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Zonas de morte: o futuro dos oceanos?

Biólogo marinho com especialização em ecossistemas de mar profundo, Alex Rogers fala sobre os danos da superexploração dos oceanos

Zonas de morte: o futuro dos oceanos?
Astrália anunciou durante a Rio+20 um programa histórico de proteção dos oceanos (Reprodução/Internet)

Alex Rogers é Professor de Conservation Biology (Biologia da Conservação) no Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford e um Fellow do Somerville College. Ele é um biólogo marinho com especialização em ecossistemas de mar profundo e, em particular, nos habitats dos corais de água fria, montes submarinos e fontes hidrotermais.  Recentemente, ele liderou expedições científicas aos oceanos Índico e Antártico. Rogers também tem um interesse especial no uso sustentável dos oceanos e nos impactos humanos nos ecossistemas marinhos. Nesta entrevista concedida exclusivamente ao Opinião e Notícia, Rogers fala sobre os impactos da superexploração das espécies marinhas.

Quais são as principais ameaças aos oceanos hoje em dia?

Os maiores impactos podem ser resumidos na superexploração dos recursos vivos marinhos (sobrepesca) e poluição e os efeitos das mudanças climáticas.

Quais são os impactos que estes problemas causam nas espécies marinhas, especialmente os recifes de coral?

A superexploração tem sido a principal causa da extinção nos oceanos e levou muitas espécies marinhas, especialmente grandes predadores como tubarão e atum, a uma fração do tamanho de suas populações antes da exploração – geralmente abaixo de 10%, o que significa um colapso. Cerca de 70% dos recursos pesqueiros são explorados além dos níveis máximos de sustentabilidade e quase metade está deteriorada ou em colapso. Isto significa que a produção de pescado está reduzida, com impactos na segurança alimentar, mas também representa um grave efeito na estrutura das cadeias alimentares. Assim, os ecossistemas marinhos se tornam mais simplificados e menos resistentes a outros impactos. Este, com certeza, é o caso dos recifes de corais, onde a sobrepesca de peixes promove o crescimento de algas nos corais.  Isto significa que há uma mortandade em massa dos corais em consequência, por exemplo, de uma situação de branqueamento. É mais provável uma fase de mudança no estado do ecossistema de dominação pelo coral para dominação pelas algas. Sistemas dominados por algas são menos complexos, menos diversos e menos produtivos do que recifes de coral.

Poluição é um impacto humano que tem sido esquecido. O impacto de poluentes antigos como o TBT – usado em revestimentos marinhos, óleo, retardadores de chamas e pesticidas ou herbicidas – ainda está conosco no ambiente marinho. No entanto, há uma nova geração de produtos químicos que estão impactando ou potencialmente atingindo ecossistemas marinhos. Entre eles está uma nova geração de retardadores de chamas, químicos de produtos de uso pessoal e farmacêutico. Poluentes antigos e de nova geração têm um alcance amplo na vida marinha, da mortalidade direta a efeitos mais sutis na fisiologia de animais, incluindo crescimento, desenvolvimento e reprodução. Predadores maiores são particularmente vulneráveis a alguns destes poluentes, concentrados no alto da cadeia alimentar e nos tecidos, particularmente gorduras corporais de grandes predadores como baleias.

Agrotóxicos e fertilizantes também interagem com o ambiente marinho. Estes produtos químicos agem como nutrientes para algas marinhas microscópicas, causando um crescimento explosivo destas espécies. No entanto, quando estas algas morrem, elas são quebradas por bactérias e podem deteriorar o oxigênio presente na água. Nos piores casos, isso cria uma “zona de morte”. Pelo menos 400 destas zonas de morte já foram documentadas nos oceanos.

De todos os impactos no oceano, os efeitos da mudança climática têm se tornado presentes e muito sérios. No caso dos recifes de coral, desde o final da década de 1970 um fenômeno chamado branqueamento de coral tem destruído os recifes. Isto é causado pelo aumento da temperatura da superfície do mar, quando a combinação de temperaturas anormalmente altas por um período de tempo coincide com clima calmo, levando ao estresse dos corais e à ejeção de zooxanthellae. Estas são algas simbióticas que vivem nos tecidos dos corais e dão aos recifes a maior parte de sua energia e estrutura de vida. Quando branqueamento em massa ocorre, os corais – com frequência – morrem. A recuperação pode ocorrer em recifes, mas se eles já estão sob estresse por outros impactos como sobrepesca e poluição, o sistema de recife de coral pode entrar em colapso e ser substituído por um sistema de algas menos complexo como descrito acima. Em 1997/1998, aquecimento associado ao El Niño matou 16% dos recifes de coral do mundo e em algumas áreas, a morte instantânea chegou a 90%.

Uma nova ameaça chamada acidificação também deve afetar seriamente os recifes de coral. Isto ocorre como resultado da absorção pelos oceanos do CO2 que nós produzimos. Isto é convertido em ácido carbônico, reduzindo o pH dos oceanos e alterando a concentração de carbonato na água do mar. Corais constroem seus esqueletos a partir de uma forma de carbonato chamada aragonita. Assim, a acidificação reduz a calcificação de corais e também afeta a estrutura de seus esqueletos, reduzindo densidade. Considerando que as emissões de CO2 continuem a aumentar e que o pH continue a diminuir, haverá impactos sérios aos recifes de corais.

A Austrália anunciou durante a Rio+20 um programa histórico de proteção dos oceanos. Como isto vai beneficiar os oceanos em uma escala global?

É verdade, o anúncio eleva o número de áreas marinhas protegidas para 60, com uma área de mais de três milhões de km2. São boas novas, ainda que eu não saiba os detalhes de quais atividades serão permitidas dentro destas áreas de proteção, pois parece que algum tipo de pesca e de exploração de petróleo e gás será autorizado por eles. Ainda com esta ressalva, são ótimas notícias. O desenvolvimento de uma rede de áreas de proteção marinha é essencial por causa da forte conectividade entre ecossistemas marinhos. Por isso a rede de reservas australianas vai beneficiar muito além da sua área geográfica por meio da proteção de espécies migratórias como peixes, pássaros e baleias, exportar larvas de animais marinhos e também aumentar a resistência dentro de ecossistemas maiores, a partir do apoio de populações marinhas que serão protegidas.

Você acredita que a Rio+20 significou uma evolução na proteção dos oceanos?

Há algumas notícias muito boas para os oceanos com a Rio+20. Por exemplo, compromissos com a exploração sustentável de populações de peixes marinhos são extremamente importantes tanto para a conservação marinha como para a segurança alimentar – cerca de três bilhões de pessoas dependem de pescado para 15% de proteína na sua dieta. Reafirmar o compromisso de proteger 10% dos oceanos é também muito importante para a conservação das espécies e estabilidade dos ecossistemas marinhos. Renovar os chamados para manejo do impacto de atividades humanas nos oceanos e da proteção de ecossistemas marinhos vulneráveis é importante para proteger os ecossistemas de águas profundas, especialmente em alto mar. Falta de transparência na gestão é o fator chave no colapso do pescado, assim o chamado para mais transparência na operação das organizações regionais de pesca, os organismos responsáveis pela gestão dos altos mares e do pescado migratório, é também importante.

Pelo lado negativo, o fracasso em iniciar negociações para adoção de um novo acordo de proteção da biodiversidade no alto mar é decepcionante. Significa que muitas atividades que causam grande impacto nos ecossistemas de alto mar, particularmente a pesca, continuarão a destruir cumulativamente espécies e comunidades. O texto da Rio+20 fala de uma decisão em três anos sobre se haverá ou não estas negociações, uma perda trágica nos esforços pela proteção do oceanos. Eu também me pergunto até que ponto o texto da Rio+20 vai resultar em implantações reais e concretas. Por exemplo, em relação ao manejo sustentável de pescado, muitas populações de peixes, em algumas regiões em sua maioria, são gerenciadas sem nenhum tipo de informação detalhada sobre o efeito da mortalidade de pescado nas espécies daquela área e no ecossistema como um todo. Será preciso investimento pesado em infraestrutura e ciência da pesca para se conseguir que este tipo de ação seja bem-sucedido.

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