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Uma ex-comunista na presidência

Espera-se que a nova presidente dispa-se dos últimos vestígios do anticapitalismo que professava. Mailson Ferreira da Nóbrega

Uma ex-comunista na presidência
Dilma participou na luta armada contra o regime militar (Fonte:blogspot)

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Vem aí a primeira presidente que acreditava no comunismo e teve participação na luta armada contra o regime militar. Outro ex-guerrilheiro comunista, Jose Mujica, tomou posse como presidente do Uruguai em 1º de março deste ano.

A utopia comunista encantou muitos jovens, inclusive este escriba, entre os anos 1950 e 1960. Prometia a sociedade sem classes e a todos atender segundo suas necessidades. Na época, o comunismo da União Soviética parecia superar o capitalismo. Nikita Kruschev, o líder soviético, foi levado a serio quando em 1960 bateu o sapato na tribuna da ONU e depois anunciou que seu país suplantaria os Estados Unidos em 1980.  Em 1961 o russo Yuri Gagarin tornou-se o primeiro a ir ao espaço, ampliando o otimismo comunista. Acreditava-se que os países em desenvimento e até mesmo alguns desenvolvidos adotariam o socialismo soviético. Seria uma questão de tempo.

A promessa que não se cumpriu

A coisa não era tão rósea assim. O governo soviético privilegiava a indústria pesada, em detrimento da indústria leve e da agricultura. Dizia que mais tarde o sacrifício seria recompensado por sólida base industrial e pelo acesso a bens de consumo. Como a promessa não se cumpria, sinais de insatisfação apareceram já em 1953, nos distúrbios de Berlim. Em 1956 foi a vez da Hungria e da Polônia. Todos foram reprimidos. Novas promessas de mudança e melhoria não se concretizaram. O descontentamento aumentava a medida que a prosperidade se firmava nas sociedades capitalistas. No radio e na TV, os países vizinhos da Europa Ocidental viam que ficavam para trás. Ate os cidadãos soviéticos, mais distantes, começavam a notar o fosso.

Os dois problemas estruturais do mundo comunista ficaram evidentes: a supercentralização e a ausência de incentivos, particularmente de recompensas pelo esforço individual. Inibiam-se a inovação e os ganhos de produtividade, que são centrais no processo de desenvolvimento.

O crescimento comunista vinha do impulso da industria pesada, que se esgotava. A União Soviética chegou a superar os Estados Unidos na produção de alto, mas isso resultava de ineficiências. Um trator soviético pesava oito vezes mais do que o norte-americano. A agricultura se atrasava. A eletrônica virou de vez o jogo em favor do capitalismo. O transistor e o laser transformaram produtos de consumo, processos industriais, os transportes e as telecomunicações. O computador se tornou dominante. O comunismo perdeu a corrida tecnológica por causa das falhas sistêmicas do planejamento central.

Amadurecimento

A esquerda europeia percebeu a realidade. Aceitou a economia de mercado e a democracia como valores fundamentais, sobretudo depois da queda do Muro de Berlim. Entendeu que o capitalismo era também superior no respeito às liberdades individuais inerentes aos regimes democráticos. Na América Latina, o aggiornamento começou no Chile. Aos poucos, em distintas velocidades, se espraiou por outros paises. A madura esquerda chilena evitou o retorno da velha tradição intervencionista. O mesmo ocorreu no Uruguai. No discurso de posse, sem rodeios, Mujica prometeu uma política econômica ortodoxa. Institucionalmente, esses dois paises são os mais avançados da região.

No Brasil, o governo de FHC foi exemplo dessa mudança. Reverteu retrocessos estatistas da Constituição de 1988 e lançou as bases de um novo período de desenvolvimento. Lula manteve a política econômica, mas não continuou as mudanças nem evitou que em seu governo sobressaísse um vetusto anticapitalismo. o anticapitalismo, aliás, é a marca de muitos que abandonaram a utopia do socialismo real soviético. Sua conversão foi parcial. Defendem vigorosamente a democracia, mas desconfiam da economia de mercado. Recentemente, a preferência pelo estatismo se nutriu de um equívoco, o de que a crise financeira teria devolvido o prestígio à ampla intervenção na economia.

Espera-se que a nova presidente, na linha de seu colega uruguaio, dispa-se dos últimos vestígios do anticapitalismo que professava. Isso não significaria abraçar o absoluto livre mercado, outra utopia, mas liderar o país para livrá-lo de conhecidas ineficiências do estado.

Fontes:
Instituto Millenium - Uma ex-comunista na Presidência

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7 Opiniões

  1. Markut disse:

    Excelente e lúcida a avaliação de Mailson.
    É inacreditavel por quanto tempo cabeças pensantes se deixaram levar por essa equivocada ideologia de uma sociedade sem classes, paradisíaca e que traria a felicidade na terra.
    Não bastaram as trágicas e dolorosas experiências, que ocorreram ao longo do século XX, para entenderem que os estímulos necessários para mover o ser humano se prendem a desafios e competitividades, que só no capitalismo podem ser encontrados.
    A quimera de querer decretar o fim do capitalismo, pelos seus cruéis desvios que,de fato, periodicamente, devem ser corrigidos,é irreal e não leva em conta a verdadeira natureza humana. Nietzsche deveria ser mais rememorado.

  2. Francisco Aneas disse:

    Não existe comunista, o que existe é estelionatário político, que usa a ideologia comunista como meio para tomar o poder, portanto Dilma, não passa de mais uma bandida que vai usar o poder em benefício próprio e de seu grupo de mensaleiros e quadrilheiros. Quem roubou na juventude será uma etreno ladrão.

  3. Leidy Santos disse:

    QUE ASSIM SEJA!
    PORÉM, AINDA NÃO ESTOU ACREDITANDO!

  4. Gibran Shalom disse:

    Tenho a impressão de que soa muito melhor ser ex-comunista de que ser eterno sem vergonha!

  5. Elisa A disse:

    Belíssimo comentário do experiente Mailson da Nóbrega. Faço restrição somente ao elogio a FHC, que não privatizou, mas entregou a grupos estrangeiros às custas de recursos nacionais, via BNDES. Se tivessem sido mais sérias as privatizações não teria havido vez para Lula aplicar demagogias ao povo brasileiro. Quero crer que Dilma, muito mais competente que seu antecessor, recoloque os trens nos trilhos, sob modelo seu, sem copiar Lula nem FHC, mas com empenho e vistas ao social, à educação, à saúde, ao pleno emprego e às políticas de investimentos. É preciso respeito aos recursos do erário, gastar parcimoniosamente e investir corajosamente. QUE PONHA FIM À IMPUNIDADE DOS CORRUPTOS.

  6. Peter Pablo Delfim disse:

    Não sei o que credencia Mailson da Nobrega a emitir qualquer opinião. Provavelmente é a falta de vergonha. Comunismo e baboseiras infundadas acompanhadas de uma vontade enorme de que o Brasil de errado é o que se pode concluir. E ainda ficaram brabinhos quando Lula disse que os europeus não souberam lidar com a crise. Hipócritas!

  7. jaderdavila the small shareholder disse:

    pessoa que é extremista pra um lado,
    quando muda de lado,
    vira extremista pro outro lado.
    essa dilma era comunista,
    agora vai ser a maior capitalista de todos.
    se ela tirar o governo da relaçao patrao-empregado,
    acaba com a informalidade.

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