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Poligamia: causas, conseqüências e curiosidades

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No último dia 21, o jornal inglês "The Guardian" noticiou que um morador de Utah, nos Estados Unidos, estava sendo julgado e poderia ser condenado à prisão por cumplicidade no estupro de uma menina de 14 anos. O suposto crime não teria recebido grande destaque, não fosse o fato de o acusado, Warren Jeffs, ser profeta de uma comunidade religiosa e poligâmica da região de Hilldale – localizada entre Utah e o Arizona – baseada na "Fundamentalist Church of Jesus Christ of Latter Day Saints (FLDS)", ou "Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias". A igreja é uma dissidência dos mórmons, que se formou há mais de cem anos e, segundo reportagem da revista Economist, provavelmente tem em torno de 10 mil membros.

Essa é a religião dominante em Utah. Nos anos de 1830, o fundador da Igreja dos mórmons, Joseph Smith, falou pela primeira vez em casamento múltiplo com finalidade celestial. A poligamia foi, mais tarde, abolida entre os mórmons, no entanto mantém-se até hoje entre os adeptos da FLDS. A menina que Jeffs teria ajudado a estuprar contou aos promotores do caso que foi obrigada a selar um "casamento espiritual" com seu primo, contra a sua vontade, e que se não obedecesse à ordem de "procriar" estaria condenada a viver uma "maldição eterna".

Segundo dados revelados no ano passado pelas promotorias públicas de Utah e do Arizona, existem cerca de 40 mil pessoas vivendo em situação familiar de poligamia nos Estados Unidos. No entanto, apesar de o caso de Jeffs ter trazido à tona a relação entre religião e poligamia numa determinada região norte-americana, o casamento múltiplo é uma prática que pode ou não estar associada a questões religiosas.

No Islamismo, a poligamia é permitida. O homem pode se casar com até quatro mulheres, com a condição de que dê atenção igual a cada uma delas. Um site especializado em esclarecer dúvidas sobre o Islamismo explica que os muçulmanos consideram mais honesto ser casado com várias esposas do que ter amantes, e que é da natureza do homem ser poligâmico e da mulher ser monogâmica. O site lembra, no entanto, que o Islã não permite o contato sexual antes do casamento e proíbe também o sexo extraconjugal.

Na Turquia, a poligamia é contra a lei: não se pode casar com mais de uma pessoa no cartório. Numa cerimônia religiosa, no entanto, o casamento múltiplo é permitido. Em dezembro de 2004, matéria da BBC descreveu a poligamia como uma prática conservadora, e afirmou a entrada da Turquia na União Européia estava sendo condicionada a vários fatores, dentre eles a maneira como o país trata suas mulheres. "A região é conhecida por suas tradições conservadoras, dentre elas a poligamia", dizia a reportagem.

A Igreja Católica se opõe à poligamia porque a considera um pecado, já que vai contra o sacramento do Matrimônio. No catolicismo a poligamia é equiparada ao adultério, e é tida como uma prática que entra em contradição "com a igual dignidade do homem e da mulher e com a unicidade e exclusividade do amor conjugal; a rejeição da fecundidade, que priva a vida conjugal do dom dos filhos; e o divórcio, que se opõe à indissolubilidade", conforme explica este site.

A poligamia na África

Em outros lugares do mundo, a poligamia existe sem estar necessariamente relacionada a questões religiosas. Em sociedades mais tradicionais da África Subsaariana, por exemplo, a prática é comum – segundo o relatório Social and ethical aspects of assisted conception in anglophone sub- Saharan Africa, da Organização Mundial de Saúde . O estudo da OMS afirma que, mais do que ser aceita, a poligamia é até mesmo incentivada entre os homens nesses lugares. E, em muitas regiões africanas, a religião predominante é o islamismo – o que promove uma soma de questões culturais e religiosas, fortalecendo ainda mais a aceitação da prática.

Um dos fatores que serve como incentivo à poligamia na África é a valorização enorme da maternidade nesse continente. "Crianças são tão valorizadas na África que a procriação é considerada a maior razão para o casamento e a principal causa, se não a justificativa, para a poligamia e outras formas de casamento que poderiam ser consideradas mais ou menos estranhas pela perspectiva de outras culturas", diz um outro relatório da OMS para a África, intitulado "ART and African sociocultural practices: worldview, belief and value systems with particular reference to francophone África". Essa atenção dada à maternidade na África chega a ser incoerente com outras ocorrências observadas no continente. Por exemplo, a prática da mutilação genital costuma causar sérios danos à saúde sexual das mulheres, dificultando as relações sexuais, o parto, ou até mesmo tornando-as estéreis. Além disso, a mortalidade infantil é altíssima no continente, que apresenta também elevadas estatísticas de crianças que se tornaram órfãs devido ao fato de seus pais serem vítimas da Aids.

A OMS aponta, ainda, conseqüências nada positivas da poligamia na África. Cria-se uma competição entre as diversas esposas, que lutam por direitos relacionados à gravidez, ao parto e à maternidade, e são submetidas à pressão de dar à luz herdeiros do sexo masculino – já que estão inseridas numa sociedade patriarcal. Um outro fator associado à prática da poligamia é o crescimento do número de filhos por pai, e da média de tamanho das famílias.

Além disso, o fato de os homens terem várias mulheres na África é apontado em certas pesquisas como um dos fatores que contribuem para a disseminação do vírus da Aids no continente, cujos países já são os que mais concentram soropositivos em todo o planeta – a previsão é de que haja seis milhões de contaminados em toda a África até 2010, segundo a ONG YFC, que tem vários programas concentrados em resolver questões exclusivamente na África.

É fato que, mesmo com a possibilidade de ter várias esposas, os homens não deixam de ter relações extraconjugais – o que até contraria as intenções que o islamismo afirma ter ao permitir a poligamia – e há muita desinformação a respeito do uso de preservativos, somada à relutância em utilizá-los, mesmo quando se sabe da sua importância. Segundo estatísticas fornecidas pela YFC, no ano de 2000, 45% dos jovens africanos tornaram-se sexualmente ativos entre os 16 e os 18 anos, quase 80% deles eram solteiros e 25% afirmaram que sua primeira experiência sexual foi involuntária. Leia mais aqui.

Poliandria: uma mulher, vários maridos

No dia 16 de novembro de 2004, foi ao ar no Jornal da Globo uma reportagem sobre as famílias poliândricas que vivem isoladas nas montanha do Himalaia, no norte da Índia, quase fronteira com o Tibet ( veja aqui o vídeo da reportagem). A poliandria consiste no casamento de uma mulher com vários homens – um tipo de família raro no mundo atual.

Tanto as mulheres mostradas na matéria quanto seus maridos eram felizes com suas famílias enormes. Os entrevistados contaram quais as vantagens de vários homens, geralmente irmãos, se casarem com uma mesma mulher: por exemplo, garantir a segurança da família, já que acabam formando uma grande comunidade, morando e criando filhos juntos; assegurar maiores chances de se conseguir trabalho, alimentos e moradia – quando irmãos decidem casar-se com mulheres diferentes, precisam deslocar-se para alcançar essas condições de vida.

Enquanto uma entrevistada de 17 anos revelou que preferiria ter apenas um marido e formar com ele uma família mais convencional, um homem idoso que deu seu depoimento achou que isso que a menina desejava era puro romantismo juvenil, enfatizando todas as boas razões para se ter uma família poligâmica, mais especificamente poliândrica, no caso.

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  1. Flávio Lima disse:

    Uma coisa q deve ser pensado no Brasil é q se a religião valoriza e não aceita em hipotese alguma a bigamia ou poliandria, do outro lado tem mais mulheres aki no Brasil do q homens, então por causa da religião haverá mulheres q terão q ficar solteiras se não tem culpa delas serem maioria? como tbm existe outros lugares do mundo em q homens são maioria, como fica isto?

  2. [...] Referencia: http://opiniaoenoticia.com.br/opiniao/tendencias-debates/poligamia-causas-consequencias-e-curiosidad… [...]

  3. gil disse:

    Eu me relaciono com três mulheres, duas há cinco anos e uma há dois anos. Depois de um tempo vejo que é possível manter cada uma delas sem problemas. Vejo com naturalidade manter várias relações ao mesmo tempo, porque é um instinto natural. Assim você pode manter um vínculo afetivo e estável com todas.

  4. Washington disse:

    Eu não vejo razão para o governo interferir na vida afetiva das pessoas. Se a pessoa quer se casar com uma ou várias, só diz respeito aos envolvidos. Temos capacidade de amar várias pessoas ao mesmo tempo, e com ou sem aprovação legal, não se pode reprimir sentimento.
    Não se trata de sexo, mas de amor, ou seja, dedicação, cuidar, estar junto, querer o bem…

  5. Rafael disse:

    A justificativa para um homem ter mais que uma mulher é sagrada e verdadeira! Muitos podem pensar que é apenas uma desejo ou volúpia sexual, ou alguma coisa feia etc… Na verdade um homem aturar uma mulher já o santifica , porque mulher exige uma paciência divina!!! Então se o homem deseja ser realmente um santo , um homem purificado, deve ter sempre pelos menos 5 mulheres. pois assim ele será um verdadeiro herói, um profeta , uma beato , qualquer coisa assim . A vantagem é que poderá em vista deste grande sacrifício poder ter prazer com mais de uma mulher na cama, que perto de tantas confusões que as mulheres causam , é quase desvantagem !!! Amém !

  6. Viviane Rodegheri disse:

    É incrível como observei que,em nenhum dos comentários abaixo,haviam citações sobre o amor.De um forma geral,mesmo que complexa sob alguns ângulos,o amor é capaz de se estabelecer em diversas relações sociais,não só nas matrimoniais ou conjugais.O amor pode ser expresso através da arte,da natureza,das características de nossas relações com familiares,amigos,etc…o que faz do amor fascinante é o fato de toda a hipocrisia e egocentrismo humanos serem incapazes de controlá-lo.Sendo assim,não vejo porque não estruturar relações poligâmicas e poliandricas na sociedade atual,mesmo que desafiem valores éticos estáveis e conceitos religiosos.O desafio está em abrir a mente das pessoas,de fazê-las enxergar um mundo onde o respeito seria a base central do sistema político regente.O mais difícil de discernir é que as mudanças são necessárias para que alcancemos a evolução e,conforme as necessidades,elas se tornam ainda mais evidentes.Aprender a expandir o amor(ou até mesmo a ausência dele,se ambos os lados da relação desejam fazê-lo apenas por diversão)é uma arte e jamais deveria ser combatido ou não.Sou mulher,e eu sei que nos tempos atuais isso faz de meu fardo mais pesado.Sou menor de 18 anos,o que contribui ainda mais para minha condenação.Mas não ficarei de braços cruzados diante de uma questão que eu abraço e almejo como regularizada na sociedade.Muitas pessoas,mulheres e homens,querem caminhar sem serem julgados,inferiorizados ou deteriorados,expondo sua opção sexual ,seja ela na quantidade de elementos componentes ou no gênero que tais obtêm.Tal como vi alguém lá embaixo citar,todo preconceito é burro,por exercer o papel de um muro na visão dos integrantes da sociedade,e bloquear uma visão aberta que beneficie as vontades alheias e particulares integralmente.Não só em nome do amor,mas em nome da arte,da música,do sexo e da liberdade,principalmente:a poligamia deve ser adotada como sistema padrão-aliás,pelo simples fato de ,na própria poligamia,haver a vantagem de uma relação monogâmica possuir possibilidade de ocorrer-o que não ocorre ao contrário,diante das características predominantemente cristãs inseridas no sistema em vigor.Aprender é sinônimo a pensar diferente,portanto esquivemo-nos de nossos antigos valores…e abramos a cabeça!

  7. antonio miguel disse:

    a poliandria na Africa particularmente em mocambique e um caso isolando. Abundando assim simplesmente a poligamia. Apesar de mocambique nao oficialmente aderir a poligamia, e mais despersonalizante, perca de valores sociais, ver-se uma mulher com mais de um homem do o inverso.
    pode-se para nos um TPC (trabalho para casa) por depois podemos falar quais sao as origens e vantagens dessa pratica.
    um grande abraco para quem for isto.
    Mocambique – Quelimane – distrito de Nicoadala

  8. EDIO disse:

    poligamia,poliandria,casamento homosexual, etc, vão contra as convenções já estabelecidas, seja por critério religioso ou legal. porém, acredito que a palavra liberdade alcança nações e individuos, devemos viver conforme sejamos felizes, e respeitar a opinião individual, ou seja, haja poligamia, poliandria, casamento homo ou heterosexual, contando que todas as partes envolvidas diretamente estejam em acordo, ocorre a liberdade de fato como deve ser. viver conforme nossos próprios conceitos, sem ser preconceituosos com formas livres de ser feliz diferente da própria opinião.

  9. ednice henriques disse:

    olá gostei imenso da vossa e gostaria sempre que poder obter mais novidades.

  10. Victor disse:

    A vantagem de casar com duas ou mais irmãs é economizar sogra!

  11. Basílio disse:

    Não se esqueça, o fato de ter pessoas para mandar ,nao significa que vc nasceu para ser “manipulada” voce é feliz com seu conjuge? se a resposta for (sim) podemos crer em um fruto maior que só Deus pode nos dar a “família”.se vc gosta das aventuras extraconjugal nao te condeno quem sou eu para isso? amigavelmente te pesso analise se e realmente isso que vc sempre sonhou para sua vida. Porque é de bons momentos que se vive a felicidade e o nosso objetivo e ser feliz,e o unico lugar que se encontra a felicidade e no seio de uma família e a família so se controi com confiança e amor.

  12. Maria Baptista disse:

    Existem comentários que devem ser ponderados e feitos por pessoas com conhecimento na matéria. Não é de todo aceitável que Luça Silva, por exemplo, se dê ao luxo de minimizar os africanos, com afirmações do género, “tirar sangue para os africanos é como se seu corpo perdesse força” ou “campanhas para o uso do preservativo na Africa … elaboradas com base nos valores ocidentais, o que dificulta a compreensão dos Africanos”. Meus amigos, aqui em África também tem gente que entende das coisas e, há questões ligadas à saúde, desenvolvidas na África do Sul, por exemplo, que têm sido ensinadas a europeus e americanos que para o efeito se deslocam à África. Este não é um continente da ficção dos cinemas, onde o Tarzan se desloca pendurado em árvores, pois penso, pela características fenotípicas, que ou ele é da parte branca de África ou é um turista de outro continente. Aprendam a ajudar sem ter que desrespeitar!!!!!! Deus vos abençoe