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TRABALHO ESCRAVO

Trabalho escravo e vida de gado no Brasil

Países de capitalismo avançado tentam apertar, em vez de afrouxar, o cerco à utilização de mão de obra escrava em pleno século XXI

Trabalho escravo e vida de gado no Brasil
Marcha em Londres, no dia 14 de outubro, pela erradicação do trabalho escravo no mundo (Foto: The Guardian)

Ninguém poderia imaginar que Michel Temer trocaria sua permanência do poder (e provavelmente sua permanência em liberdade) até por trabalho escravo, ou “análogo à escravidão”, quando, em junho último, a rede britânica de supermercados Waitrose recolheu dos freezers de suas unidades varejistas as embalagens de corned beef made in Brazil. Ao contrário do que poderiam pensar os habitantes desse país marcado nos últimos tempos, entre outros infortúnios, pelas consequências da operação Carne Fraca, da Polícia Federal, o motivo do sumiço dos bifes brasileiros dos açougues Waitrose não foi sanitário; foi precisamente a escravidão moderna na origem da sua cadeia de fornecedores.

O constrangimento aos supermercados Waitrose foi fruto de uma reportagem do jornal britânico The Guardian em parceria com o site Repórter Brasil. Os veículos mostraram que uma das maiores empresas de processamento de carne do mundo, a “campeã nacional” JBS, comprava gado para abate de uma fazenda na qual os trabalhadores são forçados a viver em condições degradantes, sem abrigo, sem banheiros, sem água potável, em permanente dívida com os patrões por comida, dívidas essas deduzidas de seus salários:

“De acordo com documentos oficiais a que tiveram acesso o Guardian e o Repórter Brasil, a JBS pagou £ 2 milhões entre 2013 e 2016 por bovinos criados em uma fazenda no estado do Pará, na região Norte do Brasil, onde os promotores afirmam que os trabalhadores estavam sujeitos à escravidão moderna, conforme definido na legislação brasileira”.

É dupla a ironia do infausto destino dos corned beef brazucas na Grã-Bretanha: o teor implícito em “conforme definido na legislação brasileira”, como foi citado pelo Guardian, iria pelos ares poucos meses depois, por obra e graça de um decreto presidencial que “flexibilizou” a definição de trabalho escravo no Brasil, decreto esse assinado por um presidente da República em maus lençóis, de resto, por conta de delações do manda-chuva da JBS Friboi.

Os arreios ‘ideologizados’

Nas últimas duas décadas, mais de 13 mil trabalhadores foram resgatados de fazendas de gado no Brasil por viverem sob a condição de escravos modernos, uma expressão que soa, e apenas soa, uma absoluta contradição.

Na contramão do que acaba de fazer o governo Michel Temer — sob aplausos, entre outros notórios atores da sociedade brasileira, como a CNI –, os países de capitalismo avançado tentam apertar, em vez de afrouxar, o cerco à utilização de mão de obra escrava em pleno século XXI. Não propriamente por uma qualquer consciência abolicionista, por assim dizer, dos donos do poder, mas sobretudo por causa de enormes pressões da sociedade civil, o que, aparentemente, também parece ir na contramão da, digamos, vida de gado brasileira ante os arreios impostos pelos donos do poder.

Na própria Grã-Bretanha, uma lei de 2015 obriga as companhias com valor de mercado superior a £ 36 milhões que divulguem o detalhamento de toda a sua cadeia de fornecedores em seus websites, com o intuito de coibir o recurso à escravidão moderna para catapultar as taxas de lucro. Por outro lado, de acordo com um relatório publicado na semana passada pela ong Business and Human Rights Resource Centre, das 100 maiores empresas listadas na bolsa de valores de Londres, perto da metade, 43 delas não cumprem essa determinação.

A exemplo dos bifes brasileiros, recentemente muitas camas foram recolhidas de algumas lojas britânicas porque descobriu-se que elas eram fabricadas por trabalhadores húngaros que ganhavam o equivalente apenas R$ 40 por semana, dormindo 45 deles amontoados em uma mesma habitação.

Se os fabricantes de cama húngaros estão entre os 25 milhões de trabalhadores escravos que (ainda) existem no mundo? Trata-se de um trabalho “exaustivo”, mas não trabalho escravo. Talvez fosse assim o julgamento não “ideologizado” sobre a matéria da parte de Gilmar Mendes, notório ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil, país onde recentemente o presidente da Câmara dos Deputados afirmou que a Justiça do Trabalho nem precisaria existir.

 

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3 Opiniões

  1. carlos alberto martins disse:

    o trabalho escravo se deve ao fato que a maioria dos trabalhadores não tem nenhuma formação educacional e profissão definida por curso profissional.em uma nação como o Brasil que tem grande contingente de analfabetos,a mão de obra escravagista se aproveita.quando houver leis e fiscalisação rigorosas,o panorama irá mudar.

  2. Laércio disse:

    Uma sucessão de erros! A produção de proteína animal é um tiro no pé da nação! As receitas provenientes de tal comércio apresenta resultado absurdamente negativo se considerarmos tudo que está envolvido nesta atividade.
    1) destruição de florestas e fim de nascentes que dão lugar a pastos.
    2) enorme desperdício de água pois, para cada quilo de carne que se produz são utilizados 15.000 litros dágua.
    3) há concentração de renda porque os meios de produção são caríssimos permitindo que apenas grandes empresários possam custear a empreitada.
    4) aumento no custo de vida dos mais pobres… Haja vista o alto custo da carne tanto em âmbito de compra como de armazenamento e preparo, bem como o acúmulo de toxinas a longo prazo porque os sucos gástricos humanos não são adequados para digerir por completo tais tipos de fibras tão pouco eliminar os conservantes dos embutidos.

    O rebanho é algo estratégico para um país! Isto não é divulgado porque os países desenvolvidos não precisam criar meios para empregar seu povo! Eles tem boas escolas e indústrias.
    No caso brasileiro, não temos uma boa indústria de base, então devemos criar meios para empregar nosso povo. Os rebanhos deveriam ser utilizados para constituir micro pecuária em massa criando diversos pequenos empregos para grande quantidade de pessoas, fazendo com que haja ocupação e renda, diminuindo o déficit em saúde, educação e segurança, e permitindo que a educação do país se recupere através de um novo plano estudantil criando uma nova “safra” de jovens que serão a base do nascimento de nossa indústria que ainda não foi concebida.

  3. Natanael Ferraz disse:

    A Justiça do Trabalho foi inventada para evitar que o Brasil se tornasse uma república sindical e para permitir que o governo controlasse os trabalhadores. No primeiro caso foi útil, no segundo seria melhor mesmo que não existisse.

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