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Esse retrato é um Leonardo da Vinci?

Retrato de Bianca Sforza divide especialistas e fica de fora de exposição na National Gallery de Londres

Esse retrato é um Leonardo da Vinci?
'La Bella Principessa' divide opiniões de especialistas quanto a sua autenticidade

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Terrível destino aquele da jovem moça, fruto de um adultério ocorrido há mais de 500 anos, e que hoje ainda relutamos a reconhecer. Casada aos 14 anos, Bianca era o fruto do amor de Bernardina de Corradis e do Duque de Milão, Ludovico Sforza, dito o Mouro. Ela morreu pouco tempo após o matrimônio. Um desenho que a retratava poderia ter figurado na maior exposição já dedicada a Leonardo da Vinci, que será aberta no dia 9 de novembro na National Gallery de Londres. Sessenta obras, pinturas e desenhos, entre os quais uma descoberta recente, Salvador Mundi, representando o Cristo dando uma bênção e segurando um globo na mão esquerda. Porém, os organizadores não quiseram reconhecer a jovem moça como uma obra do mestre. Segundo Peter Silverman, seu proprietário, eles não quiseram nem mesmo vê-la.

Ela é conhecida e contestada. Representando a jovem mulher de perfil, a obra foi vendida em 1998 pela Christie’s e foi considerada por especialistas da casa de leilões como pintada “no século XIX, provavelmente na Alemanha”. Foi sob essa designação que ela foi comprada por Kate Ganz, que tem em Manhattan uma galeria especializada nos mestres italianos da Renascença, mas que vende também desenhos modernos. Sua loja no Upper East Side é frequentada não apenas por colecionadores, mas também, como escreveu Richard Dorment, o excelente crítico de arte do Telegraph de Londres, por “inúmeros curadores e diretores de museu que, durante os nove anos em que a obra esteve lá exposta, concluíram que o desenho não poderia exceder os 100 anos de idade”.

Em janeiro de 2007, Peter Silverman, um comerciante norte-americano morando na França, se persuadiu de que talvez a obra possa ser mais antiga, e fez a aquisição. “Eu de início pensei em um Ghirlandaio”, disse ao Le Monde. “Depois eu me pus a sonhar: e se fosse de da Vinci?”. Silverman foi encorajado em sua fantasia por Martin Kemp, professor de história da arte do Trinity College de Oxford, e especialista reconhecido em da Vinci, que se debruçou sobre a análise do quadro, que lhe rendeu um livro. Intitulado Leonardo da Vinci, La Bella Principessa, the Profile Portrait of a Milanese Woman (editora Hodder & Stoughton), a obra se apoia em descobertas realizadas pela empresa francesa Lumière Technology, uma marca digital que poderia corresponder àquelas conhecidas de da Vinci. A descoberta, revelada pelo jornalista Simon Hewitt, caiu como uma bomba na imprensa.

No entanto, como era de se esperar, os especialistas estão divididos. Uma meia-dúzia, e não dos menos conceituados, como Carlo Pedretti ou Nicholas Turner. Outros, também de grande nome, como Klaus Albrecht Schröder, diretor do Museu Albertina de Viena, ou os curadores do Museu Metropolitan de Nova York, Carmen Bambach e Everett Fahy, que organizaram uma exposição de desenhos de Leonardo, a recusam.

O texto mais analítico produzido contra a autenticidade do desenho é a obra não de um especialista, mas do crítico já citado, Richard Dorment, que, comentando o livro de Kemp, critica que não se trata de “história da arte, mas de uma apologia”. Publicado em 2010, seu artigo é um modelo de pesquisa, inquirindo, pró e contra, todos os especialistas.

Assim posa-se a questão: o desenho é realizado em pergaminho, um velino (papel de couro de vitelo) mais precisamente. Luxo que da Vinci jamais utilizou. Em contrapartida, os falsários, sim. Os pergaminhos virgens e antigos existem em abundância, e a datação por carbono 14, que a situa entre 1440 e 1650, prova a antiguidade do couro, mas não do desenho. E, sobretudo, aponta Richard Dorment, “La Bella Principessa não tem nenhuma proveniência antes do século XX… Isso é simplesmente impossível…”

Martin Kemp voltou ao desafio. E apresenta hoje uma genealogia mais sedutora. Em comunicado, ele anunciou junto com Pascal Cotte, diretor científico da Lumière Technology, ter descoberto a origem do velino. Ele teria sido retirado, provavelmente em uma restauração, há dois séculos, de um livro conservado na Biblioteca Nacional de Varsóvia. A pista foi dada por David Wright, professor da Universidade da Flórida, especialista nos Sforziada, livros impressos em velino no final do século XV por herdeiros da família Sforza. Quatro exemplares são conhecidos: um no Uffizi de Florença, um na Biblioteca Nacional de Paris, outro na Biblioteca Britânica, e o último em Varsóvia.

Desse último, do qual Kemp acredita que a obra tenha feito parte na ocasião do casamento de Bianca Sforza, uma folha está faltando. E os buracos dos nervos das ligações correspondem exatamente aos que estão na borda esquerda do pergaminho de Peter Silverman, que é também do mesmo tamanho e da mesma espessura. E os autores concluem que esse desenho outrora anônimo está agora entre os mais bem documentados, no que diz respeito a “quem encomendou, seu tema, sua datação, sua destinação original, sua função…”.

Seria ele da mão de Leonardo da Vinci? Um jornalista não tem qualificação para tomar essa decisão. Mas aqueles que crêem ser uma imitação do século XIX terão que rever sua posição.

Fontes:
Le Monde - Ce portrait est-il un Léonard de Vinci ?

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