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A fronteira mais perigosa do planeta

Como o Ocidente pode ajudar a aliviar as tensões que marcam a relação entre Índia e Paquistão

A fronteira mais perigosa do planeta
Fronteira que separa Paquistão e Índia é palco de tensões que envolvem armas nucleares e grupos terroristas

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O falecido Richard Holbrooke, enviado da gestão de Barack Obama ao Afeganistão e ao Paquistão, teve muitas virtudes como diplomata, mas o tato não estava entre elas. Sua descrição de suas operações como “Afpak” enfureceu os paquistaneses, que queriam ser vistos pelos norte-americanos como um aliado poderoso e sofisticado, digno de atenção especial, e não apenas um sufixo para seus briguentos vizinhos tribais. Mas esse não foi o único motivo pelo qual o termo foi infeliz. Ele encorajou a compreensível tendência norte-americana – moldada pela ocupação soviética do Afeganistão, a guerra contra o Talibã e a recente morte de Osama bin Laden – de enxergar o Paquistão unicamente no contexto de usar o norte de seu território como terreno de operações militares, ignorando a origem de muitos dos problemas do país, incluindo o terrorismo: as turbulentas relações com seus vizinhos ao leste.

A fronteira entre a Índia e o Paquistão foi palco de uma divisão em 1947 que deixou centenas de milhares de mortos; mais de 15 mil mortos em três guerras, e 25 anos lutando por uma geleira; um número entre 40 mil e 100 mil mortos (dependendo da versão na qual você acredita) na insurgência na disputada província da Caxemira. E agora os dois países possuem armas nucleares.

O sangue derramado na disputa pela fronteira não é a única medida dos danos causados pelas terríveis relações entre os dois países. Na Índia, ela exacerba conflitos entre hindus e muçulmanos. Mas o Paquistão foi mais afetado. Medo e ódio em relação à Índia distorceram sua visão do mundo e sua política. Ignorar isso – como o Ocidente parece fazer novamente – é um erro terrível, especialmente porque um acordo definitivo não é algo impossível.

Morte e distorção

A obsessão paquistanesa com a Índia prejudicou o país de três formas. Primeiro, deu muito poder aos generais. O exército do Paquistão, com 550 mil homens, é muito pequeno para enfrentar o exército indiano de mais de 1 milhão de soldados, mas grande demais para o próprio Paquistão. Como as forças armadas são poderosas, o governo é fraco; e as intervenções frequentes dos soldados na política paquistanesa amplificam esse desequilíbrio e prejudicam a democracia.

Em segundo lugar, ela moldou as negociações do Paquistão com o Afeganistão. Nos anos 1990, o Paquistão ajudou a criar o Talibã, em parte para minar os aliados da Índia no norte do Afeganistão. Embora tenha se comprometido a combater o Talibã após os ataques de 11 de setembro de 2001, o Paquistão continuou a proteger membros do grupo para combater a influência indiana no Afeganistão.

Em terceiro lugar, levou o Paquistão a desenvolver o terrorismo islamita – especialmente o Lashkar-e-Taiba (LeT), um grupo da região de Punjab criado para atacar a Índia. Depois que o LeT atacou o parlamento indiano em dezembro de 2001, o Paquistão baniu a organização, mas ela sobreviveu – seja por que ela se tornou muito poderosa para ser esmagada (como defendem os paquistaneses), ou porque ela é secretamente ajudada pelas forças armadas paquistanesas (como acreditam os indianos). Seja qual for o motivo, a Índia não é a única vítima dessa política: o terrorismo no Paquistão está sendo impulsionado por facções dissidentes do LeT – e está se tornando global.

Enquanto a Índia cresce em fortuna e poder, aumenta também o medo e a obsessão com o Paquistão. Ainda assim, a Índia também se beneficiaria de uma solução. A tensão com o vizinho a distrai da ascensão do gigante ao norte, e a China irá inevitavelmente dominar seu horizonte de segurança no século XXI. Os Estados Unidos têm muito a ganhar com um subcontinente mais seguro. Se a visão paquistanesa não fosse distorcida pela Índia, o país seria capaz de enxergar corretamente seus problemas com o terrorismo.

O grunhido dos soldados

Seis décadas e meia de conflitos sangrentos sugerem que o problema possa ser intratável. A hostilidade surge numa potente mistura de religião, história e territórios. Embora os confrontos tenham diminuído na Caxemira, a questão permanece extremamente sensível: o governo indiano censura publicações que trazem mapas apresentando a divisão – na prática – da fronteira atual. Políticos em ambos os países são insensíveis: mesmo aqueles que gostariam de uma solução cedem à pressão doméstica – os indianos, da nacionalista hindu; os paquistaneses, não apenas de militantes muçulmanos, mas também dos generais que enxergam a Índia como um problema militar, e não político.

A população mais nervosa do subcontinente costumava se assegurar que nenhum dos dois lados usaria armas nucleares, pois as consequências radioativas poderiam se voltar contra o agressor. Isso pode ter deixado de ser verdade. Desde que os Estados Unidos desestabilizaram o cenário em 2008, concordando em ceder tecnologia nuclear civil à Índia, a determinação do Paquistão em aumentar seu arsenal nuclear aumentou. No mês passado, o país anunciou que testara novo míssil móvel com uma ogiva nuclear miniaturizada criado para destruir tanques invasores com pouca expansão da radiação além dos campos de batalha, aumentando assim o risco de que uma incursão pela fronteira tome proporções muito mais perigosas. No dia 13 de maio, o chefe dos poderosos Serviços de Inteligência do Paquistão disse ao Parlamento que já havia escolhido alvos na Índia e treinado ataques. Ele não falou especificamente de ataques nucleares, mas não os excluiu.

Esses são tempos perigosos: os militantes paquistaneses estão evidentemente dispostos a mostrar que o terrorismo islamita não se foi com a morte de Bin Laden, e – ao contrário do que aconteceu na Guerra Fria – há um cenário que permite que terroristas provoquem um conflito nuclear ou explodam por conta própria um artefato nuclear.

Mas enquanto os soldados grunhem, os políticos têm progredido. Entre 2004 e 2007, reuniões e diálogos estabeleceram um prazo para uma resolução quanto à Caxemira, na qual o Paquistão abriria mão de suas reivindicações territoriais, e a Índia concordaria em instalar uma fronteira “suave” (que permitiria um trânsito mais livre). Esse acordo foi destruído pelo ataque realizado em Mumbai pelo LeT em 2008, que matou 170 pessoas. Mas os governos de ambos os lados demonstraram vontade de retomar as negociações e os diálogos foram restabelecidos. O primeiro-ministro indiano Manmohan Singh encontrou seu equivalente paquistanês Yusuf Raza Gilani durante uma partida de críquete em março, e seus ministros de relações exteriores têm um encontro marcado para julho. O mapa abaixo apresenta as principais disputas territoriais na região.

Os ingredientes necessários para o progresso são claros. O Paquistão teme que se esforçar mais para deter os grupos terroristas que queiram atrapalhar as negociações; a Índia, para ajudar o Paquistão a abandonar sua reivindicação pela Caxemira, deve retirar suas tropas, conceder uma ampla autonomia e parar de disparar contra os jovens estudantes que atiram pedras em seus soldados (no último verão, 120 jovens morreram desta forma).

No entanto, os riscos – por exemplo, de outro ataque terrorista – são imensos. Depois do ataque em Mumbai, os políticos indianos se tornaram mais cautelosos. Os Estados Unidos podem ajudar. O acordo nuclear dá ao país uma influência extra sobre a Índia, na qual os indianos devem se apoiar para demonstrar flexibilidade quanto à Caxemira, e também deve mudar sua abordagem em relação ao Paquistão. Os Estados Unidos municiam os soldados do Paquistão com ajuda militar, e tendem a falar com eles ao invés dos políticos. No ano passado, os norte-americanos pressionaram o governo para que o general Ashfaq Kayani recebesse uma extensão de seu período como chefe das forças armadas, e informou aos generais paquistaneses da morte de Bin Laden antes que Obama telefonasse para o presidente Zardari.

Aumentar a influência dos soldados diminui as chances de um acordo político com a Índia. Por si só, uma acordo com os vizinhos não fará do Paquistão um lugar seguro. Mas encorajaria uma série de mudanças – um controle maior dos generais, a construção de instituições democráticas, investimentos maiores em saúde e educação, uma rejeição ao terrorismo islamita, reflexões sobre a abordagem ao Afeganistão – que poderiam começar a transformar o país. Até que isso aconteça, o Paquistão continua sendo uma decepção para si mesmo, e um perigo para o mundo.

Fontes:
The Economist - "The world's most dangerous border"

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