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Alemanha busca integração com imigrantes

País quer reverter fracasso de experiência multicultural

Alemanha busca integração com imigrantes
Cerca de 15 milhões de alemães são imigrantes ou descendem de imigrantes (Fonte: AFP)

Como Halime Cengiz se encaixa na Alemanha? Uma típica “filha de trabalhadores estrangeiros”, ela usa um hijab e passa muito tempo na mesquita de Mevlana, em Gröpelingen, um bairro de Bremen, repleto de imigrantes. Embora tenha um passaporte alemão, ela nunca diria que é alemã (ou turca). Ela se define como “alguém de Bremen com raízes turcas”. No entanto, ela fala alemão perfeitamente. Seu véu e seu casamento não foram impostos. Parte de seu trabalho na mesquita envolve as igrejas, diminuindo barreiras entre cristãos e muçulmanos. Ela implora aos pais que mandem suas crianças ao jardim de infância, para que desenvolvam seu alemão. Os pais se preocupam com a possibilidade de seus filhos se tornarem “muito alemães”, mas Cengiz apazigua esses medos. Ela poderia ser uma imigrante-modelo.

Estranhamente, a Alemanha está perseguindo os imigrantes, justamente quando precisa mais deles. A força de trabalho está diminuindo e o crescimento está aumentando a demanda por trabalhadores qualificados, cuja escassez custou € 15 bilhões aos cofres em 2009, diz Rainer Brüderle, o ministro da economia. Ele quer importar trabalhadores qualificados usando um sistema de pontuação semelhante ao do Canadá. Horst Seehofer – premier da Bavária e líder da União Social Cristã, braço regional da União Democrática Cristã, partido da primeira-ministra Angela Merkel – está relutante. No dia 3 de novembro, Merkel organizou um “encontro de integração” para tratar dos imigrantes que já estão no país, e ainda em novembro, o governo voltará a discutir o assunto.

Cerca de 15 milhões de alemães têm um “background de imigração” (são imigrantes ou descendem de imigrantes), um número somente superado pelos Estados Unidos. Quatro milhões deles são alemães oriundos do antigo bloco comunista. Mas muitos outros vieram como trabalhadores temporários nos anos 1950 e 1960, especialmente da Turquia. Em Bremen, onde mais da metade das crianças é descendente de imigrantes, a probabilidade de que essas crianças freqüentem o jardim de infância é menor que entre os alemães. Apenas 8% dos jovens estrangeiros estão em treinamento vocacional. Entre os alemães esses números chegam a 37%. Numa cidade lutando para se recuperar do colapso da indústria naval, 16,4% dos imigrantes estavam desempregados contra 7,5% dos alemães nativos. Mais de 40% dos imigrantes vive abaixo da linha de pobreza, um número três vezes que o de alemães na mesma condição. O gráfico abaixo apresenta as parcelas de populações imigrantes em oito países europeus.

Não é surpresa que a integração social seja difícil para filhos de operários que inicialmente pensavam em retornar. Nas grandes cidades, eles andam em grupos e freqüentam as escolas das quais as crianças alemãs fugiram, dificultando o processo de integração, diz Stefan Lutz, da Universidade de Bremen. Para os turcos é ainda mais fácil viver num mundo paralelo, já que há tantos deles. Para muitos imigrantes, o seguro-desemprego é uma alternativa aceitável ao trabalho. O islã pode ser outra barreira, mas apenas para os muçulmanos que assim desejarem. Um estudo estima que 10-12% dos muçulmanos tem tendências radicais, e um quarto dos adolescentes muçulmanos são hostis a cristãos, judeus e à democracia.

A Alemanha abriu os olhos para o problema há uma década. Em 2000, o país criou um caminho para a cidadania. Desde 2005, imigrantes podem ser obrigados a freqüentar “cursos de integração”, que incluem 600 horas de instruções em alemão. Esposas estrangeiras agora são obrigadas a aprender o básico do idioma antes de entrar no país. A decisão irritou os turcos, mas foi “vital”, diz Erhard Heintze, comissário de integração de Bremen. O domínio do alemão das crianças é testado regularmente.

A diferença no desemprego entre alemães e estrangeiros é uma das menores do mundo e a polarização social não é tão grave como na França. Os seguidores de Thilo Sarrazin estão aumentando os padrões para julgar o sucesso da integração. Seria bom se os imigrantes desenvolvessem um sentimento de ligação com a pátria e sua Leitkultur, mas será que isso é necessário? “Falar alemão e conviver com alemães é mais importante do que se sentir alemão”, diz Ruud Koopmans, do Centro de Pesquisa Social em Berlim. Cengiz diz que “muitas famílias pensam em voltar para a Turquia”, depois que o debate sobre a situação dos imigrantes ganhou um sabor mais amargo nos últimos meses. O presidente alemão, Christian Wulff, tentou amenizar os danos, afirmando que “o islã também pertence à Alemanha”, mas não obteve muito sucesso.

Bremen busca criar um clima em que tais declarações sejam muito óbvias para serem feitas. Nas escolas, crianças imigrantes são a regra, não a exceção, e o novo currículo de treinamento de professores permite que a língua natal das crianças seja usada quando necessário, e busca novas maneiras de educar crianças muçulmanas sobre os crimes cometidos pelos alemães contra os judeus. A ideia dos alemães sobre o que significa ser alemão terá que mudar também, diz Yasemin Karakasoglu, da Universidade de Bremen. Em Bremen, a população local parece pronta para isso. A maioria dos alemães, não.

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Fontes:
Economist - Immigration in Germany: Multikulturell? Wir?

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2 Opiniões

  1. Markut disse:

    Embora o vetor normal seja o da miséria e ignorância para o do bem estar e cultura, ambos os lados se defrontam com sérios problemas.
    Para o bem ou para o mal, a Europa não será mais a mesma.
    Preconceitos sociais e religiosos , de ambos os lados, constituem um perigoso e explosivo quebra cabeças.

  2. Peter Pablo Delfim disse:

    O mundo, em escala menor os políticos e proporcionalmente as estatísticas e a mídia operam muitos milagres por cada piscadela de olhos. Vejam só! A Alemanha precisa de imigrantes. Não sei se quando terminar de escrever minha opinião já não terá mudado tudo.
    Então o euro vai maravilhosamente bem. O bloco europeu está preocupado com uma “marola” como disse Lula. “Meu reino por uma verdade.” Agóra os Senhores sabem o real valor da verdade hoje em dia.

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