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TERRORISMO NO MUNDO

Terror assusta Ocidente, mas maioria dos atentados ocorre na África e Oriente Médio

Nem de longe a onda de terrorismo que toma lugar no Ocidente se assemelha à situação do centro e norte da África, da Ásia e do Oriente Médio

Terror assusta Ocidente, mas maioria dos atentados ocorre na África e Oriente Médio
Só 2,5% dos atentados em 2016 tiveram como alvo nações ocidentais (Foto: Twitter/Live From Mogadishu)

Entre os meses de outubro e novembro de 2017, os EUA contabilizaram três atos de terrorismo em seu território. No primeiro, em Las Vegas, um atirador alvejou uma plateia que assistia a um show, matando 59 pessoas e ferindo mais de 500. Poucas semanas depois, um motorista supostamente ligado ao grupo extremista Estado Islâmico jogou sua caminhonete contra ciclistas em Nova York, deixando oito mortos. Já no primeiro domingo de novembro (5), um atirador invadiu uma igreja batista no Texas, e matou ao menos 26 pessoas.

Outras nações do Ocidente, como a França, a Inglaterra, Bélgica e Alemanha, também foram vítimas de atentados nos últimos meses. Mas, em que pese a sensação de vulnerabilidade que paira sobre estes países, nem de longe a onda de terrorismo que neles toma lugar se assemelha à situação do centro e norte da África, da Ásia e do Oriente Médio.

De acordo com estatísticas do Global Terrorist Database, divulgadas pela rede britânica BBC, só 2,5% dos atentados terroristas em 2016 tiveram como alvo nações ocidentais. E a avassaladora maioria – 75% – aconteceu em 10 países: Afeganistão, Filipinas, Índia, Iraque, Iêmen, Nigéria, Paquistão, Síria, Somália e Turquia. Somente no Iraque, registrou-se 35% das mortes: 33 todos os dias, em média. Somados os ataques por todo o mundo, morreram mais de 34 mil pessoas.

As razões para tanto são complexas e não passam por uma via única de explicação. Abaixo, listamos alguns dos fatores que ajudam a entender a extensão de ataques terroristas nestas regiões:

Fome e crise econômica

Muito se diz sobre o radicalismo religioso que motivaria os alistamentos aos grupos extremistas. Contudo, de acordo com o relatório “Uma Jornada ao Extremismo da África”, elaborado pelo Programa de Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (PNUD), são outras as causas principais que levam jovens e crianças do continente a aderirem a discursos radicais: a fome e a crise econômica aguda.

Não por menos: segundo estimativas da Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU, mais de 17 milhões de pessoas sofrem com a desnutrição na Somália, Nigéria e Sudão do Sul. Isto, somado à impotência dos governos nestas regiões, à violência corriqueira dos bombardeios – muitos patrocinados pela Otan, organização que congrega as potências militares do Ocidente –, e à falta de perspectivas agravada pela crise econômica, resulta na grande adesão dos jovens às células terroristas. E é exatamente nestes territórios devastados pela guerra e pela fome que grupos extremistas como o Al Shabaab, Boko Haram, Al-Qaeda e o Estado Islâmico proliferam.

Conforme o relatório da ONU, que entrevistou jovens filiados a estes grupos, embora muitos aleguem fatores religiosos como motivadores de suas atividades, a maioria revelou não ter lido os textos sagrados e diz não entendê-los bem.

Disputas internas e radicalismo religioso

Alguns dos países que mais sofrem com o terrorismo encontram-se no continente africano. Em 2017, a ONU contabilizou 44 ataques terroristas na província de Borno, na Nigéria, contando 311 mortes, enquanto em Mogadício, capital da Somália, aconteceram 35 atentados, que deixaram ao menos 300 mortos.  Nos dois países, atuam grupos radicais que buscam derrubar o governo e impor um uma teocracia baseada em leituras fundamentalistas do Islã: o Boko Haram, na Nigéria, e o Al-Shabab, na Somália.

Os dois grupos, que têm ligações com outras organizações terroristas como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, valem-se de estratégias parecidas. Buscam poder frente à instabilidade política com discursos ultranacionalistas e avessos ao ocidente e promovem constantes ataques terroristas para desestabilizar os governos e atrair adeptos.

O Iêmen, na Ásia, vive situação semelhante. De forma mais agressiva desde a Primavera Árabe de 2011, rebeldes Houthis, fundamentalistas islâmicos que utilizam táticas terroristas, buscam ocupar o vácuo de poder no país. Conforme noticiou em 2013 a Folha de S.Paulo, o grupo oferecia amparo às vítimas de ataques de drones (aviões não-tripulados) norte-americanos e procura chegar ao poder capitalizando sob o sentimento antiamericano da população.

Influência das potências militares

Outro agravante da crise no Iêmen, e que também se percebe em países com a presença de tropas norte-americanas como o Afeganistão e o Iraque, é a atuação das potências estrangeiras nestas regiões e o apoio que elas prestam a cada lado envolvido no embate. Os rebeldes Houthis, alega a Arábia Saudita, recebem apoio político e logístico do Irã, que lhes envia mísseis e outros armamentos. O fraco governo local, por sua vez, é respaldado pelos sauditas e pelos Estados Unidos. Como fruto desta aliança, as áreas ocupadas pelos rebeldes sofrem constantes ataques aéreos. Mas, segundo o jornal inglês “The Guardian”, estes bombardeios nem sempre são efetivos e acabam espalhando o ódio aos EUA no país: entre os mais de 7 mil bombardeios realizados, mais de 3 mil atingiram alvos não militares, como hospitais, escolas e zonas residenciais. Assim, o país parece reviver a lógica da Guerra Fria. A coalizão saudita, que fechou as fronteiras do Iêmen, o que acabou dificultando inclusive a entrada de ajuda humanitária e comida no país, já acusa o Irã de articular ataques contra a sua capital desde os territórios rebeldes. O Irã nega que tenha prestado apoio logístico aos Houthis.

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