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Cientistas descontrolados

Disputa que terminou em cadeia evidencia a desordem no mundo científico da China, onde acusações sem fundamento levam a batalhas legais (e físicas)

Cientistas descontrolados
A ciência chinesa precisa de ordem (Fonte: Economist)

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Uma disputa recente evidenciou o que pode estar se tornando um problema na China: uma “caça às bruxas” imprudente em meio à desordem do mundo científico chinês. No último dia 28, um urologista chamado Xiao Chuanguo confessou, na televisão, ter arquitetado ataques a um blogueiro e um jornalista que já haviam criticado publicamente – e sem muitas provas – seu trabalho. Mais que uma simples vingança, os incidentes revelam os riscos de alegações vagas e ataques pessoais anônimos, cada vez mais presentes nos veículos científicos do país.

As disputas de Xiao com os blogueiros é antiga – e já teve alguns desfechos no tribunal. Fang Shimin é autor do blog Xin Yu Si (Novas Tendências), que posta cerca de 100 acusações de fraude científica por ano. Enquanto algumas são legítimas, outras são anônimas e vagas, dificultando a defesa de possíveis inocentes. Isso trouxe a Fang alguns inimigos – incluindo Xiao. Em 2000, o médico começou a criticar as atitudes de Fang em seu blog. No ano seguinte, publicou um artigo acusando Fang de plágio. Fang foi inocentado, mas, após alguns anos de brigas, soube que Xiao havia se candidatado à Academia Chinesa de Engenharia. Em represália, obteve a ficha de inscrição do urologista e foi a público apontando diversas inconsistências.

A briga culminou quando Fang alegou que Xiao teria “exagerado” os efeitos de um procedimento cirúrgico que havia inventado visando à recuperação da função da bexiga de pessoas com um defeito congênito. Xiao, em resposta, processou Fang algumas vezes. Ele venceu dois casos, perdeu outros dois e vários permanecem sem decisão. Fang Xuanchang, segunda vítima da agressão arquitetada por Xiao, também foi crítico em relação ao procedimento do urologista. No último outono, publicou na Science News – revista onde era editor – dois artigos questionando a segurança da cirurgia, utilizando como fonte um advogado sem conhecimento científico ou médico.

Se as disputas fossem casos isolados, talvez não tivessem muito impacto, mas parecem representar um fenômeno mais abrangente na China. Em 2006, por exemplo, cientistas chineses – muitos dos quais trabalhavam nos Estados Unidos – escreveram para oficiais de regulação científica avisando sobre os riscos de alegações sem fundamento e ataques pessoais anônimos. Eles pediram que acusações de má fé na ciência fossem devidamente investigadas. Além disso, argumentaram, investigações deveriam ocorrer em confidência e os envolvidos deveriam ser considerados inocentes até provada a culpa.

Infelizmente, nada foi resolvido ainda e os dois lados permanecem culpados. O que começou como uma tentativa de “iluminar” um canto obscuro da vida chinesa se tornou uma caça às bruxas. A conclusão é que a ciência chinesa precisa de ordem.

Levando-se em consideração o número de pesquisas publicadas, a China é a segunda nação mais cientificamente produtiva da Terra. Incidentes como esses, no entanto, levantam dúvidas sobre o quão confiável é essa produtividade. Caso a China não consiga uma ciência honesta, seu desenvolvimento será impedido. E, considerando o número de homens poderosos da China que são engenheiros, é surpreendente como isso ainda não foi percebido.

Leia mais:

Governo chinês reage a Nobel e diz que escolha foi blasfêmia

Fontes:
Economist - Chinese ethics: Scientists behaving badly

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2 Opiniões

  1. Markut disse:

    Será que essa caça às bruxas, já endêmica na China, não se liga ao carater autocrático e centralizador do regime ditatorial, onde a delação e a falsa denúncia são usuais?
    Num sistema político como esse, o lado obscuro da natureza humana vem à tona.
    Torna-se intrigante imaginar como essa potência econômica harmonizará a sua abertura econômica, que traz a reboque o surgimento de uma poderosa classe média consumista,mais letrada e insurgente, com a força de um poder ditatorial.

  2. Mauro Moreira disse:

    “Ciência é muito mais uma maneira de pensar do que um corpo de conhecimentos.” – Carl Sagan
    “…ciência consiste em agrupar factos para que leis gerais ou conclusões possam ser tiradas deles.” – Charles Darwin
    O método científico é composto dos seguintes elementos:
    • Caracterização – Quantificações, observações e medidas.
    • Hipóteses – Explicações hipotéticas das observações e medidas.
    • Previsões – Deduções lógicas das hipóteses.
    • Experimentos – Testes dos três elementos acima.
    O método científico consiste dos seguintes aspectos:
    • Observação – Uma observação pode ser simples, isto é, feita a olho nu, ou pode exigir a utilização de instrumentos apropriados.
    • Descrição – O experimento precisa ser replicável (capaz de ser reproduzido).
    • Previsão – As hipóteses precisam ser válidas para observações feitas no passado, no presente e no futuro.
    • Controle – Para maior segurança nas conclusões, toda experiência deve ser controlada. Experiência controlada é aquela que é realizada com técnicas que permitem descartar as variáveis passíveis de mascarar o resultado.
    • Falseabilidade[1] – toda hipótese tem que ser falseável ou refutável. Isso não quer dizer que o experimento seja falso; mas sim que ele pode ser verificado, contestado. Ou seja, se ele realmente for falso, deve ser possível prová-lo.
    • Explicação das Causas – Na maioria das áreas da Ciência é necessário que haja causalidade. Nessas condições os seguintes requerimentos são vistos como importantes no entendimento científico:
    • Identificação das Causas
    • Correlação dos eventos – As causas precisam se correlacionar com as observações.
    • Ordem dos eventos – As causas precisam preceder no tempo os efeitos observados.
    Na área da saúde a natureza da associação causal foi formulada por Hence e adaptada por Robert Koch em 1877 para demonstração da relação causal entre microrganismos e patologias consistindo basicamente no enunciado acima ou seja: força da associação (conectividade); seqüência temporal (assimetria); transitividade (evidência experimental); previsibilidade/ estabilidade.
    Uma maneira linearizada e pragmática de apresentar os quatro pontos acima está exposto a seguir passo-a-passo. Vale a pena notar que é apenas um exemplo, não sendo obrigatória a existência de todos esses passos. Na verdade, na maioria dos casos não se seguem todos esses passos, ou mesmo parte deles. O método científico não é uma receita: ele requer inteligência, imaginação e criatividade. O importante é que os aspectos e elementos apresentados acima estejam presentes.
    • Definir o problema.
    • Recolhimento de dados
    • Proposta de uma hipótese
    • Realização de uma experiência controlada, para testar a validade da hipótese
    • Análise dos resultados
    • Interpretar os dados e tirar conclusões, o que serve para a formulação de novas hipóteses.
    • Publicação dos resultados em monografias, dissertações, teses, artigos ou livros aceitos por universidades e ou reconhecidos pela comunidade científica.
    Observe-se que nem todas as hipótese podem ser confirmadas ou refutadas por experimentos e que em muitas áreas do conhecimento o recolhimento de dados e a tentativas de interpretá-los já é uma grande tarefa como nas ciências humanas e jurídicas (criminologia).
    Fonte: wikipedia.

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