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Palestina

A paz pode estar com os dias contados

Apesar de um longo período de calma e prosperidade comercial, tensões voltam a crescer na Cisjordânia

A paz pode estar com os dias contados
Proximidade entre a Autoridade Palestina e Israel tem inflamado os ânimos de islamitas radicais na Cisjordânia (Reuters)

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Cinco anos depois de Mahmoud Abbas, o presidente palestino, rejeitar um governo eleito dos islamitas do Hamas e decidir governar por decreto, a Autoridade Palestina, que supervisiona a Cisjordânia enfrento um perigoso desafio interno. Em Nablus, guerras territoriais recentemente surgiram entre comandantes de batalhões de segurança rivais, acabando com quatro anos de calma. As paredes do poço de Jacó, de uma igreja local, de um teatro e do escritório da ONU, todas trazem as cicatrizes dos recentes tiroteios. “É um inferno”, diz uma assistente social de Balata, o maior campo de refugiados da cidade, que sofreu gravemente durante duas intifadas anteriores, entre 1987-1993 e 2000-2005. Agora as pessoas estão começando a se perguntar se haverá uma terceira Intifada, desta vez tendo como alvo tanto a Autoridade Palestina quanto os israelenses que ocupam a Cisjordânia.

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Por enquanto, Abbas tem vantagem. Fora de Ramallah, sede do governo da Autoridade Palestina, seus guardas presidenciais detiveram dezenas de agentes de segurança desonestos, alguns deles veteranos, em Nablus e em Jenin, uma pequena cidade palestina ao norte, onde o governador recentemente morreu de um ataque cardíaco depois que tiros de metralhadoras atingiram sua casa. Em Jenin, membros do exército leais a Abbas patrulham as ruas com fuzis M-16 capturados das mãos de seus rivais.

Os doadores ocidentais da AP elogiam Abbas por sua prontidão para conter os seus próprios bandidos. Generais de Israel, que deram a ele um esquema de segurança, agradecem a prevenção tardia da anarquia. E pela primeira vez em meses, os moradores do campo estão desfrutando de suas primeiras noites de sono ininterrupto por tiros.

Além disso, o povo de Nablus ainda aprecia a prosperidade relativa que ressuscitou a cidade após a segunda Intifada. Centenas de empresários voltaram desde que Israel retirou os bloqueios dos portões da cidade, e cerca de 700 mil cidadãos árabes de Israel vieram fazer compras no ano passado no elegante bairro medieval. O governador espera que os turistas estrangeiros sigam a tendência, com planos de desviar a “trilha da natividade” que vai de Nazaré a Belém, para incluir Nablus na rota. Um novo hotel e um museu deverão abrir neste verão sobre as ruínas de al-Wikala, um caravançará medieval atacado pelos tanques israelenses durante a segunda intifada. O desemprego caiu pela metade, dizem membros do governo palestino. Em distritos mais ricos, as mulheres jovens estão descartando seus véus.

Mas os moradores do campo estão profundamente divididos. Embora muitos gratos pela calma que Abbas e seu primeiro-ministro, Salam Fayyad, trouxeram nos últimos anos, outros se ressentem da segurança pesada do regime palestino. Fortalezas imponentes estão surgindo em toda as principais cidades da Cisjordânia. Muitos palestinos se irritam com a cooperação entre seu governo e o de Israel. “Nós damos os nomes e eles os prendem”, diz um oficial israelense. Muitos palestinos temem estar condenados a lidar com a ocupação por tempo indeterminado. Em um recente funeral para três guerrilheiros locais, cujos corpos Israel recentemente devolvera às suas famílias, os enlutados gritavam “Abaixo a Autoridade Palestina!”

Mais preocupante para Abbas foi o fato de que os líderes do recente conflito vêm de seu partido, a Fatah, que fornece a base das forças de segurança da Autoridade Palestina. Membros do governo temem que altos comandantes da Fatah que caíram em desgraça com Abbas, em especial, o ex-chefe de inteligência, Tawfiq Tirawi, e uma figura de destaque, Muhammad Dahlan, estejam alimentando a inquietação, na esperança de criar um vácuo de segurança que poderiam mais tarde preencher. O Hamas, que ainda controla a Faixa de Gaza, mas é fortemente reprimido na Cisjordânia por Israel e pelo governo palestino, aguarda a tardia chegada da Primavera Árabe à Palestina. Os israelenses podem se contentar em ver Abbas ocupado com os palestinos recalcitrantes ao invés de enfrentar Israel no cenário mundial.

A regeneração comercial de Nablus não pode curar um corrosivo mal-estar nacional. “Não há horizonte político”, dizem palestinos descontentes. Eles cada vez mais questionam o papel da Autoridade Palestina. Ela não conseguiu inaugurar um Estado palestino, e parece impotente para impedir as incursões militares israelenses ou a implacável expansão de assentamentos judaicos na Cisjordânia. “Todas as janelas estão fechadas, e a elite política não tem as chaves para abri-las”, diz Raid Nairat, um acadêmico. Os 30 mil soldados da segurança palestina parecem pouco dispostos a levar adiante uma busca recente pela reconciliação entre Fatah e Hamas, que os forçaria a compartilhar o poder. A recente prisão de 150 homens do Hamas ajudou a amortecer as esperanças de um acordo.

Uma crise fiscal está agravando a crise política. No papel, a Autoridade Palestina prevê um déficit orçamentário de US$ 1 bilhão, equivalente a 10% do PIB. Mas isso pode dobrar quando dívidas a empresas privadas forem adicionadas. Sem remuneração há anos, os fornecedores recusam ordens do governo sobre o crédito, e estão tendo que cortar a produção e suas forças de trabalho. Construtores palestinos reclamam que os ministérios somente os pagam quando recebem subornos. “Nós não vamos deixar o nosso sistema financeiro afundar com a Autoridade Palestina”, diz um banqueiro palestino.

Os doadores também estão cansados. O dinheiro do Golfo diminuiu, em parte porque os Emirados Árabes Unidos, que costumava enviar US$ 200 milhões anuais, parece ter se alinhado com Dahlan. “O colapso está chegando”, diz um funcionário no escritório de Fayyad. “Se não pudermos pagar os salários para o Ramadã (o mês muçulmano do jejum, que começa em 20 de julho), haverá uma revolta”.

Poucos palestinos pedem uma renovação de violência. Mas o assunto está novamente no ar. Em algumas cidades da Cisjordânia, o Hizb ut-Tahrir, um grupo extremista islâmico, tem feito progressos. “Um exército muçulmano deve defender os muçulmanos, não os judeus”, diz um islamita irritado, denunciando a coordenação da segurança com os kuffar (infiéis) judeus.

Fontes:
The Economist - The calm may not last for ever

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1 Opinião

  1. juliano simoes disse:

    acabe com as gerras no mundo por causa das contradiçoes e evoluçao para um mindo melhor.mande mensagem de paz para oriente e o mundo via sat inter tv e radio. juliano simoes

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