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CINEMA

‘A Trama’ – A juventude e o cidadão de bem

Racismo, a crise dos refugiados, globalização e o discurso de ódio estão em pauta no novo filme de Laurent Cantet

‘A Trama’ – A juventude e o cidadão de bem
Boa parte do filme se passa durante a oficina literária e os seus diálogos fazem toda a diferença (Foto: Divulgação)

Um filme atual, que trata de assuntos geográficos e políticos em pleno cenário de ascensão da extrema direita, atentados terroristas e a crise dos refugiados em todo o mundo. Dessa forma podemos resumir todo o longa A Trama, do diretor Laurent Cantet, que acerta ao apresentar uma juventude diversificada, com suas opiniões em formação e os conhecimentos sendo buscados e expostos diretamente na internet.

Ao usar as redes sociais como elemento condutor para falar melhor sobre a exposição da vida dos jovens – muitas das vezes inconsequentes – o diretor acerta em cheio. Isso porque, se os assuntos que ditam o tom da trama já não fossem o suficiente, as novas mídias sociais e a utilização frequente de aparelhos eletrônicos tornam a produção ainda mais “Século XXI”. Um exemplo disso é a abertura do longa, assim como ocorre em outros momentos, mostrar um jogo de vídeo-game, fazendo mais uma alusão às novas tecnologias frequentemente usadas pelos jovens.

O protagonista é um jovem branco, recluso, confuso e tímido, que tem amigos, mas não se envolve diretamente com nenhum deles. Ao participar de um grupo de escrita literária, a sua personalidade começa a ser desenvolvida mais calmamente, mostrando que o adolescente/jovem adulto ainda está com o seu pensamento analítico em formação, mas que é totalmente influenciável por tudo que ocorre ao seu redor. E todo esse passo a passo permite que nos identifiquemos com ele – não pela sua forma de pensar ou agir, mas por claramente conseguir passar a imagem de um ser humano.

Por exemplo, enquanto o seu primo – talvez seu amigo mais próximo – flerta com o discurso da extrema direita – não economicamente, mas no que diz respeito à exclusão de refugiados, nacionalismo exacerbado e ao fato de manter uma, digamos, “linhagem pura” -, o protagonista mostra traços de que segue pelo mesmo caminho, mesmo não parecendo ser tão extremo quanto o discurso.

Um outro exemplo, e que deixa ainda mais claro o posicionamento do protagonista, ocorre após os 40 minutos de filme, aproximadamente, quando, em um diálogo aberto com os outros integrantes da oficina literária, são levantados pontos como: racismo, refugiados, globalização e o discurso de ódio. Coisas que, às vezes, se mostram tão impregnadas em nós, que acabamos fazendo erradamente sem nem ao menos perceber, seja ela na menor das atitudes.

O fato ainda do grupo da oficina literária ser tão variado (contando com brancos, negros e muçulmanos) serve ainda para mostrar o quanto o mundo está globalizado, contrapondo alguns dos discursos mostrados ao longo de toda a produção.

Mesmo citando atentados terroristas ocorridos na França recentemente, talvez com a ascensão da extrema direita também no Brasil, como o fato de Jair Bolsonaro ser um dos principais candidatos a presidência do país em 2018, o filme consiga fazer ainda mais sentido aos brasileiros. Afinal, mostra um pouco de como essa formação de ideias é feita e o quanto outro povo, ou raça, pode ser afetado por menor que seja a palavra dita.

Saindo da ideologia da produção e os assuntos que ela nos faz refletir, Laurent Cantet também acerta ao usar todo o seu cenário, aproveitando tanto as belezas naturais de La Ciotat, na França, quanto a luz do luar, por exemplo, que é uma das protagonistas de uma das cenas mais belas de todo o longa.

O filme ainda se arrisca ao andar na linha tênue na relação mestre-discípulo/professor-aluno. No entanto, a coragem do diretor em gerar tensão em alguns momentos coprotagonizados por esses personagens, foi recompensada, permitindo que o espectador imaginasse o que viria a seguir.

Em seu fim, com um discurso, Laurent Cantet deixa clara toda a sua intenção com o filme, desde a utilização de figuras de linguagem, metáforas e a imaginação proporcionada pela literatura, até imagens físicas de poder e ameaça.

 

Ficha Técnica

Título: A Trama

Título Original: L’Atelier

Direção: Laurent Cantet

Distribuição: Esfera Cultural

Sinopse: É verão em La Ciotat, na França. Antoine acaba de aceitar um convite para participar de um grupo de escrita, onde alguns jovens têm a tarefa de escrever um romance policial com a ajuda de Olivia, uma famosa romancista. O problema é que, durante o processo, o texto vai acabar revisitando assuntos antigos da cidade, fazendo com que Antoine perca o interesse e criando uma complicada inimizade com o grupo.

 

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