortemente enraizado na administração pública dos estados e municípios. Além do governo federal, naturalmente.

    É o triunfo da pelegada.

  6. Mauricio Fernandez disse:

    Interessante!!!… Mas eu tambem sou contra determinados políticos que em sua maioria se identificam com outros políticos. Assim como determinadas classes que se identificam com outras classes sociais, mas, somente acomodados em seus sofas macios, ar condicionado e bela vista das sacadas de seus luxuosos apartamentos. A esquerda brasileira coça muito bem as costas da direita e vice e versa. A diferença está para quem dirigem sua atenção. Esses, os merecedores da atenção é que fazem a real diferença. São os que votam. Não necessitamos de muitos esforços para identificarmos no congresso a representação de cada classe. Mas, digam-me como é mesmo aquela cantilena “POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO”? Afinal a turma está unida ou está vencida? LÁ NO CONGRESSO ESTÃO TODOS UNIDOS.

  7. cesarious disse:

    o apoio político incondicional existe nas ditaduras, nos partidos nazistas, nos partidos populistas aproveitadores…o apoio que, ao meu ver, é o correto, politicamente, é o apoio crítico, onde se colocam as posições coerentes, e se explicitam as posições demagógicas.

  8. Joaquim Caldas disse:

    Um país sem oposição é uma ditadura!

  9. patrick davies disse:

    Parabéns, Felipe!!! Ótimo texto. elucidativo!!! Não me atenho ao horizonte traçado, de q Marcelo Freixo seja o queridinho dos socialistas da zona sul, mas lembrar q foi um dos candidatos a deputado mais votados sem ter como retaguardfa qualquer máquina municipal ou estadual, sem ter a imprensa (que se autodenomina Opinião Pública) sustentando seu nome… Demonstrou articulação, coerência, fundamentação. Não q isto signifique vitória, mas demonstra que a população carioca tem um candidato e que os eleitores evoluiram, apresentando novas perspectivas.

  10. paandda@gmail.com disse:

    Viva a cidade do Rio de Janeiro e seus eleitores. Eles têm alguém em quem votar: MARCELO FREIXO!!!

  11. Robson Mothé disse:

    No Brasil os políticos votam leis que aumentam o número de cadeiras nas câmaras municipais, estados e congresso nacional, fazem alianças para conseguirem + 1 minuto na TV, se corrompem com empreiteiros, roubam o dinheiro público, fazem de tudo e nada acontece. A política no país está na era medieval. Esperamos que os políticos de caráter, que são poucos no Brasil, não se entreguem a esse lixo chamada política brasileira. Esperamos que as redes sociais, TV, rádio, jornal escrito e ou tros meios de comunicação continue alerta, denunciando falcatruas diversos dos políticos neste imenso Brasil.

  12. Felipe Varne disse:

    Caro Luis Teixeira,

    a analogia com ditadores nao tem nada a ver com a sua conclusao…. esta claro que aquela expressa O FATO desse discurso bonito ser explorado outrora por pessoas totalitarias, ou seja, o discurso do candidato sozinho NAO diz absolutamente nada.

    A conclusão não é minha, e sim do Reinaldo Azevedo.

    tropa de elite 2 realmente desvirtuou o sentido do primeiro filme, ao limpar a barra do politico esquerdista. Criou uma figura abstrata chamada de o “sistema” quando devia dar nomes aos bois, como por exemplo, as relacoes que o PT, o PDT, o PCB, PCdoB e o PSB possuem no Foro de Sao Paulo, entidade essa ligada a varias organizcoes de esquerda latino americanas, inclusive o Partido Comunista de Cuba e as FARC da Colombia, esta por sua vez a origem do problema do trafico de drogas em nosso continente.

    O primeiro “Tropa de Elite” é sobre o narcotráfico. O segundo não é. É sobre a atuação das milícias no Rio de Janeiro, que, definitivamente, nada tem a ver com o Partido Comunista Cubano ou as FARC.

    Por fim, sugiro que vc analise o que ele fala, o que faz, o que ele ja fez, e logicamente, a quem ele serve….
    no portugues claro, as reunioes do partido(internas e externas), os discursos publicos, e claro, quem FORNECE a grana da campanha….
    eu nao quero rotular Marcelo Freixo. Eu apoio acoes acertadas como a que ele fez contra as milicias, no entanto, isso NUNCA vai fazer com que eu apoie totalmente um politico.

    Foi o que eu fiz. Analisei o discurso, suas ações como deputado, e o partido que o cerca. Em momento algum preguei apoio (e muito menos o apoio total) ao Freixo ou a qualquer outro candidato. Não estou aqui pra isso.

    um abraco

    Outro. Obrigado por comentar.

  13. Luis Teixeira disse:

    Obrigado pela resposta.
    um abraco

  14. andralls disse:

    A política brasileira é uma verdadeira farsa!!!!! Ficam no poder à base de mentiras e dilapdação do dinheiro público!!!

  15. nil disse:

    Promessas que todos fazem, nada mais. Só a população unida pode mudar os rumos do país, independente de partido político. Se entra partido no meio, candidato herói é tudo estrategia para chegar ao poder.

  16. Jaciara disse:

    Que dizer do apoio declarado de tucanos (Andréa Gouvea, aqui no RJ) à candidatura Freixo – muito bem aceito, aliás? Fala sério, aí: vocês criticam o mesmo que fazem. Na hora do vamos ver, qualquer aliado pra vocês vale, então … como criticar o outro por aquilo que até vocês fazem? Até apoios eventuais da mídia vocês aplaudem, repercutindo suas denúncias contra os partidos que se encontram no poder: ué, nessa hora a mídia é boazinha?

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