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UNIÃO EUROPEIA

De quantos presidentes a Europa precisa?

Presidente da Comissão Europeia tenta implementar reformas, mas sofre com competição parlamentar

De quantos presidentes a Europa precisa?
Herman van Rompuy, presidente do Conselho Europeu, e José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia

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Nos últimos nove meses José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia, viveu na sombra de outro líder europeu, Herman van Rompuy, presidente do Conselho Europeu. Durante a crise econômica, Barroso foi acusado pelo Parlamento Europeu de ser “ausente”, e os maiores países do continente pareciam contentes com seu comportamento. Foi nos ombros de van Rompuy que caiu a tarefa de liderar o grupo responsável por elaborar as propostas para os futuros governos da zona do euro.

Barroso finalmente conseguiu sua chance de brilhar quando o Parlamento lhe pediu que fizesse o primeiro discurso de uma série de comunicados anuais, nos moldes dos discursos sobre o Estado e União dos presidentes norte-americanos. No entanto o excesso de zelo do Parlamento acabou atrapalhando seu grande momento. O órgão ameaçou punir membros que não comparecessem à sessão, mas seus líderes voltaram atrás quando se viram alvos da chacota e da fúria dos parlamentares. Barroso também foi escalado para discursar em Estrasburgo. No mesmo dia, ministros de finanças de todo o continente se reúnem em Bruxelas para definir as regulações da indústria financeira e as novas regras da zona do euro, o que serviu para isolar Barroso cada vez mais.

O Presidente da Comissão pode ter redimido a situação com sua retórica inspirada. Mas o texto, trabalhado cuidadosamente por semanas e semanas, não conseguiu injetar paixão no público, ou apontar direções. Barroso listou itens que ele vê como necessários para a Europa, mas pode ser incapaz de atingir: governo econômico, a promoção do crescimento, a criação de “uma área de liberdade, justiça e segurança”, a negociação de um novo orçamento e uma Europa “ocupando seu espaço no palco global”. Seus apelos foram pouco divulgados, de maneira que não foi difícil ignor-alos. “Racismo e xenofobia não têm lugar na Europa. Eu faço um apelo para que os fantasmas do passado europeu não sejam despertados”, disse Barroso, em referência à deportação de ciganos comandada por Nicolas Sarkozy, na França.

Barroso disse que preparará propostas “sem tabus” para a próxima rodada de negociações sobre o orçamento europeu, mas mencionou o abatimento da dívida britânica apenas como parte de “uma série de correções”, e não ousou falar sobre uma possível reforma da Política Agrícola do continente. Os tabus permanecem. Os membros do Parlamento criticaram o Presidente da Comissão que, segundo eles, falhou em promover aquela que é vista como a solução instintiva dos problemas europeus: “mais Europa”. Martin Schulz, líder dos socialistas e democratas, afirmou que Barroso faz um discurso “liberal-socialista-verde”, e que tinha razão, enquanto outros preferiram afirmar que a crise grega é fruto da ação de “especuladores”, e não de seus próprios erros de conduta e de suas mentiras estatísticas.”Os dias de apostar em incêndios na casa dos outros acabaram”, disse Barroso.

A situação do presidente é lamentável, até porque ele é visto como uma figura sensível no comando da Comissão Europeia, e comprometido com os mercados livres. De fato, ele pediu que a era dos estímulos fiscais chegasse ao fim, pediu reformas estruturais, e prometeu planos para derrubar as barreiras que ainda existem no mercado único. Seus próprios apoiadores se preocupam com sua falta de habilidade para propor tais medidas de maneira mais efetiva, especilamente agora que foi eleito para um segundo mandato. A Comissão tem poder burocrático e experiência dentro do sistema da União Europeia, mas ainda assim é um órgão débil.

Um dos problemas de Barroso é o fato de ele ser apenas um entre os quatro “presidentes” europeus: além de van Rompuy, há o presidente do Parlamento Europeu, Jerzy Buzek, e o presidente rotativo do conselho de ministros, atualmente nas mãos da Bélgica, ainda que o país novamente não tenha propriamente um governo estável (a Bélgica tem um governo temporário desde junho, quando os sepratistas da região de Flandres conseguiram bons resultados eleitorais). Nigel Farage, líder do Partido da Independência do Reino Unido, não economizou na franqueza ao comentar o discurso de Barroso: “Seu discurso não se compara com o de Obama, pois há uma diferença fundamental entre vocês: ele foi eleito e você não. 48 milhões de pessoas assistiram o discurso dele, e aqui no Parlamento, temos que implorar aos políticos para que te escutem”.

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Fontes:
Economist - How many presidents does it take to run Europe?

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