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Coordenação brasileira

Cinco anos da Missão de Paz no Haiti: encontros e desencontros

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PORTO PRÍNCIPE, HAITI – Há cerca de cinco anos, o Brasil dava um passo importante rumo a objetivos mais ambiciosos na sua tentativa de consolidação como potência, ao assumir a coordenação da Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti, a Minustah.

O papel brasileiro, visto inicialmente apenas como mantenedor da paz na antiga colônia francesa, vai muito além de patrulhar as ruas, atualmente. Contudo, as críticas pela atuação neste que é o país mais pobre das Américas, arrasado por anos de guerra civil, seguidos desastres naturais e erosão política, não são pequenas.

Visto por cima, o Haiti — que divide uma ilha com a República Dominicana — parece mais um dos paradisíacos arquipélagos caribenhos, com um bonito contraste entre as montanhas e o mar azul cristalino. Após a difícil aproximação, o avião pousa sem maiores problemas no Aeroporto Internacional da capital Porto Príncipe, o Toussaint Louverture. Já na saída, o ar quente, que faz as roupas colarem na pele e é típico do país, já dá as caras.

O cenário de ilha turística também some rapidamente.  Nas ruas, os capacetes azuis da ONU, formados por dezenove países além do Brasil, dentre eles Argentina e Estados Unidos, são vistos por toda a parte — junto com forças policiais nacionais e estrangeiras. O lixo se acumula em alguns pontos, dando, em certos locais, o nítido aspecto de estar se entrando em uma zona de guerra.

Atuação

Atualmente, há cerca de 1.200 militares brasileiros a serviço no país, entre fuzileiros, médicos e engenheiros militares.

“Os objetivos iniciais da Minustah são: estabilizar o país, pacificar e efetuar o desarmamento de grupos rebeldes e a promoção de eleições livres”, explica Benjamim Lacoste, especialista em Conflitos Internacionais da Universidade de Berna, na Suíça.

Desta forma, além de estarem aptos para atuar em conflitos em ambientes urbanos e garantir a manutenção da segurança, os militares também são capazes de desenvolver atividades sociais que beneficiem o povo haitiano. É destacável, neste ponto, que melhorias foram trazidas para o país. Foram realizadas eleições livres, apoiadas por organismos internacionais, e a segurança e a infra-estrutura, em muitos pontos da cidade, melhoraram consideravelmente.

“Aqui tudo era uma praça de guerra, a chegada dos soldados melhorou muito a vida. Estamos, com certeza, melhor com eles”, diz Jeanine Natú, enfermeira em Porto Prícipe.

No meio do ano, a Cruz Vermelha divulgou o resultado de uma pesquisa onde 522 pessoas com mais de 18 anos foram ouvidas em oito países, dentre eles o Haiti, sobre o impacto da violência gerado por conflitos armados em suas vidas. Segundo a organização humanitária, 41% dos entrevistados querem ajuda internacional na manutenção da paz em seu país.

O Brasil, além disso, faz investimentos no país, não relacionados aos gastos da atuação, que seriam da ordem de 700 milhões de reais por ano, para a manutenção das tropas. Além disso, inúmeras ONGs brasileiras atuam no país, como o Viva Rio.

Essas políticas são vistas por especialistas como uma tentativa do Brasil ganhar prestígio no panorama internacional, o que seria vital para suas aspirações a uma vaga permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas e de ser considerado um ator importante na tomada de decisões globais.

“O Haiti irá ser um caso agregador para o Brasil. Ele poderá mostrar que detém todas as capacidades para prover a paz em países arrasados, desde que obtenha sucesso no fim do processo”, diz Lacoste.

Críticas dentro e fora de casa

As críticas em relação a esse ponto, em que os objetivos do país no Haiti estariam ligados essencialmente a tentativa de ser mais influente, podem ser encontradas desde as ruas do país Caribenho até os corredores do Planalto.

Andando-se para as partes mais pobres de Porto Príncipe, é fácil encontrar críticas ferrenhas aos militares e sua atuação no país. O desempregado Martín Palòn, de 25 anos e com um francês carregado de gírias, parece não precisar tomar fôlego para falar dessa questão:

“Os soldados são truculentos, atiram pra matar, estão aqui só para garantir que as empresas de fora possam aproveitar do Haiti. Nos protestos pelo salário, muitos sofreram com a violência, ficamos com medo”, afirma.

O haitiano se refere às manifestações do meio do ano, em que manifestantes saíram às ruas exigindo a promulgação de uma lei de aumento do salário-mínimo e onde ocorreram repressões por parte de agentes da Polícia Nacional e militares da Minustah.

No Brasil, as críticas não são menos severas. Em junho, durante audiência pública na Comissão de Relação Exteriores do Senado sobre a Minustah, diversos membros de organizações civis pediram o fim das tropas no Haiti.

“O Brasil deveria se retirar imediatamente, pois nossa presença não ajuda em nada o povo haitiano”, disse à ABr, na época, o secretário-geral do Instituto de Defensores dos Direitos Humanos (ID

Muitos críticos brasileiros fazem coro às argumentações do haitiano Palòn, no sentido de que a presença brasileira serviria apenas para que interesses comerciais fossem garantidos no país caribenho, e não para a estruturação do país.

“O objetivo não é resolver a pobreza do povo haitiano, mas produzir para o mercado norte-americano com custos mínimos, pagando salários três vezes menores que os já baixíssimos pagos no Brasil”, continuou Bussinger.

O interessante é que as condenações são semelhantes àquelas recebidas pelas grandes potências com tropas em outros países. Ao que tudo indica, o Brasil terá que se acostumar com esses ataques, se realmente pretende possuir maior influência no campo internacional.

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9 Opiniões

  1. Maria Ângela Guimarães disse:

    O Brasil está se tornando uma potência regional, e vai ter que começar a se preocupar com questões que antes não lhe diziam respeito. o Haiti me parece ser só o começo, seguido po Honduras.

  2. Pedro Quiroga disse:

    O que define uma presença imperial? A manutenção de tropas para garantir os dividendos de um país. A presença brasileiro no Haiti é imperialista e só visa o lucro.Vergonha nacional

  3. Déborah Clausewi disse:

    Deveria haver mais divulgação. Não sabia que gastamos tanto dinheiro com problemas em outros países.

  4. carlos alberto disse:

    É interessante, né? Enquanto o Exército dá uma de xerife lá fora, as fronteras estão aqui desguarnecidas. Não é difícil imaginar que, com maior vigilância nas divisas, as drogas e a armas não chegariam com tamanha facilidade nos Estados e, obviamente, não estaria acabando com uma boa parcela dos jovens.

    A História relata que o povo haitiano é um sofredor nato. Para complicar ainda mais, vai lá para oprimir, as tropas de um país que também sofre os disabores da miséria, analfabetismos. Em fim, é herdeiro do mesmo destino do Haiti, pois passa por uma manipulação de fora para dentro que não lhe permite crescer como devia.

    Com a descoberta do Pré-sal, o Brasil também corre sério risco de ter às suas terras invadidas por tropas estrangeiras. O petróleo foi, e sempre será motivos para guerras no mundo. Será que o povo brasileiro vai gostar de viver assim, como estão vivendo os haitianos? Quem não se lembra da Ilha de Granadas, onde o povo subjugado apanhava de chicotes para não se rebelar? Quem viver verá…

  5. Markut disse:

    Ao que parece,é altamente constrangedor imaginar o Brasil o imperialista dos miseraveis.
    A verdade é que a coisa não está bem explicada e seria ,de fato, conveniente, o O&N se debruçar um pouco mais sobre esse assunto.

  6. Bruna Kobälter disse:

    Imperialismo? Ou tentativa de organizar um sistema internacionao caótico, onde as grandes potências estão cada vez mais descrentes de que o “terceiro mundo” pode funcionar.

    Acho o papel do Brasil no Haiti magnífico. Se formos esperar para “ajeitar a casa” para começarmos a atuar internacionalmente, não sei quando será.

    Parabéns pelo assunto

  7. Markut disse:

    @Bruna Kobälter,
    Cara Bruna.
    A nossa discordância é tanta, que comporta uma réplica, lembrando o inefavel Nelson Rodrigues para quem “toda unanimidade é burra”.
    Tentativa de organizar um sistema internacioal?
    Nós, que temos a nossa própria casa totalmente desarrumada, serviremos de exemplo internacional, quando pudermos mostrar “às grandes potências”,como você lembra, o resultado de uma arrumação interna, através de uma educação básica competente que consiga transformar gado humano em cidadão consciente e capacitado para enfrentar o mundo globalizado , ao qual pertencemos.
    Sugiro a leitura do artigo do Mailson da Nóbrega, no número da Veja de 7/10/09, fazendo referência á revolução provocada pela Coreia do Sul, entre outras coisas, através de educação, nos últimos 50 anos.
    É isso que vai poder mostrar o “terceiro mundo” funcionando , embora não esteja eu tão preocupado em ter que “mostrar” isso às grandes potências e não com essa tola exibição de imperialismo de sandália havaiana, ocupando recursos e esforços tão necessários ainda , aquí dentro de casa.
    É bom lembrar que o exército brasileiro anda tão minguado de recursos que se vê forçado a economizar até no rancho dos seus comandados, aquí,em casa.
    O que deve passar pela cabeça narcisista de um Lula sugere muito a de outro conterrãneo dele, nordestino tambem, Assis Chateaubriand, na sua perigosa ânsia de poder e prestígio pessoal.

  8. CORDEIROVARGAS disse:

    Estou cansando com a mídia ante nacionalista que insiste em ser dona da verdade neste país, que até bem pouco tempo, fazia do povo massa de manobra. Todo aquele que só tem olhos para o mal é porque não aprendeu ainda a ver o bem já dizia o filósofo. Leio diariamente inúmeras matéria sobre inúmeros assuntos e só vejo críticas, será que não tem nada de bom acontecendo neste país ou é a imprensa que se recusa a informar sobre a grande transformação por que estamos passando, se há erros e os há, há também em numero infinitamente maior asertos que merecem serem ressaltados, mostrados, discutidos e aperfeiçoados. Estou começando a compreender o porque de um número considerável de pessoas chamar parte da imprensa de PIG. Sds. a todos.

  9. Leonel Colombo disse:

    Sou de opinião, também, que os militares brasileiros que estão no Haity, pouco ajudam na melhoria de vida daquele povo, afora o trabalho feito pela engenharia, nada mais se vê de útil, os militares são os únicos com bom proveito, pois engordam seus vencimentos com dolares, para eles é muito bom, tannto que saõ contra a saída da tropo de lá, estão lá não com espírito de ajuda, a não ser a deeles mesmo, pois se vê que todo pessoal quer ir para o Haiti, e outra coisa, se querem usar o espírito humanitário, usem aqui, vão para o interior deste Brasil, construir estradas, ajudar a pobreza nossa, e que o governo deixe de fazer demagogia com as Forças Armadas.

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