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No ar desde o último dia 2, o Blog Fatos e Dados, criado pela Petrobras, incitou debates entre os veículos de imprensa. A estatal tomou a iniciativa de publicar nesse blog perguntas encaminhadas por veículos à companhia, juntamente com as respostas na íntegra repassadas aos jornalistas. A questão é que o site, ao ser lançado, disponibilizava as informações antes da veiculação das reportagens. A atitude um tanto quanto ousada da Petrobras dividiu opiniões. Uns franziram a testa, levantando a questão do direito autoral e a hipótese do esvaziamento de coberturas jornalísticas. Outros aplaudiram a visão moderna da comunicação, com a democratização do conhecimento como um dos trunfos. E ainda apontam o furo de reportagem, consequentemente, como algo do passado.
“Nós vamos revolucionar o jornalismo brasileiro.” Em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, afirmou que o blog foi criado para dar transparência às iniciativas da empresa, além de defender que o modelo deve ser seguido por outras companhias. A polêmica acontece em meio a notícias sobre ingerências políticas, suspeitas em contratos e mecanismos de licitação e a criação de uma CPI para investigar a Petrobras. No blog, a estatal diz que o objetivo das publicações antecipadas é “dar transparência aos processos e não prejudicar o levantamento de fatos e dados de jornalistas”.
A Petrobras, no entanto, anunciou na última quarta-feira, 10, que passará a divulgar as respostas apenas no dia de publicação da matéria, por volta de 0h. Essa medida deve servir para sanar a reclamação de boa parte da imprensa, que apontava que a publicação de respostas antes de as matérias irem ao ar atacava a liberdade de imprensa e matava o ineditismo da notícia. José Sérgio Gabrielli havia dito que a empresa continuaria a divulgar as informações antecipadamente, mesmo em meio às críticas.
Jornalistas e a própria Associação Nacional dos Jornais (ANJ) se manifestaram contra a criação do blog. Em nota, a ANJ disse que esta era uma “canhestra tentativa de intimidar” a imprensa. Em resposta, no próprio blog, a Petrobras disse que “respeita os princípios universais de liberdade de imprensa, tanto que, em nenhum momento, se esquivou de responder às perguntas enviadas, de forma direta e clara”. Além disso, a estatal afirmou que não tem nenhum compromisso de confidencialidade com jornalistas. Na última quarta-feira, a empresa publicou no blog que “tem recebido o explícito apoio de milhares de internautas, jornalistas e entidades como ABI, OAB, entre outras”. O site não está publicando comentários negativos de leitores. Jornalistas argumentam que, por ser estatal, a empresa não pode bloquear comentários de cidadãos brasileiros, por mais críticas que sejam à atuação da companhia.
Procurada pelo Opinião e Notícia, a Petrobras reiterou que a publicação das perguntas e respostas no blog reforça o objetivo da empresa de prestar esclarecimentos à sociedade e alcançar o máximo de transparência possível no relacionamento com seus públicos de interesse. “É importante destacar que o blog Fatos e Dados não vaza as reportagens em curso, e nem poderia, pois desconhece inteiramente o conteúdo das matérias pautadas, linha de abordagem, totalidade das informações apuradas pelo veículo, entrevistados etc.”
A professora titular da Escola de Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF) Marialva Barbosa aprova a iniciativa e defende que tirou o valor da exclusividade. “É uma vanguarda, é uma visão moderna da comunicação. Com o jornalismo de hoje, a pessoa constroi a informação a seu bel prazer.” Marialva aponta que o blog da estatal “vai na mão do jornalismo da contemporaneidade”. “Exclusividade é algo antigo. O jornalismo não é mais isso. É um conjunto. As novas técnicas permitem que o indivíduo seja o próprio construtor da informação.”
Marialva acredita que a Petrobras amplia o papel de porta-voz do jornalista, que está perdendo o poder de natureza simbólica, segundo a especialista. “A empresa não tem contrato com jornalistas. A noção de furo de reportagem é antiga com os novos meios de comunicação. Grandes e pequenos veículos participam do mesmo mercado, terão o mesmo acesso. É uma democratização da informação.”
O analista de mídias sociais Tiago Cordeiro afirma que o blog corporativo serve para produzir conteúdo diferenciado para a imprensa ou para o público-alvo. Ele observa que o grande diferencial do blog da Petrobras é optar por, em vez de informar, colocar respostas dos jornalistas. E vai além. “No futuro, toda empresa será produtora de conteúdo em algum grau se quiser se comunicar com o público-alvo ou quiser agregar valor. O McDonald’s, por exemplo, para lançar um sanduíche para crianças, não poderá fazer a propaganda só por TV, terá que lançar algum game, ou algo do gênero.”
Questionada pelo Opinião e Notícia se a iniciativa do blog Fatos e Dados foi inspirada em alguma estratégia já utilizada no mundo corporativo, a Petrobras negou. “Não houve inspiração. Desconhecemos qualquer iniciativa semelhante no universo corporativo. Há, sim, experiências similares na própria rede de comunicação da internet. A iniciativa de criar o blog Fatos e Dados, na visão da Petrobras, é um marco na construção de novas pontes de comunicação com os públicos de relacionamento da companhia em uma nova era de circulação de informação digital em tempo real.”
Para Tiago Cordeiro, o jornalista não tem direito autoral sobre a pergunta que faz. “É como se o diretor de cinema quisesse ter direito autoral sobre um cenário externo.” Mas ele defende que a questão é mais “ética” que direito autoral. “Esvazia o trabalho da cobertura jornalística. Se um grande veículo faz uma entrevista, liga, procura, e outro menor tem acesso ao mesmo tempo ao que foi publicado, como fica a questão do investimento?”
O especialista em mídias sociais afirma que atualmente o cliente tem o SAC — Serviço de Atendimento ao Cliente — para reclamar de seu produto. Segundo ele, a vantagem do blog corporativo para o cliente é ter um canal mais direto, mais fácil, para a empresa entender o que o indivíduo quer falar. “A empresa, por outro lado, tem que estar pronta para ser mais transparente, mais rápida. Ela saberá mais rápido o que o cliente acha dela. Poderá dialogar, fazer promoções.” No entanto, ele atenta que é necessário um diagnóstico preciso da empresa para o mapeamento do blog. “A Petrobras fez esse diagnóstico?”
O consultor empresarial Fabio Cipriani, autor do livro “Blog Corporativo”, comentou que conhece alguns casos parecidos, como quando a Chrysler fez um blog fechado para jornalistas onde dava informacoes diretamente a eles, mas já é extinto. Ele citou também o caso da GM, que fez um blog para responder perguntas enviadas pelos leitores, inclusive as mais polêmicas, e o da americana Kryptonite — fabrica de cadeados principalmente para biciletas –, que fez um blog para receber comentários de leitores indignados com a fragilidade dos seus produtos.
“Bog é sobre transparência e ter tom pessoal. Geralmente se espera que uma pessoa seja o rosto de uma empresa, mas, no caso da Petrobras, aparentemente o foco é na transparência e nas respostas aos comentários na mídia, o que faz com que a polêmica atraia audiência e, consequentemente, a amplitude da marca. Certo que existirão os defensores e os difamadores, mas pode ser difícil saber o objetivo final que a empresa busca e que é parte de sua estratégia”, observou Cipriani.
De acordo com a Petrobras, “o blog foi criado para prestar esclarecimentos exclusivamente quanto a questionamentos relacionados à CPI e quanto a perguntas encaminhadas por jornalistas e respostas enviadas pela companhia”.
A estatal afirmou ao Opinião e Notícia que, na qualidade de empresa de capital aberto, com ações negociadas em bolsas no Brasil e no exterior, “não pode e nem deve silenciar diante das acusações que vêm sendo feitas”. Segundo a empresa, “é seu dever dar pleno conhecimento à sociedade sobre a íntegra de seus argumentos, através da mais avançada e moderna tecnologia de circulação da informação — a blogosfera”.
“A motivação é a possibilidade de contribuir para o avanço democrático, criando um novo canal de comunicação, transparente e sem intermediários, entre a maior empresa do país e a sociedade”, relatou a Petrobras ao Opinião e Notícia.
Caro leitor,
Como você avalia a atitude da Petrobras?
Ela realmente segue uma tendência proposta pelas novas técnicas da comunicação?
A proposta desafia o papel do jornalista?
Você concorda que a estatal está conseguindo “revolucionar o jornalismo brasileiro”, como disse José Sérgio Gabrielli?
*Para esta Sexta-feira Premiada, a parceria entre a Editora Ediouro e o Opinião e Notícia oferece os seguintes livros: