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Desvendando o mistério da gagueira

Pesquisadores estudam 'cérebros gagos' em busca de irregularidades que possam explicar a causa da doença

Desvendando o mistério da gagueira
O Discurso do Rei, filme vencedor do Oscar 2011, aborda a psicologia da gagueira

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Através dos anos a gagueira vem sendo atribuída a diversas causas. No século II, Galen associou o problema a um ressecamento da língua. No século XVII, Francis Bacon constatou que o enrigecimento na língua era a causa responsável pelo problema. No século XIX, cirurgiões sugeriram o grande tamanho de certas línguas como causa. No século XX, pais negligentes e até estímulos não realizados no sexo oral tiveram seus momentos de fama (O filme “O Discurso do Rei”, grande vencedor do Oscar 2011, salientou a psicologia). As soluções sugeridas foram tão variadas quanto as causas. Galen indicou que envolver a língua dos pacientes em um pano banhado em suco de alface poderia ajudar. Bacon recomendou vinho. Os vitorianos, exercícios com bisturi. Os psiquiatras, análise no sofá. Nenhum deles funcionou, exceto nos filmes.

Nos dias de hoje, como os delegados convocados para a reunião do AAAS, em Washington, DC, ouviram,  o debate gira em torno da anatomia do cérebro e dos genes. Luc de Nil, da Universidade de Toronto, tem estudado os “cérebros gagos”, utilizando tomografia com emissão de pósitrons e imagens de ressonância magnética. Ele descobriu que partes do cérebro, ligadas à produção da fala, são mais ativas em indivíduos gagos, enquanto aquelas envolvidas na percepção dos sons são menos ativas. Os dois tipos de cérebro — o de um gago e o de uma pessoa que não sofre de gagueira–  também tem características diferentes. Os gagos tendem, por exemplo, a ter mais matéria cinzenta densa nas áreas associadas aos processos e produções de sons. Tais diferenças, entretanto, devem ter causas mais profundas.

O fator hereditário

Dennis Drayna, do Instituto de Saúde Nacional das Américas, argumentou na reunião que a gagueira persistente é, ao menos parcialmente, uma questão genética. Ela ocorre em famílias. Dois estudos com crianças adotadas sugeriram que aquelas cujos pais eram gagos não eram mais propensas a desenvolver o impedimento que aquelas adotadas por não gagos.

Para descobrir que genes seriam responsáveis pelo fenômeno, Drayna analisou 44 famílias paquistanesas. No Paquistão, casamentos entre primos são comuns e a consanguinidade conduz a uma elevada incidência de doenças genéticas. A análise sugeriu que a gagueira estaria ligada a uma mutação no gene denominado GNPTAB — o que foi confirmado quando a mesma mutação foi subsequentemente descoberta em um número de gagos do Paquistão e Índia, que não estavam relacionados ao grupo da família original. Em janeiro, Drayna e seus colegas publicaram um artigo no Jornal da Genética Humana, rastreando a mutação em quase 600 gerações anteriores, até um ancestral comum que teria vivido cerca de 14 mil anos atrás.

Um estudo adicional com asiáticos do sul mostrou que as mutações em dois outros genes, GNPTG e NAGPA, foram encontradas em indivíduos gagos, mas não em não gagos. Todos os três genes afetados codificam enzimas que regulam os lisossomos (unidades das células de gestão de resíduos). Duas das mutações envolvidas também são conhecidas por causar uma doença rara chamada mucolipidose. Atingindo seus mais altos níveis, a doença é fatal nos primeiros dez anos de vida. Mesmo quando ocorre em sua forma leve tem sintomas que incluem o desenvolvimento anormal do esqueleto e até mesmo um leve retardamento mental.

Importantes exames mostram que aqueles com mutações relevantes não revelam sintomas de mucolipidose.  Drayna suspeita que as condições são causadas por uma dobra em uma estrutura terciária das enzimas em questão, mas os detalhes seriam diferentes. Nos gagos,  um grupo específico de células do cérebro, envolvido na produção da fala, seria excepcionalmente sensível à falha enzimática — talvez produzindo os padrões vistos por De Nil nos seus cérebros escaneados.

Para conseguir mais informações, Drayna está agora tentando unir os genes humanos que causam a gagueira no DNA de camundongos. Isso, obviamente, levanta a questão sobre qual seria o som de um rato gago. 

Para o ouvido humano pode não soar como nada. Entretanto, detectores de ultrassom conseguem lidar com isso. Com sorte, as causas da gagueira serão entendidas em breve. Se isso irá resultar em tratamentos mais eficazes que suco de alface e vinho, isso é outro assunto.

Fontes:
Economist - Speech therapy

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