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Hong Kong vai às ruas contra Hu Jintao

Visita do presidente chinês é marcada por protestos pró-democracia

Hong Kong vai às ruas contra Hu Jintao
'A resposta é não!': manifestantes carregam um cartaz com a recente capa da TIME asiática, que pergunta se Hong Kong pode confiar em Leung Chun-ying (Alex Hofford/EPA)

Dentro do frio do ar-condicionado do centro de convenções no porto, onde os britânicos formalmente entregaram o controle de Hong Kong para a China há 15 anos, o presidente chinês, Hu Jintao nomeou Leung Chun-ying como chefe-executivo da cidade, dando a ele a missão de enfrentar tensões sociais e “medir com precisão a opinião pública”.

Para uma medida da opinião pública, Leung não teve que esperar muito tempo. Horas depois de Hu deixar a cidade, dezenas de milhares de residentes de Hong Kong se reuniram no Victoria Park para uma marcha que deu voz a uma série de queixas e esperanças de mudança.

Há um mal-estar profundo e crescente em Hong Kong a respeito de uma série de questões: desde a desconfiança nos líderes locais e continentais e um desejo de democracia plena, até a frustração com a desigualdade sempre crescente e os preços dos imóveis. A raiva pela morte suspeita do dissidente chinês Li Wangyang no mês passado, na província central de Hunan, já tinha levado dezenas de milhares às ruas da cidade.

Não é surpresa, portanto, que na marcha de 1º de julho – um evento anual desde 2003, quando cerca de 500.000 pessoas apareceram para protestar contra a legislação antisubversão, entre outras questões – teve um significado extra, e foi uma grande exibição de demanda por mudança.

“Eu trouxe minha filha aqui hoje para lhe ensinar a democracia, para que ela possa aprender que as pessoas podem fazer a diferença”, diz o professor Raymond Chang. “Espero que eles possam”. Os manifestantes vestiam camisetas retratando Leung como um lobo (um apelido que lhe foi dado durante a sua campanha por conta da desconfiança das pessoas sobre ele) e cartazes que diziam: “Hong Kong em risco”. Alguns deles carregavam cópias da edição asiática da TIME desta semana que pergunta: “Hong Kong pode confiar nesse homem?”

Em seu discurso no centro de convenções, o presidente chinês disse que Hong Kong nunca teve a liberdade que tem agora e convocou a cidade a aumentar a competitividade econômica e cultivar os novos talentos políticos. Mas, mesmo dentro desse ambiente seguro, na altamente coreografada posse de Leung, o descontentamento de Hong Kong era evidente. Enquanto o presidente chinês falava para cerca de 2.300 personalidades, um manifestante solitário interrompeu o discurso para exigir o fim da ditadura monopartidária da China. A France-Presse relatou que ele foi rapidamente cercado e afastado. O manifestante, um membro do Partido Cívico pró-democracia, foi liberado mais tarde.

Este não foi o primeiro incidente a constranger o líder chinês. Enquanto Hu Jintao visitava o canteiro de obras da construção de um terminal de cruzeiros no dia anterior, um repórter local gritou com ele, de dentro da área de imprensa, perguntando se Pequim sabia que o povo de Hong Kong desejava justiça pelo massacre de manifestantes na Praça da Paz Celestial, em 1989. Hu não respondeu, e o repórter foi afastado e lutou brevemente antes de ser detido. A Associação de Jornalistas de Hong Kong acusou a polícia local de “fazer o policiamento do continente em Hong Kong” e prometeu apresentar uma queixa.

Embora Hu tenha dito que queria “andar mais” e “entender melhor a vida dos moradores de Hong Kong” durante sua visita, a segurança manteve todos os aspectos do seu itinerário em segredo. A polícia ergueu barricadas gigantes em vários locais para manter as pessoas à distância, e usou spray de pimenta contra manifestantes. “Isso é ultrajante”, disse Leung Kwok-hung, legislador pró-democracia, e um dos atingidos pelo spray. “Mas a vontade das pessoas de mostrar sua oposição é realmente fenomenal”.

O governo de Hong Kong afirmou que Leung e sua equipe “irão até os bairros para ouvir as opiniões e aspirações das pessoas e trabalhar em conjunto com o povo para resolver os problemas profundamente enraizados de forma pragmática, melhorando a vida da população e promovendo a harmonia e estabilidade na sociedade”. Como se tornou costume entre os líderes chineses que visitam Hong Kong no 1º de julho, Hu Jintao já havia deixado a cidade no momento em que a marcha principal começara na tarde de domingo.

Fontes:
TIME Magazine - On the Streets of Hong Kong, a Vast Display of Discontent

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1 Opinião

  1. Carlos U. Pozzobon disse:

    Tal como no Brasil, a China não conseguiu dar a partida em sua primavera de protestos. Mas está lutando para sensibilizar cada vez mais a população. Não sei se os velhos líderes comunistas tem consciência de que o desenvolvimento do capitalismo cria uma classe média disposta a desafiar o status quo de um regime quando percebem que não estão conseguindo progredir devido ao retrocesso imposto pelas condições políticas: nesse momento a ira explode e se torna um caminho cada vez mais sem volta. A China mantém controle sobre a Internet e os emails do país, mas mesmo assim a pressão da cidadania descontente aumenta cada vez mais.

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